sábado, 16 de janeiro de 2016

"CAMINHANDO POR MANAUS" - O CENTRO HISTÓRICO - PARTE I


APRESENTAÇÃO

Este livreto não se propõe a ser um documento de registro histórico, mas sim um instrumento de efetiva utilidade para o turista mais exigente e minucioso, que deseje conhecer Manaus mais intimamente, percorrendo a pé seus becos, ruas e avenidas.  São ao todo cinco roteiros, cuidadosamente elaborados por Thérèse Aubreton - uma francesa residente em Manaus e radicada no Brasil há anos, professora de história e agente de viagens. Seus olhos e caneta captaram e registraram tudo o que aqui pode ser desfrutado. A pesquisadora não se limitou a consultar livros e documentos. Os cinco roteiros a pé foram atentamente feitos e refeitos, tendo sido anotados cada detalhe pitoresco, cada aspecto curioso. Aspectos relevantes da nossa história, arquitetura, hábitos e costumes, regionalismos, etc., foram registrados. A Sra. Aubreton foi até mesmo à França, com o objetivo de estudar, comparar e comprovar semelhanças e dados, fundamentando melhor ainda aquilo que a FUMTUR  lhe havia encomendado. O resultado está aí, para o conforto e melhor aproveitamento da estada de nossos turistas. Esta publicação da Prefeitura de Manaus, através da Fundação Municipal de Turismo - FUMTUR,  pretende ser o início de outros relatos e registros para uso turístico.
Manaus, Agosto, 1996

ROTEIRO 1


Saída da Praça São Sebastião, em frente ao Teatro Amazonas.


MONUMENTO À "ABERTURA DOS PORTOS"

No centro da praça pode ser observado o Monumento Comemorativo à Abertura dos Portos e Rios da Amazônia à Navegação Estrangeira, ocorrida em 1866,
Este monumento não é o original. O primeiro levantado era somente um obelisco, inaugurado em 1867, registrando a data do acontecimento histórico.


Em 1899, com a riqueza advinda da exploração da borracha, ergue-se outro monumento (o atualmente existente) mais imponente e de maior valor artístico, sob a supervisão e criação do artista italiano DOMENICO DE ANGELIS, que na época dedicava-se à decoração do salão nobre do Teatro Amazonas, então em construção, Todo o material foi importado  da Europa, especialmente da Itália. O granito, por exemplo, foi trazido de Bavena e a frisa, ao meio do monumento, foi fabricada em mármore de Carrara.  Os elementos em bronze, na forma de máscaras no estilo antigo, dispostos na frisa, foram fundidos em Gênova. A estátua, ao cimo do monumento, também em bronze, realizada nos famosos ateliês de Enrico Quatrini, em Roma, é uma alegoria ao comércio. Ao lado vê-se uma estátua do deus Mercúrio sentado em uma engrenagem (símbolo da Indústria e Comércio), cercado por três meninos, em bronze.
Inaugurado em 1900, no ano da comemoração do quarto centenário do Brasil, o monumento simboliza os quatro "cantos do mundo" - África, Europa, Ásia e América, cada  um  representado pela proa de uma embarcação, com um menino sentado.







No barco da África, sentado em uma cabeça que simboliza o Egito, com símbolos também egípcios, um menino segura duas presas de elefante; o barco da Europa, que exibe uma águia à proa, mostra um menino segurando um globo terrestre; o barco asiático mostra o "croissant"; símbolo dos muçulmanos, caracteres antigos gravados à proa e o menino às costas de um leão; no barco da América encontram-se agrupados elementos decorativos diversos, com o menino à proa e uma serpente enrodilhada na quilha do barco.
O monumento registra a data de XV de Novembro de 1889, em que se comemora a Proclamação da República do Brasil, ressaltando o nome de José Cardoso Ramalho Júnior, na época governador do Estado.
Em 1995 a praça foi integralmente recuperada pela Empresa XEROX DO BRASIL.


A maioria das árvores que cercam a praça são Oitis ("Licania tomentosa" ) e Viuvinhas ("Petrea volubilis schauer"). O piso - com desenhos sinuosos que posteriormente teriam inspirado as calçadas de Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro - simboliza o encontro das águas dos rios Negro e Solimões.


TEATRO AMAZONAS

Em frente à praça ergue-se imponente o Teatro Amazonas, sem dúvida o mais importante marco de nossa Cidade, símbolo de anos de fausto poder (época áurea da borracha, entre 1890 e 1910 , com muitas estórias verdadeiras ... e falsas. A sua edificação caracteriza um período em que o leite da seringueira tudo comprava. Era a época da borracha!
O projeto de construção do teatro data dos idos de 1881. Em 1883 o Governo do Estado aprova as plantas do "Gabinete Português de Engenharia e Arquitetura de Lisboa" e as obras são iniciadas em 1884, numa antiga roça localizada perto do aterro do Igarapé do Espírito Santo (hoje Av. Eduardo Ribeiro).


A firma italiana ROSSI & IRMÃOS incumbe-se da realização das obras, mas tem sua contratação cancelada pela lentidão e irregularidade constatadas no trabalho. Assim, a construção é paralisada em 1886 e vai reiniciar-se somente em 1893, sob o impulso empreendido pelo Governador Eduardo Ribeiro, que - motivado pela falta de material de construção e mão de obra - opta pela importação de matéria prima, operários, artistas, decoradores...
A cúpula do Teatro Amazonas, símbolo da cidade, foi duramente criticada pela opinião pública da época, que a julgava uma extravagância.
A armação de ferro foi importada da Europa e as telhas envernizadas,formando os contornos da bandeira brasileira, nas cores verde, amarelo, azul e branco, foram importadas da Alsásia (região francesa onde tradicionalmente os tetos de certas casas são cobertos com telhas similares), acondicionadas em redes durante a travessia do Atlântico.
A grandiosidade da cúpula, com seus contornos formando a bandeira brasileira, nas cores próprias, permitia que pudesse ser divisada ao longe pelos barcos que aportavam a cidade, lembrando a sua permanência em terras brasileiras.
Aproximemo-nos agora da entrada do Teatro.
Subindo as escadas principais de acesso observaremos, no frontão, uma alegoria em homenagem à música , à poesia, ao teatro e à arquitetura, com duas elegias - uma acompanhada por lira e máscara e outra segurando um compasso e pergaminhos. No alto encontram-se registradas as datas históricas da inauguração (1896) e das várias reformas havidas até os dias de hoje.
Durante anos a cor de suas paredes externas foi veementemente questionada pelos estudiosos. Na dúvida, as opiniões divergiam entre o cinza e o rosa. Pesquisas muito cuidadosas foram realizadas a esse respeito, quando da última reforma (1989/1990 ) e chegou-se à conclusão que, ao que parece, o teatro não estava ainda pintado na época de sua inauguração. No entanto, pelas evidências, a primeira pintura teria sido feita efetivamente em róseo.
Erguem-se em frente à fachada duas estátuas - à esquerda uma mulher, tendo às mãos uma lira estilizada com os contornos de um casco de tartaruga, simboliza a música; e à direita uma mulher, com pena e prancheta às mãos, simboliza a poesia.
Em estilo neoclássico, com adaptações regionais (tais como as calhas que saem das máscaras), vê-se ao lado esquerdo da fachada o baixo relevo de um rosto sorridente, a comédia, personificada pela musa Thalie e, ao lado direito, a fisionomia fechada da tragédia, caracterizada pela musa Melpomene. Essas representações, inclusive, são notadas em vários pontos da parte externa do prédio.
O revestimento do piso ao redor do teatro foi especialmente fabricado com uma liga de borracha para que o forte ruído das rodas das carroças pudesse ser abafado,
Penetremos agora no prédio ...
No "foyer" da entrada observam-se, ainda, antigos bancos de ferro em estilo "art-nouveau". Os pedestais das colunas e o piso são em mármore de Carrara. A sala de espetáculos (a plateia), com 685 lugares, mostra-se em seu estilo original após a reforma havida em 1989 que, apoiada em cuidadosas pesquisas, primou pela obediência aos padrões originais, exceto o veludo das cadeiras em jacarandá (originalmente em palhinha) e do sistema de refrigeração central.
O pano de boca, com 195 m2, confeccionado pelo artista pernambucano Crispim do Amaral , cenógrafo da "Comédie Française", em Paris, faz alegoria ao "Encontro das Águas" (dos rios Negro e Solimões) e mostra grandiosa pintura da deusa IARA circundada por aspectos da flora e fauna regionais.
Interessante é que, ao contrário da realidade, na alusão ao "Encontro das Águas", os rios (negro e barrento) encontram se representados com a mesma cor... O pano foi pintado em Paris e trazido depois para Manaus e lá não se sabia dessa diferença! A fim de que a pintura não sofra danos o pano não se enrola, mas sobe reto numa só peça teto adentro.
O palco nos dias atuais é sofisticado. Foi construído dentro dos mais avançados padrões e é acionado por sistema hidráulico, que permite a subida e descida de nível conforme as necessidades do espetáculo. Na apresentação de óperas, por exemplo, a orquestra fica comodamente alojada no fosso, em frente ao palco.
O teto mede 220 m2 e foi concebido em Paris, nos ateliês da "Maison Carpezot". Observando-se atentamente a pintura tem-se a impressão de estar embaixo da Torre Eiffel (Paris), na época recém-inaugurada, em comemoração aos cem anos da Revolução Francesa, representava o protótipo do modernismo da arquitetura. Observa-se, entre as bases da torre, quatro interessantes cenas alegóricas representando a dança, a música, a tragédia e - por último - uma homenagem à Carlos Gomes com motivos das óperas "TOSCA", "CONDOR" , "O GUARANI" e " LO SCHIAVO" , todas de sua autoria.
Importado da França, o lustre central desce ao chão para permitir a reposição das lâmpadas.
As grades dos camarotes, as colunas e todas as peças de ferro da sala, foram importadas da França .
Ao redor da sala observam-se máscaras teatrais homenageando os grandes vultos da música e do teatro, desde os gregos antigos (Ésquilo e Aristófane) até os mais recentes Verdi (ainda vivo na época da inauguração do teatro), Shakespeare, Molière, Rossini, Schiller, etc.
O teatro foi oficialmente inaugurado em 31 /1 2/1896, com uma apresentação local. Em 1897 é exibida a ópera LA GIOCONDA, de Ponchielli, com letra de Arrigo Boito, inspirada na peça de Victor Hugo "ANGELO, TYRAN DE PADOUSE" , pela Companhia Lírica Italiana.
As apresentações das grandes companhias europeias prolongaram-se até 1907, quando a Companhia Lírica  Francesa encerrou o ciclo áureo do teatro, com a apresentação da ópera LA JUIVE, de Halévy. Inicia-se o declínio do lucrativo comércio do látex e o teatro entra em uma triste fase de abandono, ao ponto de ter suas galerias utilizadas como depósitos de borracha, durante a 2°. guerra mundial.


