domingo, 17 de janeiro de 2016

"CAMINHANDO POR MANAUS" - O CENTRO HISTÓRICO - PARTE II


APRESENTAÇÃO

Este livreto não se propõe a ser um documento de registro histórico, mas sim um instrumento de efetiva utilidade para o turista mais exigente e minucioso, que deseje conhecer Manaus mais intimamente, percorrendo a pé seus becos, ruas e avenidas.  São ao todo cinco roteiros, cuidadosamente elaborados por Thérèse Aubreton - uma francesa residente em Manaus e radicada no Brasil há anos, professora de história e agente de viagens. Seus olhos e caneta captaram e registraram tudo o que aqui pode ser desfrutado. A pesquisadora não se limitou a consultar livros e documentos. Os cinco roteiros a pé foram atentamente feitos e refeitos, tendo sido anotados cada detalhe pitoresco, cada aspecto curioso. Aspectos relevantes da nossa história, arquitetura, hábitos e costumes, regionalismos, etc., foram registrados. A Sra. Aubreton foi até mesmo à França, com o objetivo de estudar, comparar e comprovar semelhanças e dados, fundamentando melhor ainda aquilo que a FUMTUR  lhe havia encomendado. O resultado está aí, para o conforto e melhor aproveitamento da estada de nossos turistas. Esta publicação da Prefeitura de Manaus, através da Fundação Municipal de Turismo - FUMTUR,  pretende ser o início de outros relatos e registros para uso turístico.
Manaus, Agosto, 1996

ROTEIRO 2

A Praça da Matriz,  se localiza exatamente no centro da área comercial mais antiga de Manaus. Desde 1864 a praça teve diferentes nomes e passou por várias reformas e embelezamentos.

Exatamente no centro da praça ergue-se, imponente, a Catedral de Manaus, erguida em homenagem a N. S. da Conceição, a Padroeira do Estado do Amazonas.


A CATEDRAL DE MANAUS
Data de 1695 a construção da primeira igrejinha, edificada no mesmo sítio, em madeira e palha, obra dos religiosos carmelitas que chegaram à aldeia de São José do Rio Negro (hoje Manaus), após a edificação do forte pelos portugueses, em 1669.
Demolida no final do século XVIII pelo estado precário em que se encontrava dá lugar a uma nova edificação, que também desaparece em incêndio ocorrido pelos idos de 1850.
Em 1858 é lançada a pedra fundamental da nova igreja, mas 20 anos foram gastos até a sua conclusão. Devido à falta de material de construção (pedra, especialmente) e mão de obra especializada, arrasta-se lentamente a construção do novo edifício. O andamento das obras é ainda prejudicado pela ausência de recursos, que levam à criação de uma loteria, em 1865, com o objetivo de angariar fundos para a aceleração dos trabalhos. Os recursos obtidos, todavia, são insuficientes.