O SALÃO NOBRE

No segundo piso localiza-se o salão nobre, que naquela época era frequentado por visitantes ilustres, durante os intervalos dos espetáculos, para conversas e fumo ou, ainda, para elegantes bailes que reuniam a nata da sociedade manauara. O piso deste salão, confeccionado em madeiras brasileiras e europeias (pau-brasil, carvalho, pinho de Riga, jacarandá, etc.), é constituído de 12.000 peças, encaixadas sem a utilização de pregos ou cola.


O desenho do piso é atribuído a Domenico de Angelis (Pintor italiano ligado ao ateliê do Prof  Capranese em Roma que também trabalhou na decoração do Teatro da Paz em Belém/PA) que,auxiliado pelos artistas também italianos Francisco Alegiane, Adalberto de Andreis e Sílvio Centofanti (autor dos murais da Igreja de São Sebastião), pintou ainda o teto e as paredes.
O teto, de 125 m2, datado de 1899, é o segundo do Brasil pintado com motivos profanos e representa a "Glorificação das Belas Artes na Amazônia". Alguns detalhes foram realizados em ouro de 14 quilates. A obra produz uma fantástica ilusão de movimento: o observador, ao deslocar-se, tem a sensação de que certos detalhes do conjunto também se movimentam.
Sabe-se que o Salão Nobre foi acabado depois da inauguração da sala de espetáculos, em 1 899.
Nas paredes, Domenico de Angelis pintou falsos "gobelins", imitando tapeçaria, com alegorias enfatizando a fauna, flora e comércio local; os igapós; a pesca no Rio Negro; aspectos da cidade; vista do Rio Amazonas e a cena final da ópera O GUARANI (de Carlos Gomes), com o índio Peri salvando Ceci de um incêndio. Os quadros foram pintados em tela e afixados depois de prontos.




As colunas têm base em mármore de Carrara e o corpo estucado para dar a impressão de tratar-se de ferro. Sobressaem magnificamente trinta e dois candelabros em cristal de Murano, portas com moldura em mármore de Verona e dois grandes espelhos importados da França colocados de forma a refletirem-se um ao outro, dando ideia de infinito - são importantes detalhes que complementam a grandiosidade do conjunto. Este tipo de recurso é típico dos estilos barroco e rococó.
Os móveis são brasileiros, fabricados no Rio de Janeiro.
No terraço , vários bustos homenageiam os grandes virtuoses da música e do teatro, inclusive o compositor Cárlos Gomes (de O GUARANI) e o dramaturgo João Caetano (1808-1863), que fundou em 1833 a primeira companhia dramática do Brasil, em Niterói.



Na fase áurea da borracha o teatro possuía móveis importados da Europa; porcelanas chinesas, francesas e japonesas; bibelôs de Sévres (centro de fabricação de cerâmica de luxo, próximo a Paris) ; tapetes e cortinas da Síria (Damasco). Na verdade, quase tudo foi importado da Europa, com exceção do material elétrico que foi adquirido na América (Nova York), especialmente porque o "chic" se encontrava lá... e Manaus era muito "chic" ... Muitas das peças outrora adquiridas hoje não mais existem.
Muitas estórias são contadas acerca da apresentação no Teatro Amazonas de lendárias personagens do teatro e da música. Caruso e Sarah Bernard, que estiveram no Brasil, jamais vieram até Manaus. No entanto, numerosos artistas, famosos na época, se apresentaram em seu palco, destacando-se Giovanni Emanuel, Lucila Perez, Josefina Rebledo, Guiomar Novais e Heitor Villa-Lobos, uma vez que Manaus fazia parte do circuito dos navios que traziam as grandes companhias de espetáculos para a América do Sul e para os Estados Unidos da América.
Em 1996, em comemoração ao centenário do teatro, apresentou-se o tenor espanhol José Carreras, junto com a Orquestra Sinfônica Brasileira. Assim, a Opera de Manaus (Teatro Amazonas) ainda faz jus à tradição de seu glorioso passado.
Duas casas de espetáculo serviram de modelo ao Teatro Amazonas - o SCALA de Milão e o Palácio GARNIER, de Paris. O Palácio GARNIER, Opera de Paris, com 2156 lugares, foi construído entre 1862 e 1875, durante as grandes obras de reforma de  Paris, dirigidas pelo Barão Haussmann, no Segundo Império. O SCALA, de Milão, com 3600 lugares, é o mais antigo e foi construído em 1776 - trata-se de um dos maiores teatros do mundo.
Saindo do teatro, dirija-se à parte de trás...


Nos terraços laterais duas estátuas (de um homem e uma mulher) representam índios segurando tochas.
Aos fundos duas belas  estátuas femininas chamam a atenção - a da direita empunha uma espada e a da esquerda mostra-se envolvida em pesada túnica desde a cabeça, segurando um ramo de flores.
Interessante observar na parte lateral e nos fundos do teatro que existem suspensas interessantíssimas luminárias em estilo antigo.
Do terraço posterior do teatro tem-se uma belíssima vista do Palácio da Justiça. 



O PALÁCIO DA JUSTIÇA

Descendo as escadarias estaremos em frente ao imponente Palácio da Justiça. Sua edificação, iniciada pela firma inglesa MOERS & MORTON, em 1894, na gestão do Governador Eduardo Ribeiro, é completada em 1900, na gestão do Governador José Cardoso Ramalho Júnior, por uma firma brasileira.
Durante todos esses anos o prédio manteve-se sempre com a sua destinação original de abrigar a sede do Poder Judiciário.
O estilo da construção foi inspirado na arquitetura do 2° império francês, acrescentado de elementos tardios do neoclassicismo inglês.


A edificação de dois pavimentos teve sua aparência externa cuidadosamente preservada ao longo de mais de um século.
O térreo tem revestimento de alvenaria, com tratamento de bossagem, janelas e portas em arco pleno e colunas do pórtico da ordem toscana. O segundo andar caracteriza-se por alvenaria lisa, janelas de púlpito de verga reta, com frontões curvos e triangulares e colunas do pórtico da ordem composita.
A escada monumental da fachada é de mármore.
Na parte superior da fachada uma grande estátua de TEMIS ( a deusa grega da Lei e da Justiça ) , de olhos desvendados, segura à mão direita uma espada e à esquerda uma balança. Embaixo um medalhão onde se lê - LEX (Lei). Ao contrário das representações comuns da Justiça verifica-se que a estátua não tem venda sobre os olhos, o que a torna bastante incomum, uma vez que Têmis é tradicionalmente apresentada cega. Por outro lado, ainda, nota-se que a balança em suas mãos pende, em desequilíbrio, para um dos lados.
O interior é barroco, com profusão de ornamentos.
Por tratar-se de uma repartição pública a visitação é bastante restrita.
Observa-se, ainda, bem na esquina da Av. Eduardo Ribeiro com a Rua 1 0 de Julho, em frente ao Palácio da Justiça, os vestígios dos trilhos de bonde. Manaus, rica em borracha, foi uma das primeiras cidades brasileiras a possuir bondes elétricos, desde o final do século XIX, antes inclusive das grandes cidades do leste-sul.


MANAUS E OS BONDES

Em 1889 foi inaugurada em Manaus a primeira linha de bondes. Em 1893, sob a gestão do Governador Eduardo Ribeiro, novo impulso é dado ao serviço. Em 1896 é inaugurado o Serviço de Viação Pública, que levava os passageiros do centro para os subúrbios e vice-versa. Finalmente, em 1908, a empresa passa a ser administrada pelos ingleses da "The Manaos Tramways and  Light Co. Ltd." A pontualidade britânica reflete-se na obediência rigorosa dos horários e o bonde passa a ser referencial sempre que se desejava saber as horas. Até o ano de 1939 não havia em Manaus outro meio de transporte coletivo além do bonde.
Atrás do Palácio da Justiça, na Rua 1 0 de Julho, localiza-se o hospital SANTA CASA DE MISERICÓRDIA, construído em estilo eclético.


A data de 10 de Julho é alusiva à comemoração da libertação dos escravos no Amazonas, ocorrida em 1884, quatro anos antes da abolição no Brasil.
Diversas fachadas de casas particulares, em diferentes estilos arquitetônicos, datando da época áurea da borracha, poderão ser notadas,
Na esquina da Av. Eduardo Ribeiro com a Rua Monsenhor Coutinho situa-se o IDEAL CLUBE (um prédio verde), famoso desde a época da borracha e até hoje ainda um dos mais frequentados pela elite manauara.


Dobre a esquerda e entre na Rua Monsenhor Coutinho. A cinquenta metros localizam-se dois prédios muito interessantes - um utilizado como funerária e outro como laboratório de análises (pela parte interna  ambientado historicamente), ambos datados do início do século. Vale a pena entrar no pátio e observar mais de perto. O pessoal é especialmente amigável com os visitantes.
Rua abaixo, à esquina da Monsenhor Coutinho com a Rua Ferreira Pena, situa-se o Consulado do Japão. O prédio é antigo e possui detalhes arquitetônicos interessantes, como um busto de mulher no canto da casa, dominando o frontão. Manaus tem uma colônia japonesa e numerosos navios de bandeira nipônica aportam frequentemente em seu cais.
Dobre agora à direita, na Rua Ferreira Pena, até o cruzamento com a Rua Ramos Ferreira.
Na esquina ergue-se um belo casarão, datando de 1909, recentemente reformado. As cores, em tons pastéis, combinam entre si ressaltando detalhes arquitetônicos interessantes. Pelas janelas do térreo, vê-se um belíssimo porão, com abóbadas em pedra, antiga adega e hoje um salão de negócios.
À esquerda vê-se a Praça Cinco de Setembro, também chamada de Praça da Saudade, pois no passado havia um cemitério às suas proximidades, no mesmo lugar onde hoje está localizado o Atlético Rio Negro Clube.
A praça é arborizada com sibiripirunas (Caesalpina pelthoroides benth), allamandas, papoulas e "frutos de cachorro" (Dillenia indica L), Ao meio ergue-se um monumento erguido em homenagem a Tenreiro Aranha, que foi o 1 ° presidente da Província do Amazonas.


TENREIRO  ARANHA E O CINCO DE SETEMBRO

No século XIX, a região de São José do Rio Negro ainda encontrava-se subordinada à administração de Belém (Pará).Em 1844,inconformado com a situação, João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha inicia renhida luta com o móvel de conseguir a independência e, assim, nasce em cinco de setembro de 1852 a Província do Amazonas, que tem o próprio Tenreiro Aranha como o primeiro presidente. Grande trabalho social e cultural é realizado até 1852. Vítima, porém, das intrigas e perseguições morre Tenreiro aranha, pobre e esquecido, em 1862.
Na época da independência da Província do Amazonas a capital ainda não se chamava Manaus. Em 1848, é elevada à categoria de cidade, com o nome de Barra do Rio Negro, com mais ou menos 600 habitantes. Só em 1856 é que o nome Manaus, subtraído de uma das tribos indígenas do Rio Negro, vai identificar a cidade.


Ainda na Praça da Saudade, no trecho que ladeia a Rua Ferreira Pena, pode-se observar um chafariz moderno, que exibe duas esculturas curiosas, uma representando um homem pré-histórico segurando um machado de pedra e outra reproduzindo um homem moderno.
Na esquina da praça com a Rua Simão Bolívar vê-se outro prédio antigo, em estilo árabe. Trata-se do Palácio Cinco de Setembro.
Retorne pela mesma Rua Ferreira Pena e dobre a esquerda, na Rua Ramos Ferreira , até a Praça do Congresso, no final da Av. Eduardo Ribeiro.


A PRAÇA DO CONGRESSO

Seu nome homenageia o Congresso Eucarístico Diocesano de Manaus, que em 1942 comemorou os 50 anos de criação do bispado, quando gigantesca procissão fluvial aconteceu, de Belém até Manaus, subindo o rio Amazonas. O monumento que se ergue, em frente ao Instituto de Educação do Amazonas, representa N. S. da Conceição, a Padroeira do Amazonas, e também comemora o quarto centenário da descoberta do Rio Negro, em 1542, por Francisco  Orellana - a primeira visão do rio Negro pelos homens brancos.
Esta praça foi reformada pela CCE da Amazônia em 1995.
Dela  avista-se a Avenida Eduardo Ribeiro em toda a sua extensão. Às suas costas vê-se o Instituto de Educação do Amazonas (IEA), que ocupa o mesmo lugar onde na época da borracha teria sido iniciada a obra do Palácio do Governo, jamais concluída. Pouco se sabe acerca do prédio atual.
Seguindo pela Rua Ramos Ferreira tem-se à direita uma bela vista da cúpula do Teatro Amazonas e à esquerda, mais a frente, um dos prédios mais representativos da saudosa época da borracha, o Instituto Benjamim Constant, nome do grande republicano que propagou no Brasil as ideias positivistas de Augusto Comte.


O INSTITUTO BENJAMIN CONSTANT

Construído entre 1892/1894, no governo de Eduardo Ribeiro, grande admirador de Benjamim Constant.
O prédio, em estilo eclético, tem sua fachada em linhas horizontais e simétricas, com uma enorme  escada unido curiosamente o térreo ao segundo pavimento. O portão de ferro, à entrada, é um dos raros exemplos de fundição ornamental em Manaus, com detalhes de flores e personagens estilizados. Existem, ainda, jardim e capela. Em 1893 a administração do instituto era realizada por cinco irmãs da Ordem de Sant'ana, que cuidavam da educação de aproximadamente cinquenta alunos. Hoje o edifício abriga uma escola pública.


Em estilo antigo, vê-se o prédio da Academia Amazonense de Letras, na esquina da Rua Ramos Ferreira com a Rua Tapajós. Trata-se de construção antiga, com bela fachada, que data da época da borracha, quando abrigava uma escola. É mais um exemplo do carinho e da preocupação dos governantes da época com relação ao ensino público.


Em frente à Academia não deixe de visitar a banca de "tacacá" da Dona Maria, que funciona somente ao entardecer. O "tacacá" é um representante típico da gastronomia da Amazônia, servido em cuias e preparado com uma mistura de goma e tucupi (produtos extraídos da mandioca), camarão e jambu  (erva de sabor muito especial). É imperdível. A banca da Dona Maria também oferece outras delícias da cozinha local.
Continue a caminhada pela Rua Ramos Ferreira, até o n° 1 .036, casarão que abriga o Museu Amazônico.




O MUSEU AMAZÔNICO

O Museu Amazônico foi fundado pela Universidade do Amazonas, em 1991 , e funciona como órgão de apoio e pesquisa nas áreas da história, antropologia e arqueologia.
O museu apresenta exposições temporárias sobre assuntos culturais amazônicos e possui grande acervo de livros, documentos originais, fotografias, filmes e microfilmes, o que permite um amplo acesso às informações sobre a região desde o Século XVII. Encontram-se ainda guardados importantes documentos sobre a Amazônia colonial, imperial e sobre a república, microfilmados do Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, da Biblioteca Municipal do Porto e da Sociedade Geográfica de Lisboa. O Museu Amazônico abriga, ainda, um espetacular conjunto de 3.200.000 documentos pertencentes ao Fundo J. G. de Araújo (firma  exportadora/importadora estabelecida em Manaus desde 1879), que registram com fidelidade a história sócio econômica da Amazônia, desde a época da borracha até dias mais recentes.
Pode também ser visto o extraordinário acervo da obra do fotógrafo e cineasta português Silvino Santos, o maior documentarista visual da Amazônia, que viveu no período de 1886/1970, representado por cerca de 1 .500 negativos em chapa de vidro, dois filmes curta-metragem 1 6 mm ("O Fim do Pioneiro" e "1922, A Exposição da Independência") e várias peças de seu laboratório fotográfico particular.