A Catedral de N. S. da Conceição, em estilo neoclássico, é a primeira grande obra arquitetônica erguida em Manaus. Sua fachada divide-se em dois andares, com predominância de linhas retas e poucos elementos ornamentais, destacando-se um frontão triangular,  com nicho para a estátua, acima de três portas em arco pleno e dois campanários, com cobertura em cúpula e arremate em forma de lanterna. Os seis sinos, vindos de Portugal, foram instalados em 1875.
Na entrada  observa-se duas pias de pedra (receptáculos da água benta) sobre pedestal. Acima, a abóbada da nave, muito simples, fabricada em madeira branca; e na galeria  superior , também simples, mostram-se uma balaustrada de madeira e medalhões pintados. À direita, vê-se o mausoléu de mármore onde estão guardados os restos fúnebres do primeiro bispo de Manaus, Dom José Lourenço da Costa Aguiar, falecido em 1905, em Lisboa. À esquerda situa-se belo e sóbrio batistério, em mármore, obra do francês Joseph Gaune, terminado em 1874, Ao lado esquerdo do transcepto observa-se medalhão pintado com o escudo de Manaus, altar em pedra de Lioz e capela dedicada a Jesus Cristo. Do outro lado nota-se um medalhão com pintura alusiva ao centenário da criação da congregação do Coração de Maria, no Amazonas, altar em pedra de Lioz e capela dedicada à Virgem Maria. O altar da Capela Mor, em mármore, executado em 1 874, é - como o batistério - também obra artística de Joseph Gaune.
Adentrando-se à nave pode-se  ver dois elegantes púlpitos esculpidos frente a frente. Trata-se de peças que não são utilizadas, talvez pela falta de escadas de acesso.
o coroamento do altar ergue-se singela escultura de N.S, da Conceição, ladeada por dois anjos; e no retabulo, ainda, destaca-se uma estatueta da Virgem Maria.
Surpreendentemente interessantes, as pinturas existentes no coro da Catedral impressionam pela sua modernidade. No teto, vê-se a coroação de Nossa Senhora, de inspiração barroca. Nas laterais várias representações (no meio de anjos e nuvens) da Virgem Maria e da história das missões na Amazônia, especialmente em Manaus. Ao lado direito, observa-se uma belíssima representação da primeira aldeia que existiu nessa região, simbolizada - na imaginação do pintor - por uma fortificação portuguesa repartindo espaço com a primeira igrejinha de palha e o elemento indígena dominante. Ao lado esquerdo, vê-se quadro retratando a própria igreja matriz tendo à frente secular  chafariz , ainda hoje existente . O chão é todo revestido em ladrilhos de pedra imitando mármore, importados da Europa. A história da catedral é toda assinalada por grandes dificuldades, especialmente aquelas relacionadas à ausência de recursos. Quase acabada, por exemplo, a obra não pôde ser inaugurada pela falta de fundos para a compra dos materiais litúrgicos. Finalmente, em 1878, a catedral é benta e inaugurada.

Saia da igreja e desça as escadas localizadas na parte frontal do prédio. As duas escadas, juntas, formam um conjunto interessante, que sugere distintamente a forma de uma lira. Durante muitos anos o local situado na frente da catedral, entre as escadas, era caracterizado por jardins e exuberante vegetação. Hoje, no mesmo lugar, existe um centro recreativo pertencente à própria igreja.


O CHAFARIZ

À sua frente ergue-se belíssimo chafariz, executado em ferro fundido pela Firma Sun Foundry, de Glasgow, conforme atestam as inscrições em várias de suas peças. O chafariz compõe-se de grande bacia hexagonal, originalmente adornada por seis esculturas (três  meninos sentados segurando espadas e três meninos em pé carregando cântaros), distribuídas em cada vértice. Lamentavelmente, quatro das seis esculturas perderam-se durante as várias reformas realizadas, ao longo dos anos. À frente de cada uma das que restam vê-se a escultura de um cisne e a identificação do fabricante. No piso da bacia hexagonal notam-se fontes ladeadas por esculturas de meninos. Bem ao meio da bacia eleva-se uma base quadrangular, que assenta o corpo principal do chafariz. Notam-se esculturas de ferro de meninos carregando bacias, dispostas em cada ângulo. Embaixo de cada menino existem delicadas esculturas de cobras surgindo da vegetação entre duas colunas. Vê-se esculpidas interessantes representações de Netuno simetricamente dispostas por dentre bucólica folhagem. O monumento tem como base um grupo de doze anjinhos dançando e, coroando a beleza do conjunto, uma bela estátua de Vênus, em trajes antigos, equilibrando um vaso à cabeça, acompanhada por quatro tocadores de trombetas. A base superior da bacia mostra alto relevo com cobras no meio de luxuriante vegetação.
Em 1995, com a reforma do chafariz, construiu-se uma cerca de proteção para impedir a depredação.


O RELÓGIO MUNICIPAL

Do outro lado da praça, na Av. Eduardo Ribeiro, situa-se o pitoresco Relógio Municipal. O mecanismo do relógio foi importado da Suíça e montado, em base de pedra, pela firma local Pelosi & Roberti. Muito eficiente até os dias de hoje, o som que produz à cada hora é cativante. Os manauaras o chamam às vezes de Big Ben, em alusão ao famoso relógio inglês, devido ao som que produz.
À esquerda observe o prédio dos Correios, construído na época áurea da borracha, O prédio foi internamente modernizado, em 1985, após o incêndio havido em 1982, Entretanto, sua fachada - recoberta de tijolos envernizados em diversas cores - teve seu estilo e arquitetura preservados. Nota-se a presença de quatro pavimentos e, na parte superior, vê-se elegante balaustrada, Desde 1921 a construção abriga os Correios.