SILVINO SANTOS (1886-1970)

Nascido em Portugal, sonhava desde cedo em conhecer a Amazônia. Em 1913 iniciou seu trabalho como cinegrafista, na Peruvian Amazon Company. Em 1922 é contratado pela firma amazonense J. G. de Araújo, para quem realizou vários documentários e centenas de fotografias, retratando com extrema  sensibilidade aspectos sociais, citadinos, indígenas e selvagens da Amazônia.
Retorne pela Rua Ramos Ferreira, vire à esquerda na Rua Tapajós e desça em direção à Praça São Sebastião (aquela do teatro). À direita encontram-se o Luso Sporting Clube ,  com sua arquitetura " manuelina " copiada dos prédios de Portugal, fundado e administrado pela comunidade portuguesa; e o Centro de Artes Hanemann  Bacelar (também chamado de Centro de Arfe da Universidade do Amazonas - CAUA), que oferece concertos de jazz, clássicos e música regional, exposições de pintura e escultura, sessões de cinema e vídeo, livraria e mantém numerosas oficinas de arte.
De volta à praça entre agora na Igreja de São Sebastião...


A IGREJA DE SÃO SEBASTIÃO

A construção do prédio da igreja, sob a direção de Gesualdo Machetti de Lucas, data de 1888, Com o fim do Império e consequente Proclamação da República a obra sofreu atrasos em decorrência do corte de recursos anteriormente garantidos pelo Estado.


O prédio é em estilo neoclássico, com alguns elementos medievalistas. Muitos dos objetos originais, tais como vasos sacros de ouro e porcelana, já não mais existem. Estão intactas as pinturas que cobrem o teto, desde a entrada até o altar, incluindo a cúpula e as paredes. Trazidas da Itália e afixadas no local são de autoria de Sílvio Centofanti, Francisco Campanella e Ballerini. A maior delas, pintada por Ballerini no teto, logo à entrada, mostra o martírio de São Sebastião; na base da cúpula retrata os quatro evangelistas; e na própria cúpula a "Glória do Céu" com oito anjos. Nas laterais da nave existem telas representando São Pedro e São Paulo.


A capela lateral, à esquerda, abriga um interessantíssimo presépio em tamanho natural, com um grande camelo, trazido da Europa por uma rica família manauara. Na capela-mor existe uma bela estatueta de São Sebastião, ladeada por três vitrais modernos e quatro telas de inspiração franciscana, assinadas por Francisco Campanella. A "Via Crucis" (a observação é dificultada uma vez que localiza-se muito em cima) é notável, com seus quadros em relevo, A fachada tem somente um sineiro - o segundo jamais foi construído. Certos autores dizem que infiltrações de água motivaram a . paralisação das obras, que nunca mais foram reiniciadas. Outros dizem que o mestre de obras teria fugido com o dinheiro destinado à construção...

Voltamos ao ponto de partida.
Existem pelos arredores muitos bares interessantes, especialmente o tradicional Bar do Armando, onde se pode saborear uma cervejinha ou um bom refrigerante supergelados.

sábado, 19 de setembro de 2015

O IGARAPÉ QUE VIROU AVENIDA: ESPÍRITO SANTO



É um fato histórico bem conhecido e até documentado em fotografias. Mas achei interessante reunir informações numa animação mostrando como seria o antes e o depois, tendo ao fundo a música "Danúbio Azul". Também não é novidade que as cheias que atinge a avenida Eduardo Ribeiro é uma demonstração da existência dos igarapés aterrados junto com o Espírito Santo.
Usei principalmente duas fotos, uma mostrando um bonde na Avenida Eduardo Ribeiro. de um postal colorido de 1905 ou 1906. E uma foto colorizada pelo Sr. Paulo Menezes, que está no Facebook "Manaus em Cores".


Imagem retirada do primeiro postal da cidade.

Imagem montada com uma foto e um pintura mostrando a catedral em construção.

Duas fotos reunidas numa só. Aqui aparece também a Catedral em fase final da construção e mostrando o Igarapé do Espírito Santo onde hoje é a Avenida Eduardo Ribeiro. Uma ponte que existiu no cruzamento do Igarapé com a Rua Municipal, hoje, Sete de Setembro. As fotos também foram colorizadas pelo Sr.Paulo Menezes.

Cheia de 2012 que alagou a Eduardo Ribeiro, em proporção,  maior que a de 1953.

Efeito digital que deixou a avenida deserta.

Avenida Eduardo Ribeiro em postais coloridos.
Uma versão não colorizada do Igarapé do Espírito Santo.

A ideia de juntar as duas fotos não foi original. Aqui está uma versão tirada de um informativo da UNIMED Manaus (Jornal). Também está num livro sobre Manaus do Prof. Aldemir Oliveira informando que as fotos foram unidas  na UFAM.


quarta-feira, 8 de maio de 2013

MANAUS: DEUSA EMBAIXO DA PONTE



                     Cadê, onde está a "Mãe dos deuses" de Manaus? Qual é o nome da Deusa?
 Quando estamos errados é preciso humildade para reconhecer. É verdade, a mãe dos deuses de Manaus existe sim. É a deusa Vênus! E como não poderia deixar de ser, é a deusa do Amor, e do sexo, cultuada com fervor na Zona Franca : uma criança a cada 5 minutos.

 Ela está num dos pilares da ponte da rua Maués que leva, por coincidência, aos dominios da escola de Sanba "Reino Unido da Liberdade". Como até os  lírios  nascem no lodo, a "mãe dos deuses" mora embaixo da ponte, representada por algum piedoso devoto.
 Manaus, uma cidade rica, com uma mentalidade ainda coronelista, não pode ter o nome maldito de uma tribo cunhada de "coveiros", "Zumbis", "gente que cultiva mortos". A palavra manaos, vem de "manu", - morte, morrer.


Daí, com nossa descoberta desse santuário da deusa, só nos resta prestar essa homenagem a Afrodite, o nome grego da grande deusa do amor Vênus, a infiel esposa de Hefestos, o deus dos Infernos.



Agora dá para entender por que Manaus, com seus rios cheios de fezes e lixo, parece tanto com o Inferno de Dante!



sábado, 30 de março de 2013

HOMEM, NATUREZA E CULTURA



Cultura é toda a ação dos humanos sobre a Natureza. E Natureza é aquilo que estava aí, que permanece, da qual o Hoem saiu e faz parte. Hoje os humanos são mais Seres Culturais, que Naturais. Como tratar os mortos é cultural, como nascer é cultural, falar, andar, é a até como defecar é cultura!
Agora, o dizer de um povo que alimenta a ignorância, fazendo crer que só algumas coisas é cultura? Festivais de Ópera, de Cinema, Folclore, Filarmônica e músicos europeus, pagos com salário dignos de europeus, enquanto se paga professores com salário de miséria?
 Como tratar a Educação pública, as escolas com uma mentalidade de linha de montagem de uma fábrica e premiar os professores, que atinge metas em médias e reprovação mínima?
Agora, dá uma olhada para as cidades brasileiras mais populosas, como São Paulo, Rio de Janeiro, e Manaus. A cultura de jogar lixo em qualquer lugar e fazer dos rios e igarapés não faz parte da "qualidade" da educação...

                                                                  Cadê os peixes?
                                     As "Amazonas" no tempos dos igarapés
 
E isso?
 Sabe aquelas estranhas "coincidências". Essa foto tirada na nos rios de Manaus é semelhante a outra tirada lá na Ásia.

 Poxa, como Manaus é "chique", moderna e cosmopolita. Tem até rios e igarapés cheios de lixo e fezes iguais aos de São Paulo e Jacarta!
E a educação? E o futuro de nossos filhos?......

sábado, 16 de junho de 2012

MANAUS E MEIO AMBIENTE NA "ZONA FRANCA"


  
SOBRE PRESERVAÇÃO AMBIENTAL EM MANAUS

Certa noite, numa aula de Filosofia, ou de História do Amazonas - tenhos 15 turmas, mais de 500 alunos, entre duas escolas, não dá para lembrar de tudo -  sobre o fazer, a ação do homem, da sociedade, na solução de problemas e a busca por mudanças, quando um aluno questionou:
- "Professor, porque não é possível resolver o problema da falta de água na Zona Leste?"
As duas escolas em que trabalho ficam na Zona Leste. Deu vontade de rir da ingenuidade do aluno, e ao mesmo tempo lamentar pela alienação de toda uma população, que não percebe o que é tão visível: Não é verdade que falta água numa cidade banhada por duas dezenas de igarapés, alguns chegando a extensão de quarenta quilômetros. Muito menos na Zona Leste. Água tem! Mas está podre - poluída com lixo, fezes, urina, água sanitária, detergente, substâncias quimicas, criminosamente vindas de industrias do D.I.
A questão é: Qual é a água que está faltando na Zona Leste? É a mesma água poluída, cheia de fezes, que passa por um processo de limpeza caro, feito por uma empresa, para chegar através de canos até a nossa casa. É essa água que falta nas torneiras.
Há mais de vinte anos que observo o fracasso das campanhas anuais - semana do Meio Ambiente - principalmente nas escolas do municipio, SEMED: cartazes, danças, poesias, leituras, dramatizações. Não percebo mudanças nas gerações novas - os filhos dos meus alunos estão chegando nas escolas. Os igarapés viraram lixeiras mesmo. E virou uma cultura absurda.
A maioria esqueceu que água é alimento e não vivemos sem ele. Que os igarapés são fonte de vida e alimento - peixes vivem e se reproduz na água. De onde vem o peixe que comemos? De lagos e rios cada vez mais distante de Manaus.
NÃO FALTA ÁGUA EM MANAUS, MAS FALTA CONSCIÊNCIA.

domingo, 25 de março de 2012

MANAUS: IDENTIDADE CULTURAL E PRÉ-HISTÓRIA TARDIA

A descoberta do continente americano no final da Idade Média representou uma mudança na representação de mundo, que deixou de ser o centro do universo, abalando concepções dogmáticas da religião católica, que mandou para a fogueira os primeiros pesquisadores que tinha percebido isso. Mas não ficou por aí as surpresas e descobertas que o novo continente, que ficou conhecido pelo nome do cartógrafo Américo Vespúcio, “América”. As civilizações ricas e desenvolvidas dos Astecas, Incas, e as ruinas das cidades Maias, abandonadas na selva, se tornaram alvo fácil da conquista europeia, porque não tinha ainda inventado armas de fogo e herdado uma cultura de guerras de quatro mil anos, do império romano. O processo da conquista espanhola no continente americano se deu pela guerra, massacres e extermínios, que assegurou a posse da terra, abençoado pelo Papa, através do Tratado de Tordesilhas de 1492. E como um todo, países como a Inglaterra, França, e Holanda, enriqueceram – a acumulação do capital - e tornou possível a Revolução Industrial.
Por seu lado, os portugueses não tiveram a mesma sorte, no aspecto de riquezas minerais de culturas que dominavam a metalurgia. Pelo contrário, os povos do Brasil, apelido dados por franceses e holandeses por causa da árvore usada na produção de corantes, ou tinta vermelha, estavam em plena Idade da Pedra, o que seria a passagem do paleolítico para o neolítico, praticando uma rudimentar agricultura de raízes, completamente nus, lambuzados com urucum e jenipapo, usando porretes, arco e fecha, como armas, disputando em guerras intertribais as melhores terras, e crenças religiosas baseadas no animismo, também em transição para o xamanismo. Essa sociedade primitiva levou os europeus a pensar numa comparação, com a descoberta do paraíso bíblico perdido, do qual foram expulsos adão e Eva. Esse “paraíso” na verdade representa o que foi chamado de “Pré-História Tardia”.
É nesse contexto de atraso de milhares de anos de cultura, em relação ao Velho Mundo, na produção de conhecimento e tecnologia, que faço a abordagem dos mitos que foram construídos em torno do que chamamos equivocadamente de “Amazônia”, Amazonas e Manaus. Pois o processo da colonização obrigou por decreto, a imposição da cultura portuguesa, lançando os sobreviventes direto da pré-história tardia para o pré-capitalismo, e um capitalismo pouco compreendido na Amazônia brasileira. Há, portanto, um permanente conflito de identidade cultural, distorcendo e escandalizando, procurando negar o passado de um lugar como a cidade de Manaus.
Em primeiro lugar, aqui nunca teve mulheres guerreiras, muito menos aquelas gregas despeitadas de fato, pois não tinha um dos seios, daí apelidadas de “amazonas”. Assim começa nosso conflito de identidade nas cidades que surgiram da colonização portuguesa. Tapuios, isto é, índios destribalizados, mamelucos, cafuzos, portugueses, caboclos, pessoas vindas aos milhares do nordeste na época da borracha, negros escravos, em minoria, judeus, palestinos, japoneses, e hoje, haitianos, constitui a população “amazônica”. Até o momento em que era Capitania de São José do Rio Negro, rebaixada para a categoria de “Comarca”, durante o processo de independência do Brasil, não havia uma preocupação com cultura e identidade, origens. Na primeira a fase de enriquecimento, o tão aclamado “período da borracha amazônica”, os coronéis enriquecidos buscam se espelhar na cultura europeia, na arquitetura, nas artes, aterrando os igarapés, desmatando e modificando a geografia urbana de Manaus.
Com a implantação da Zona Franca, nova fase de riqueza e desenvolvimento, a burguesia chibante continua alimentando o gosto pela cultura europeia, filarmônica, festivais de ópera, de cinema, importando músicos, fizeram questão sediar os jogos da copa do Mundo de 2014. Por necessidade de uma construção histórica, o Amazonas e sua capital Manaus, busca identificar suas origens, hinos, relatos de bravura, mitos indígenas, e heróis. Em 1967, junto com a Zona Franca, a cidade de Manaus passa a adotar um “nome de Fantasia”, renegando seu significado indígena. Foi nesse mesmo ano publicado o livro “Topônimos Amazonenses”, onde o autor, Octaviano Mello, após brilhante e detalhada explicação sobre o significado da palavra indígena MANAUS, MANOA, MUNOUS, se refere as necrópoles, sepulcros, cemitérios, do povo Aruáqui, dos Manaus, e dos Barés. Como já tinha sido observado por Euclides da Cunha, e pode ser verificado no DICIONÁRIO DA LÍNGUA TUPI, de 1867 escrito por Gonçalves Dias, “mã” se refere a “saudade” e “manô” é “morrer”, Octaviano conclui que a palavra MANAUS é um superlativo que significaria “mortíssima”. Seria a tradução para a língua portuguesa de MANAUS. Ao contrário do que se afirma, Octaviano Mello recorre a uma interpretação de uma outra pessoa, escrevendo “conforme ensina Penafort,” procura um parentesco significativo em várias palavras hebraicas e no sânscrito, curiosamente colocadas entre aspas “.....” chegando a conclusão de que MANAUS é uma palavra feminina e plural, significando “Mãe dos Deuses”. De superlativo, a palavra Manaus vira plural e no feminino. Agora, como um povo tradicionalmente monoteísta pode legitimar uma palavra hebraica parecida com MANAUS, com um significado POLITEISTA? Como