O prédio dos Correios é um feliz exemplo de respeito ao patrimônio artístico-cultural da cidade. Lamentavelmente, no transcurso dos anos, muitas edificações foram descaracterizadas e/ou demolidas. Nos dias atuais, com o esclarecimento e conscientização das autoridades e da população, cresce a preocupação com a preservação do passado da cidade e aumentam os cuidados com a manutenção dos prédios antigos.


Na avenida existem outras edificações muito interessantes e que datam da mesma época.
Caminhe, agora, em direção ao porto. No mesmo calçadão vê-se o monumento (um simples obelisco) que registra o primeiro centenário da elevação da Vila da Barra do Rio Negro (depois Manaus) à categoria de Cidade, em 1848. No dia 24 de outubro é feriado em Manaus porque comemora-se o aniversário da cidade.
Atravesse a rua em direção à entrada do porto, À esquerda vê-se o belíssimo prédio da Alfândega.


O PRÉDIO DA ALFÂNDEGA

O prédio da Alfândega, de origem inglesa, inaugurado em 1906, é considerado o primeiro prédio pré-fabricado do mundo. Foi trazido em blocos, pronto para ser montado, nos porões dos barcos britânicos que aportavam em Manaus. Seu estilo é eclético, com elementos medievalistas e renascentistas. A fachada possui três pavimentos, cada um menor que o inferior, até o terceiro que se assemelha a um sótão. No térreo existe uma grande porta em arco pleno; no segundo andar janelas unidas por colunas; e no terceiro piso envasaduras com arcos rebatidos. No frontão retangular, na frente do prédio, lê-se a inscrição "Alfândega", coroada com ameias e com a estrela republicana.



A torre, com farol (hoje desativado), orientava os navios que chegavam e partiam de Manaus.
O conjunto ainda funciona como sede da fiscalização da Alfândega.
Entre no Porto de Manaus e caminhe até a ponte flutuante. Antes de descer observe, cuidadosamente, a Tabela das Enchentes.

A TABELA DAS ENCHENTES

Localizada à direita do complexo, a tabela foi confeccionada em liga metálica anticorrosiva e registra, desde 1904, os níveis mais altos atingidos pelas águas do Rio Negro. O ano de 1953 destaca-se como aquele em que a enchente tomou drásticas proporções, submergindo - inclusive - áreas comerciais e residenciais da cidade, que se localizavam mais próximas das margens do rio, Na época, construíram-se pontes improvisadas e pela primeira vez fez-se uso de canoas para percorrer trechos alagados em plena área urbana. Outras enchentes rigorosas aconteceram em 1922, 1976 e 1989.
Dirija-se à ponte para avistar de forma panorâmica os Cais Flutuantes.


O PORTO DE MANAUS

Muitos anos se passaram antes que Manaus, rica em  borracha , pudesse ostentar um porto ao nível de seu comércio e poder. Até o final do século XIX eram grandes os problemas com a atracação das embarcações. Durante a época da cheia dos rios a operação era facilitada e rampas eram utilizadas para o embarque e desembarque de passageiros e cargas. Na vazante, todavia, os problemas eram substancialmente maiores os navios eram fundeados ao largo e a transferência de carga e passageiros era toda realizada em canoas.




Em 1902, finalmente, a firma B. Rymkiewicz ganhou a concorrência aberta pelo governo, O contrato garantia 60 anos de exploração do porto, mas rezava também que além da construção dos cais - a firma construiria um edifício para a administração da Alfândega (o prédio visto ainda há pouco, à entrada). Rymkiewicz rapidamente transferiu o contrato para a firma inglesa Manaos Harbour Ltd., que iria efetivamente construir o cais, pontes de acesso e tudo o mais. As obras se estenderam até 1912.
O porto foi então explorado pela Manaos Harbour Ltd. até 1963,  quando a firma declarou não mais poder satisfazer as exigências e obrigações contratuais, o que culminou com o cancelamento do acordo com o governo e transferência das responsabilidades à própria administração brasileira.
Findo o controle inglês nasce a Zona Franca de Manaus, em 1967, com o objetivo de promover o progresso regional, integrando Manaus comercial e industrialmente ao resto do Brasil e do mundo.