o sânscrito poderia levar a uma DEUSA, mãe de outros deuses, que não existe no panteão dos hinduísmo?Se MANAUS, não é superlativo, mas um plural, então significa realmente túmulos, necrópoles, cemitérios. E porque uma tribo teria um nome ou apelido desses? O que você me diz de uma tribo de “curubentos”, de “cabeças-chatas”, de “beiçudos”, de “macacos”? Brincadeira? Não! Essas tribos são os Kurubos, Cambebas, Botocudos e Caiapós. Por qual motivo uma tribo receberia um apelido tipo “coveiro” ou fazedor de túmulo, “gente dos cemitérios”? Por que tinha costumes funerários estranhos para os portugueses. Como o de enterrar seus mortos em grandes vasos funerários. Algumas tribos colocavam o morto em posição fetal, ou de cócoras, ou as cinzas e suas armas. E o que não falta nessa cidade são urnas funerárias indígenas, encontradas no centro história e embaixo das industrias montadas no Distrito Industrial. Por esse motivo a solução foi buscar um nome de fantasia: Mãe dos Deuses. Buscar um significado fora do contexto indígena, pois é o nome de uma tribo ou de necrópole dos Aruáqui, um povo mais antigo, transformando numa interpretação digna da mitologia grega, embora Hera, Juno, Isis, nunca foram mães dos outros deuses, lembra um trecho hilariante do livro “Galvez, Imperador do Acre”, de Márcio Souza, onde o Teatro Amazonas é visto pelos europeus amalucados como uma construção feita por extraterrestres no meio da floresta amazônica.Mas era preciso, buscar também, os heróis que representasse o passado de bravura do período colonial. No Maranhão doze mil Tupinambás se tornaram aliados dos Franceses. Fornecedores do Pau-brasil, para os “contrabandistas”, e “invasores” na visão dos portugueses, as tribos genericamente chamadas de Tupinambás lutaram até o extermínio. E nos confrontos dos tupinambás surge em 1619 a figura de um líder: Guaimiaba, o “Cabelo de Velha”. Na Capitania de São José do Rio Negro, de 1723 a 1727 acontece a festejada resistência e guerra da tribo dos MANAUS, e seu “grande líder” Ajuricaba, que pode ser traduzido por “enxame de abelha”, o “maribondo”. No litoral do Brasil colonial outro chefe indígena aparece com destaque na luta ferrenha contra os invasores portugueses: Cuhambebe, o líder antropófago que aparece no livro do aventureiro alemão Hans Staden. Sabe qual é o significado do seu nome? Algo como “que fala como Mulher”, algo depreciativo, por que ele era gago. Você já viu um “touro sentado”? Deve ser no mínimo engraçado, ou ridículo. Para encurtar a história: os paraenses não transformaram o “cabelo de velha” em herói. Mas Ajuricaba virou um herói do povo amazonense, ao ponto de sua imagem ser usada de uma forma subliminar por um dos políticos mais amados de Manaus – Amazonino Mendes - que assumiu o símbolo de uma abelha, uma “caba”, o “líder” Ajuri caba, em suas propagandas políticas. Ele tinha um projeto de construir uma estátua para o índio Ajuricaba no encontro das águas. Mas não teve apoio suficiente para o projeto. Mas você percebeu, que não é só os nomes das tribos, mas também os líderes das tribos, eram nomeados com nomes injuriosos ou ridículos? Ao contrário da tribo dos Manaus e seu chefe “casa de cabas”, os MURAS, que participaram da cabanagem ao lado dos “cabanos”, não foram considerados heróis para representar a bravura do povo amazonense, do tempo da conquista, “apoiada ao canhão”. Enquanto o estado vizinho do Pará relembra os cabanos como heróis, no Amazonas são os Legalistas. A estrada que leva aos Muras, tem o nome de seu maior inimigo: Ambrósio Aires. É Confusa a ideologia que busca representar o Hino do Amazonas – pois as tribos indígenas não tinha canhões. Os portugueses sim. Então não temos heróis nos inimigos dos portugueses, como a tribo dos MANAUS, e seu líder “muitas abelhas” – Ajuri Caba. Será por tudo isso que que o “amazonense é desfibrado” e confuso? Tupi ou não Tupi, eis a questão!
Em nenhum lugar do Brasil foi tão desastrosa a imposição da cultura portuguesa como no Amazonas. O “Diretório dos Índios” estabeleceu a obrigatoriedade da língua portuguesa, nomes português nas vilas e missões religiosas, vestir roupa e moradias com divisões – as moradas eram coletivas – e o pior de tudo, adotar a religião dos conquistadores. O que havia de errado com os costumes, a cultura dos povos da região? Andavam nus, tinham sua religião, sua maneira de trabalhar, seus alimentos tradicionais, festas fúnebre e rituais de passagem para os jovens. Recentemente, num programa de repercussão nacional, uma garota – uma adolescente de Manaus - de onze anos está grávida. Parece um absurdo, algo novo, um sinal dos tempos de hoje. Não é bem assim. Há quarenta anos, na década de sessenta, quando eu era menino aqui mesmo em Manaus, vi uma garota de onze anos gravida. Não há nada de surpreendente nisso. Na cultura das tribos da Amazônia as meninas viram mulher com a primeira menstruação e casam cedo. Afinal, a expectativa de vida na floresta e baixa, uma média de trinta anos – onde uma fratura exposta , uma picada de cobra, uma mordida de animal, ser devorado, se envenenar ou morrer de parto, são fatalidades que justifica essa pressa de viver e se reproduzir. Assim como nas tribos casar é pegar a rede e ir morar na casa da família da mulher, também em pleno século vinte e um, casar é viver junto. Como numa sociedade tribal, e até na feudal agrícola, quanto mais filhos tiver, é melhor, porque o trabalho é manual, a maioria da população não entendeu e nem sabe o que é mecanização ou automação da produção industrial. A maioria pensa como se estivesse no meio do mato, ou na Idade Média, gerando filhos que terão dificuldades de competir numa sociedade mecanizada, onde o trabalho é cada vez mais especializado. Aqui no Amazonas ainda estamos agindo como na Pré-história Tardia.
Apesar do Parque Industrial multinacional, o fantasma da Pré-História tardia ronda o Amazonas. Por atavismo, pois o tabaco, a maconha, a cocaína, a folha da chacrona e o mariri, o peiote, eram usados em praticas rituais religiosas dos povos pré-colombianos, nos Andes e na selva amazônica. A juventude se identifica cada vez mais com a maconha e a cocaína. Por falta de rituais de passagem, próprio das sociedades tribais, fumar Skank significa para garotos de 13 aos 16 anos, virar “homem”. Como as meninas que engravidam aos 11 anos, também os garotos numa visão das sociedades tribais, se consideram adultos, ignorando a norma formal de ser considerado “de menor”, e irresponsável pelos seus atos até os 18 anos. É preciso ser assaltados por esses “menores”, para entender o grau de violência e selvageria dessas “crianças”, sob o efeito de “baseados”, se acreditando como “guerreiros”. Como essa meninada não trabalha e se tornam viciados, as vezes a “família”, nem percebe que o “menor” está assaltando para pagar o traficante. Por que não pagar é morte na certa. Dos 989 assassinatos de 2011, quase três por dia, são execuções de adolescentes por calotes de droga. Para completar, o aniversário da cidade também é uma invenção curiosa: juntaram o dia e o mês, 24 de outubro, e associaram a fundação da fortaleza de São José do Rio Negro em 1669, como se fosse uma única data. ANEXO 1 – Do livro “TOPÔNIMOS AMAZONENSES” (Nomes das cidades amazonenses, suas origens e significados), de Octaviano Mello, Edições do Governo do Amazonas, Manaus 1967, “MANAUS”, páginas 31 até 37 (DIGITALIZADO DO ORIGINAL):