O CAIS  FLUTUANTES

Na época da construção os acessos ao Roadway (como até hoje são popularmente chamados os cais) eram cobertos com madeira. Durante anos foi ponto de encontro da sociedade manauara. Um pequeno trem de ferro, correndo sobre trilhos dispostos por todo o cais, agilizava as operações de embarque e desembarque de mercadorias.
Hoje, o Roadway está dividido em dois setores distintos.
Na parte esquerda atracam os chamados barcos de linha (os "recreios"), que são verdadeiros ônibus fluviais da Amazônia e que carregam passageiros e cargas para outros municípios e estados amazônicos.
Na parte direita do Roadway concentram-se os barcos particulares. Grandes ou pequenos, simples ou sofisticados, adaptados às viagens de um dia inteiro  ou vários dias, pertencentes geralmente às agências de turismo. Àqueles interessados em participar de passeios pelo rio sugerimos contatem somente as empresas cadastradas junto as autoridades do Estado. A Empresa Amazonense de Turismo (EMAMTUR) poderá fornecer pelo fone 633-2850 o nome e localização de um bom operador, devidamente credenciado. Pelo seu conforto e segurança evite sempre viajar em barcos clandestinos.
Do mesmo local onde se acham atracados os barcos de turismo pode-se ver, a uma certa distância, outra área do porto destinada somente a cargas e alfândega. Vê-se, ainda, mais ao longe, as casas tipo " palafitas" do Bairro de São Raimundo.
São poucos no mundo os cais flutuantes desse tipo. Em Sidney, na Austrália, existe uma construção parecida, que segue os movimentos da maré.
Ao lado do cais reservado ao Turismo tem-se uma vista interessante dos armazéns do porto. Alguns são de construção recente, mas um deles - coberto por placas metálicas, simulando pedra - sobressai: é o famoso Trapiche XV de Novembro.

TRAPICHE XV DE NOVEMBRO

Trata-se de um típico exemplo da arquitetura de ferro britânica do fim do século XIX. Coberto de telhas onduladas e com paredes de ferro imitando blocos de
pedra, provavelmente construído em 1893, o trapiche é anterior à construção do próprio porto.
Pelo lado oposto do armazém, onde se encontra a Praça Oswaldo Cruz, pode-se observar placa muito interessante em que se lê - "P & W MacLellan Ltd.", o que autentica sua procedência escocesa.


A Praça Oswaldo Cruz, que reúne prédios muitíssimo interessantes, era local dos mais movimentados na época da borracha, vez que o terminal dos bondes aí se encontrava. A primeira linha de bondes foi inaugurada em 1889 e, até 1939, os bondes eram os únicos meios de transporte público.



A casa em forma de "castelinho de comédia" , em estilo neo medieval, abrigava no início do século a famosa firma britânica MANAUS TRAMWAYS AND LIGHT. No meio da fachada, acima da janela do 2° pavimento, pode-se observar a escultura de uma cabeça de Mercúrio, deus romano do comércio. Embaixo de cada uma dessas janelas existem calhas, no formato de máscaras antigas, que canalizam a água das chuvas. Ameias coroam a construção, que lembra o castelo da Bela Adormecida.
Ergue-se ao lado bela casa, datada de 1900, com dois pavimentos, onde funcionou o Tribunal de Contas do Estado e que hoje abriga a "Casa do Pequeno Trabalhador". A edificação exibe amplas decorações na parte superior, com um rico frontão curvo ladeado por fina balaustrada de pedras.



Aproxime-se agora do prédio da esquina, à esquerda.
Trata-se de um casarão datado de 1894, com catorze janelas de frente e grande porta central, ladeado por doze portas - seis à esquerda e seis à direita.
Vire à direita e siga em frente pela Rua Monteiro de Souza.