“CIDADE DE MANAUS






ATÉ O ANO de 1795, a zona da foz do rio Negro ainda fazia parte do histórico Reino dos Aruaqui, cujas fronteiras envolviam quase toda Guiana Brasileira de vastíssimas proporções. Esses notáveis ameríndios, valentes e ciosos dos seus domínios seculares, depois de desafiarem o poderio português, fizeram as pazes com este povo, graças a habilidade do Padre Antônio Vieira. Foi esta nação, já amiga das tropas do Capitão Pedro da Costa Favela, que em 1668, o conduzira das margens do rio Urubu ao local onde atualmente assenta a formosa Capital do Amazonas. Conhecendo a ótima situação da localidade, à margem esquerda do rio Negro, a montante da sua confluência com o Solimões, o Capitão Pedro Favela dá os seus informes a António de Albuquerque Coelho de Carvalho, Capitão Mor do Pará, que ao tempo, muito se interessava pelos destinos da região. A conveniência de uma fortificação neste rio se impunha logo para assegurar os domínios da coroa portuguesa nos sertões e garantir a conquista do elemento nativo.
O local indicado por Favela estava em condições de receber as peças da artilharia portuguesa. O Capitão Mor designa o Capitão Francisco da Mota Falcão, oficial português, para construir essa fortificação, que no ano de 1669 foi erigida, tomando o nome de Fortaleza de São José do Rio Negro. Lançada esta semente fecundou sob o amparo, dedicação e influência do Sargento Guilherme Valente, que habilmente conseguiu reunir em torno destes fundamentos as nações mais prestigiosas da região : Manau, Tacu, Baré, Possé e Baníua, que se agruparam formando a Aldeia de São José do Rio Negro. Depois da fundação da Capitania de São José do Rio Negro, nome herdado da fortaleza e do rio, no fim do século XVIII sendo a aldeia rebaixada à categoria de lugar, tomou o nome de Lugar da Barra do Rio Negro, lembrando também a linha de separação das águas do rio Negro, no encontro com o Solimões formando o Amazonas. No decreto de 25 de junho de 1833, artigo 4.°, do Governo do Pará, que substitui a denominação da Comarca de São José do Rio Negro pela de Alto Amazonas, com apoio no artigo 3.º do Código Criminal do Brasil, vem o Lugar da Barra do Rio Negro incluído como Termo e sede da Comarca, com a denominação de Vila de Manaus. No entanto, pela Lei n.° 146, de 24 de outubro de 1848, da mesma Província, foi a Vila de Manaus elevada de categoria com o nome de Cidade da Barra do Rio Negro. Instalada a Província do Amazonas, em 1852, da sua Assembleia, em sessão de 21 de agosto de 1856, o deputado João Inácio Rodrigues do Carmo apresentou um projeto mudando o nome da Cidade da Barra do Rio Negro para Cidade de Manaus. Em 28 do mesmo mês e ano subiu à sanção do Presidente da Província, Dr. João Dias Vieira, sendo convertido em Lei n.° 68 de 4 de setembro de 1856. Não consta dos Anais da Assembleia Provincial, uma só palavra para justificar a mudança do nome da capital da Província, para Manaus, e os Relatórios dos Presidentes silenciam também sobre o caso, aumentando a curiosidade do investigador. O projeto desta mudança de denominação, ao que parece, não despertou o menor interesse no seio da Assembleia, onde passou sem destaque no curto espaço de sete dias e, ainda, sem a honra de um registro nos respectivos Anais.
Ocupemo-nos agora da palavra Manaus e também da sua significação, cujo assunto não foi ainda bem esclarecido pelos amazonólogos, não obstante o longo decurso de quase um século. Existem opiniões assegurando que a denominação da formosa capital amazonense seja oriunda de Manau, célebre nação indígena que habitou e preponderou no rio Negro, tendo sua corte na antiga aldeia de Bararuá ou Pararuá, lugarejo, que em 1758, foi elevado à Vila com a denominação de Tomar.
Os membros dessa poderosa nação, ao lado de outras também notáveis, concorreram para a fundação de Manaus e foram os fundadores da Aldeia de Mariuá, atualmente Cidade de Barcelos e de várias povoações conquanto umas decadentes e outras desaparecidas, tiveram seu fausto e nome na história da Capitania e Província. Dentre os principais tuixàuaitá (chefes) dos Manaus, destacam-se : Camandri, por ter sido o chefe da histórica Aldeia de Mariuá, ao tempo em que ali se instalou a missão dos carmelitas, e Ajuricaba (Aiuricáua), que libertou numerosos índios escravizados, movendo urna violenta guerra aos portugueses, que no princípio do século XVIII, faziam este ingrato comércio. Ajuricaba afinal, preso, depois de agrilhoado e posto a bordo ao rumo do Pará, venceu atirando-se espontaneamente ao rio Negro, cujo seio profundo tanto preferia quanto repudiava aos desalmados conquistadores da sua região imensa e verde. Foi dessa valente nação desaparecida pela sua civilização completa, depois de tantos feitos heroicos, na época dos exploradores que, segundo afirmam uns, teve origem a denominação da capital do Estado. Outros porém, opinam pela sua procedência de uma lenda maravilhosa emergida da existência de um rei — El Dorado — cujo nome legou aos seus excepcionais domínios, que tinham por capital a cidade de Manôa, situada entre os rios Negro e Branco, no Amazonas, e Essequibo, na Guiana Inglesa, na margem ocidental da Lagoa Parima.
Alguns escritores dão a cidade de Manôa ou Macatôa, como situada à margem do Lago Amacu, na mesma região. Com a questão do Pirara, passou o grande e rico território do El Dorado a pertencer à Inglaterra, na Guiana Inglesa, subtraído ao Amazonas. Manôa lendária, afigurava-se uma estrela de primeira grandeza engastada num céu de ouro; tudo nessa cidade era de ouro e prata; os tetos dos edifícios eram dourados o até o rei pulverizava-se com ouro, todas as manhãs, de onde vem El Dorado : O homem de ouro. Nem Manco Capac, fundador do Império dos Inças, que construiu um trono ao ar livre, iluminado por um sol artificial, de ouro, para confundir-se com o "Filho do Sol", que os Quíchuas adoravam, tinha tanta riqueza e esplendor. A lenda correu vertiginosamente os múltiplos setores da terra. E mais ainda repercutiu pela desmedida ambição do elemento europeu de toda casta, por esses tesouros, que aliás não são de todo fictícios, porquanto a região do Pirara, onde situam o El Dorado é riquíssima em ouro e pedras preciosas.
Desde 1531 os exploradores portugueses e espanhóis vinham à cata do El Dorado. Depois seguiram -lhes holandeses, franceses e ingleses. Os próprios companheiros de Martim Afonso suspeitaram, baldadas as inúmeras tentativas para descobri-lo nos sertões de Piratininga, que essa terra tão rica devia ser o Império dos Inças. Para lá se dirigiram de bandeira içada e, segundo opiniões, volveram carregados dê metais preciosos; não de Manôa, mas dos povoados e aldeias por eles saqueados. Manôa era a Cidade dos Sonhos Dourados.
Prosseguindo daremos ainda outra fonte de origem e, em conclusão a significação da palavra Manaus. Sabe-se que dominara a região, outra nação indígena mais numerosa e importante que a dos Manau, muito anterior a esta e a construção da Fortaleza de São José do Rio Negro e dela existira uma necrópole antiquíssima, que fora encontrada nos arredores da Fortaleza. Esta nação foi a dos Aruáqui, que fora expulsa do território pelos Mura, índios ociosos banidos do Peru na época da conquista espanhola ao Império dos Inças. As referências históricas se encadeiam, se justapõem para chegarmos ao conhecimento desta nova fonte de origem da palavra, também aceitável, por isso que ousamos incluir no estudo toponímico de Manaus. As várias nações que compunham o grande Império dos Incas tinham sistemas próprios para construção dos seus mausoléus e estes uma denominação especial, conforme a região em que habitavam aqueles íncolas. Os Aimará, povoadores das altiplanícies do Titícaca, chamavam "chulpas" aos mausoléus, que construíam de pedras em forma de torres. As tribos dos Taláue, Mochica, Moquihuáia, e Chango, habitantes da cosia do Pacífico, no Peru, chamavam "Munous" aos sepulcros que não iam além de um montículo, à semelhança de uma sepultura recente, nos nossos atuais cemitérios. Quantos montículos semelhantes a "Munaus", dos Inças, não foram feitos pelos exploradores do El Dorado, tentando descobrir as riquezas de Manôa ?. . .
É demais sabido que os primeiros exploradores do rio Amazonas vieram do Peru, transpondo a Cordilheira dos Andes e numerosos rios, figurando dentre es primeiros, como notáveis, Gonçalo Pizarro, Francisco Orellana, Pedro de Ursúa com as suas célebres expedições em meados do século XVI, e tantos outros. Também de lá vieram acossados pelos conquistadores espanhóis os Mura ou Buhura que descendo o rio Madeira se espalharam pelas margens do Amazonas e Solimões, contribuindo com ataques o roubos para o desaparecimento dos Aruáqui, exterminando o seu reino e apropriando-se das suas terras. O grande Reino dos Aruáqui, como chamavam os portugueses, abrangia uma região imensa, entre o norte dos rios Amazonas e Negro e o sul do Essequibo, na Guiana Inglesa. Dentro dessa enorme área, à margem esquerda do rio Negro, estava situado o local que deveria ser a capital do Amazonas. Com os exploradores ou com os Mura ou antes mesmo destes, por intermédio de ameríndios fugitivos das terras incaicas, atravessando os Andes, também não teria vindo o nome munaus para ser transmitido à brava nação indígena e ao local da necrópole dos Aruáqui, onde só munaus existiam, ? É possível e, em apoio estão os estudos das antiguidades do Amazonas demonstrando a existência de uma necrópole encontrada nas cercanias da Fortaleza de São José do Rio Negro, a cujos munaus o eminente Barbosa Rodrigues confunde chamando "chulpas", quando na verdade estas são feitas de pedra em forma de torres, como ficou dito, e aquelas apenas uns montículos igualmente aos que faziam os Aruáqui, os Manau e os Baré, antes e depois de instalada a Fortaleza de São José. Os documentos fotográficos da época de Manaus em formação nos transmitem ainda a perfeita semelhança das sepulturas locais, como os munaus de além Andes.
Munau e Manoa, encarados sob o ponto de vista indígena, são sinônimos e talvez a mesma palavra, deixando-nos a considerar apenas as alterações gráficas. Munaus designa uma necrópole onde existem restos ou cinzas de alguém que morreu; de alguém mais que morto. Provém do inça da costa do Pacífico. Manôa, vem do sânscrito para o nheengatu, como veremos, e aqui no verbo umanu ou simplesmente manu, morrer, seguido do sufixo a, que na língua se pospõe às palavras, quando se deseja dar força ao vocábulo, isto é, levando-o ao superlativo. É sobejamente sabido que o nativo dificilmente emprega o ó aberto e o ô fechado, mas, sempre u, não obstante alguns indianólogos usarem invariavelmente o ô e o ó como se na língua não houvesse o fonema u : ôca, carôca, manô, quando na verdade se pronunciam, uca, caruca, manu, traduzidas em, casa, tarde, morrer. Por este motivo alterar a grafia de manu, para manô, que no grau superlativo escreve-se : Manua ou Manôa, mais que morto, mortíssimo.
A significação do nome Manaus, estaria por este lado puramente indígena, em grande contraste com o desenvolvimento e beleza da cidade : Mortíssima. Todavia, estudada a palavra como originária do sânscrito, conforme ensina Penafort, verifica-se que Manaus é uma das formas femininas de Manauh, Manou, Manu, Mani, que são por sua vez "abreviações do nome hebraico Monouchyak ou Manouchia, Machiahh ou Machya, Machyaka, donde veio a palavra indo-tupi, Houcha, homem ou gênio nascido de Manou, Manu ou Mani, significando Deus dos índios". Continuando, diz : "Maná-y-i quer dizer — mulher de Manu; portanto, Maná, Manacá, Manau, Manay, são formas tupi oriundas do radical feminino sânscritoman, maná".
Logo, o homem, gênio ou deus dos índios sendo, pelo lado paterno, filho de Manou, Menu ou Mani, e, uma vez que Manau, Moná, Manacá, Manay, são formas femininas; e que Maná-y-i quer dizer mulher de Manu, deduz-se : O homem, génio ou deus dos índios é, pelo lado materno, filho de Manau nome que no plural — Manaus — foi concedido à capital do Estado do Amazonas. Manaus, quer dizer : Mãe dos Deuses.
A palavra Manaus tem sido graficamente representada como vai a seguir : Manou, Manáu, Manei», Manaó, Manahó, Manáve, Manávi, Manúa, Monouh, Manôa, Manáos, Manáus e Manaus.
Os seus nomes poéticos também são em profusão. Todo espírito culto, observador e amigo do belo, desejou gravar-lhe um nome pomposo, que se fundisse bem com sua origem, progresso e beleza. Assim, Manaus tem sido cognominada: "Terra dos Bares", "Terra dos Manaus", "Terra Cabocla", "Manôa", "Revelação da República", "Rainha do Rio Negro", "Rainha das Selvas", "Soberana das Selvas", "Capital da Floresta", "Cidade Alteza", "Cidade Risonha", "Cidade Sorriso", "Cidade Menina". Manaus, na sua consubstanciação, quer dizer : Mãe dos Deuses.”