Veja com atenção as casas onde atualmente funciona a Administração do Porto de Manaus. Destaca-se um grande prédio, pintado de cinza-azulado, construído entre
1887 e 1890. Certos detalhes lembram o renascimento italiano. No início do século abrigava o Tesouro Público. Importante este prédio situa-se exatamente no local onde foi construído o 1 ° forte da cidade, em 1669. Ao lado esquerdo do portão central lê-se a seguinte placa comemorativa:
"Neste local, em 1669, foi construída a fortaleza de São José da Barra, sob a inspiração do cabo de tropas Pedro da Costa Favela. Foram construtores o capitão Francisco da Mota Falcão e seu filho Manuel da Mota Siqueira. Desapareceu em ruínas no ano de 1850".
A fachada, que tem dois andares, recebeu tratamento com bossagem. No térreo vê-se uma grande porta central em arco rebatido, ladeada por janelas, em arco pleno. No 1° andar,  observa-se grandes janelas em arco quase reto, ligeiramente rebatido, e balcões com balaustrada. Uma larga balaustrada também coroa o prédio todo. Ao longo da fachada nota-se calhas metálicas com cabeça de leão na parte superior.
Continue percorrendo a mesma rua até a Travessa Vivaldo Lima, onde se situa ...



O MUSEU DO PORTO

Na época da Manaos Harbour Ltd. funcionava no prédio a casa de força que fornecia energia elétrica ao Porto. Eram utilizadas máquinas à vapor da marca "Carlton Dangel Lightning Arrester", com potência em torno de 350 a 550 watts, fabricadas pela firma americana " Electric Services Supplies Co." . Em 1945 as antigas máquinas foram substituídas por geradores à diesel fabricados pela " The English Electric Co." , e - finalmente - em 1977, o Porto passou a ser abastecido pela própria rede estadual de energia.
O prédio, em tijolos de aspecto maciço, no estilo característico da Revolução Industrial Inglesa, data de 1903 e exibe na fachada as letras M.H.L. (de Manaos Harbour Ltd.).


Inaugurado em 1985, o Museu do Porto distribui-se em 742 m2 de área útil e compõe-se de oito espaços distintos:

· a casa das máquinas - onde funciona a recepção, que exibe dois antigos geradores que forneciam energia elétrica ao Porto na década de 30;

· salas 1 e 2 - que contém a remontagem ambiental dos aspectos administrativos da Manaos Harbour, com mobiliário da época.

· salão - com exposição de painéis que mostram a evolução do Porfo, da sua criação até os dias atuais.

· sala 3 - apresentando uma reconstituição do ambiente de um escritório da Manaos Harbour.

· sala 4 - com espaço destinado a exposições temporárias.

· Mezanino - exibindo peças da famosa Casa de Aviamento J.G, Araújo, reconstruindo o ambiente de um armazém da época da borracha.
· Área externa - com exibição de peças pesadas (como âncoras) e uma pequena locomotiva que servia ao Porto.

Saia do Museu e dirija-se até o final da  Travessa Vivaldo Lima.
Dois prédios muito interessantes chamam a atenção.
Na esquina ergue-se belíssimo casarão de três andares, seguramente um dos mais belos de Manaus, onde funciona o ...
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E
ARTISTICO NACIONAL (IPHAN)
O 1 ° e 2° andares exibem cinco aberturas em arco pleno, sendo que as do 2° andar possuem molduras lindamente trabalhadas, com pequenas esculturas, No 3° andar, mais estreito, duas janelas de verga reta enquadram duas pequenas janelas gêmeas dominadas por um frontão curvo e por um óculo, Na beira do teto vê-se um lambrequim,  fino rendilhado de madeira recortada, muito em uso na Europa do início do século, especialmente nas regiões montanhosas.
Ao final da rua mostra-se o atual prédio da

DMINISTRAÇÃO DO PORTO DE MANAUS

Na época da Manaos Harbour Ltd. o edifício funcionava como residência do diretor. Em estilo eclético, construído pelos idos de 1907, ostenta maciça fachada, coberta em argamassa imitando blocos de pedra, belo portão adornado por duas pequenas janelas laterais e uma da parte superior, acompanhada de dois óculos e com uma varanda. Acima  observam-se seis aberturas de forma oval e, mais acima, longa balaustrada. De tão sólido o prédio, jamais se poderia imaginar tratar-se da moradia do diretor. Mais parecia uma fortaleza. Na lateral do prédio vê-se imponente portão tipo londrino e uma série de grandes janelas, que facilitam a entrada da luz do dia. No interior nota-se bela escada do início do século e azulejos decorados com motivos florais, também datando da época da construção.
Nosso passeio está terminando.
Para voltar ao ponto de partida basta caminhar em direção ao Museu e descer a Rua Tamandaré, lugar de botequins e várias casas antigas, até a Praça da Matriz. Caso deseje fazer agora o Roteiro 3 caminhe em sentido contrário, até a Praça Dom Pedro II.