(TOPÔNIMOS AMAZONENSES, OCTAVIANO MELLO, páginas 31 até 37, da edição de 1967)





ANEXO 2 – DO livro HISTÓRIA DO AMAZONAS, 1ª Série do Ensino Médio, de Francisco Jorge dos Santos, Leitura Complementar nº 9: “O Imbróglio do Aniversário de Manaus”, página 161, edição de Junho de 2010.




IMBRÓGLIO DO ANIVERSÁRIO DE MANAUS




"Salve 24 de Outubro de 2005, data que Manaus completa 336 anos de Fundação!,". É feriado no município de Manaus; quase, ninguém formalmente trabalha. No entanto, o cidadão comum mal sabe que essa exclamação é oriunda de uma verdadeira mixórdia, pois se trata de uma mistura de tempos, eventos e significados que rigorosamente nada têm a ver uns com os outros.
Começo pela "fundação" da cidade. Ainda não se conhece nenhuma evidência documental ou qualquer outra, que autorize afirmar que o governador e capitão-general do Maranhão e Grão-Pará, António de Albuquerque Coelho de Carvalho (1667-1671), tenha ordenado ao capitão Francisco da Mota Falcão a fundar a cidade de Manaus. No máximo, esse militar teria ordens para edificar, em 1669, um estabelecimento militar que ganhou o ostentoso nome de Fortaleza de São José da Barra do Rio Negro. Do mesmo modo, até agora nada corrobora que essa edificação ocorreu mesmo nesse ano. Porém, se for verdadeiro, qual o mês, qual o dia em que o ato da fundação teria ocorrido?
Normalmente atos dessa natureza são solenemente registrados por autoridades do poder público. Por exemplo: a fundação do Forte do Presépio - núcleo remoto da cidade de Belém - teve origem na ordem expressa no Regimento de Francisco Caldeira Castelo Branco, no qual se ordenou que fosse erigida uma fortificação, cuja fundação data de 12 de janeiro de 1616; outro exemplo, é o da Fortaleza de São Joaquim, edificado na confluência dos rios Tacutu e Branco, cuja construção foi ordenada através da Provisão Régia de 4 de novembro de 1752, mas só iniciada as obras em 1775, já no governo do capitão-general João Pereira Caldas.
A confusão continua. Em 1969 as autoridades constituídas do Município de Manaus e do Estado do Amazonas festejaram o aniversário de 300 anos da cidade de Manaus. Porém, em 24 de outubro 1998 as mesmas autoridades comemoraram o "Sesquicentenário de Manaus ", isto é, os 150 anos da cidade de Manaus. Pelo festejo anterior dever-se-ia estar celebrando pelo menos os 329 anos da cidade.
Hoje, comemoram-se os 336 anos da cidade. Tentarei explicar essa confusa trajetória. Os antigos cronistas1 e os autores mais recentes estão de acordo de que a Fortaleza da Barra do Rio Negro foi fundada em 1669, mesmo sem uma documentação comprobatória. Em volta dessa edificação militar se desenvolveu um verdadeiro "curral de índios", local onde era amontoado o produto das caçadas humanas, transformado em plantel de escravos à espera do momento adequado para serem transportados para Belém.
Além do "curral de índios " que se compunha de uma população transitória, no entorno da Fortaleza também se desenvolveu um aldeamento composto principalmente pelos índios Baníuas, Barés e Passés oriundos dos rios Içana, Negro e Japurá, que passaram a viver, na condição de índios aldeados. O conjunto Fortaleza da Barra e o seu entorno em 1790 abrigou a sede da Capitania do Rio Negro no governo de Lobo d 'Almada (l 788-1799) com a denominação de Barra do Rio Negro. No entanto, oito anos mais tarde perdeu essa condição, sendo dessa forma rebaixada à categoria de um simples Lugar, pois a sede do governo voltou a ser a vila de Barcelos. Voltando, entretanto, à condição de sede do governo por volta de 1808, e assim se manteve até o fim do período colonial.
Com a incorporação do Estado do Grão-Pará e Rio Negro ao Império brasileiro, em. 1823, a Capitania do Rio Negro foi transformada mima simples Comarca da Província do Pará; não obstante isso, a Barra do Rio Negro continuou sendo a sede dessa jurisdição. No início da década de 1830, houve uma mudança no Império em termos político-administrativo; por conta disso, a Comarca do Rio Negro mudou de denominação, passando a ser chamada de Comarca do Alto Amazonas, cuja sede foi novamente, em 25 de julho de 1833, elevada a condição de Vila com a denominação de Manaus.
Em 1848, a Assembleia Provincial Paraense, através da lei Nº 145 de 24 de outubro desse ano, elevou Manaus à categoria de Cidade com a denominação de Nossa Senhora da Conceição da Barra do Rio Negro. Somente pela Lei Nº 68, de 4 de setembro de 1856, de autoria do deputado João Ignácio Rodrigues do Carmo, foi que a cidade passou a ser definitivamente denominada de Manaus.
Portanto, temos agora as chaves para as duas idades da cidade de Manaus. A da fundação da Fortaleza da Barra do Rio Negro, 1669; e a elevação de Manaus à categoria de cidade, em 24 de outubro de 1848. Na primeira, mesmo com a incerteza, tem-se o ano; na segunda, tem-se o dia o mês e um ano; entretanto, ambas não correspondem à verdade histórica que se procura acerca do nascimento da cidade.
Se se contar da fundação da Fortaleza, Manaus completaria, hoje, 336 anos de idade; se se contar da elevação à categoria de cidade, Manaus teria, hoje, 157 anos. Para pôr fim a essa situação desconfortável, alguns poucos preocupados com as festas solenes do evento patrocinadas pelas verbas públicas resolveram "franksteinear" a data do aniversário natalício da cidade, passando a ser contado, a partir de 24 de outubro de 1669. O dia e mês de um evento e o ano de outro. É is o imbróglio.
Na realidade inventaram um dia de feriado ao arrepio da História, quase característico daquilo de o historiador inglês Eric Hobsbawm definiu como ''tradição inventada", que seriam as práticas, muitas vezes tácitas, que visam a inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição. Neste caso o subentendimento cedeu ao escancaramento. Virou lei.
Não sei se esse tipo de questionamento leva a algum lugar. Em todo caso, já que as elites que dominam o poder público manauense e amazonense necessitam tanto desses tipos de eventos cívicos para exercitarem seus discursos carregados de nativismo piegas, deveriam criar outros feriados, a exemplo da elite política nacional que festeja o Descobrimento do Brasil, em 22 de abril e a Independência, em 07 de setembro. No caso de Manaus, uma festa para a Origem de Manaus (não para fundação), e outra para a Elevação de Manaus à categoria de Cidade. Assim tudo fica "bonitinho dentro do vidrinho " (bordão de um comunicador local), e se põe fim essa embrulhada. Contudo, o evento da Origem necessita de pesquisas, que o poder público deveria incentivar.
Finalmente, ainda nessa linha de raciocínio "cívico ", não caberia ainda, a criação do feriado comemorativo ao Descobrimento do Amazonas: o dia em que o bergantim do espanhol Francisco de Orellana penetrou no rio Amazonas?"



-SANTOS, Francisco Jorge dos. Artigo publicado em CD-ROM no Jornal do Commercio nos dias 22, 23 e 24.10.2005, em Manaus.