sábado, 16 de janeiro de 2016

"CAMINHANDO POR MANAUS" - O CENTRO HISTÓRICO - PARTE I


APRESENTAÇÃO

Este livreto não se propõe a ser um documento de registro histórico, mas sim um instrumento de efetiva utilidade para o turista mais exigente e minucioso, que deseje conhecer Manaus mais intimamente, percorrendo a pé seus becos, ruas e avenidas.  São ao todo cinco roteiros, cuidadosamente elaborados por Thérèse Aubreton - uma francesa residente em Manaus e radicada no Brasil há anos, professora de história e agente de viagens. Seus olhos e caneta captaram e registraram tudo o que aqui pode ser desfrutado. A pesquisadora não se limitou a consultar livros e documentos. Os cinco roteiros a pé foram atentamente feitos e refeitos, tendo sido anotados cada detalhe pitoresco, cada aspecto curioso. Aspectos relevantes da nossa história, arquitetura, hábitos e costumes, regionalismos, etc., foram registrados. A Sra. Aubreton foi até mesmo à França, com o objetivo de estudar, comparar e comprovar semelhanças e dados, fundamentando melhor ainda aquilo que a FUMTUR  lhe havia encomendado. O resultado está aí, para o conforto e melhor aproveitamento da estada de nossos turistas. Esta publicação da Prefeitura de Manaus, através da Fundação Municipal de Turismo - FUMTUR,  pretende ser o início de outros relatos e registros para uso turístico.
Manaus, Agosto, 1996

ROTEIRO 1


Saída da Praça São Sebastião, em frente ao Teatro Amazonas.


MONUMENTO À "ABERTURA DOS PORTOS"

No centro da praça pode ser observado o Monumento Comemorativo à Abertura dos Portos e Rios da Amazônia à Navegação Estrangeira, ocorrida em 1866,
Este monumento não é o original. O primeiro levantado era somente um obelisco, inaugurado em 1867, registrando a data do acontecimento histórico.


Em 1899, com a riqueza advinda da exploração da borracha, ergue-se outro monumento (o atualmente existente) mais imponente e de maior valor artístico, sob a supervisão e criação do artista italiano DOMENICO DE ANGELIS, que na época dedicava-se à decoração do salão nobre do Teatro Amazonas, então em construção, Todo o material foi importado  da Europa, especialmente da Itália. O granito, por exemplo, foi trazido de Bavena e a frisa, ao meio do monumento, foi fabricada em mármore de Carrara.  Os elementos em bronze, na forma de máscaras no estilo antigo, dispostos na frisa, foram fundidos em Gênova. A estátua, ao cimo do monumento, também em bronze, realizada nos famosos ateliês de Enrico Quatrini, em Roma, é uma alegoria ao comércio. Ao lado vê-se uma estátua do deus Mercúrio sentado em uma engrenagem (símbolo da Indústria e Comércio), cercado por três meninos, em bronze.
Inaugurado em 1900, no ano da comemoração do quarto centenário do Brasil, o monumento simboliza os quatro "cantos do mundo" - África, Europa, Ásia e América, cada  um  representado pela proa de uma embarcação, com um menino sentado.







No barco da África, sentado em uma cabeça que simboliza o Egito, com símbolos também egípcios, um menino segura duas presas de elefante; o barco da Europa, que exibe uma águia à proa, mostra um menino segurando um globo terrestre; o barco asiático mostra o "croissant"; símbolo dos muçulmanos, caracteres antigos gravados à proa e o menino às costas de um leão; no barco da América encontram-se agrupados elementos decorativos diversos, com o menino à proa e uma serpente enrodilhada na quilha do barco.
O monumento registra a data de XV de Novembro de 1889, em que se comemora a Proclamação da República do Brasil, ressaltando o nome de José Cardoso Ramalho Júnior, na época governador do Estado.
Em 1995 a praça foi integralmente recuperada pela Empresa XEROX DO BRASIL.


A maioria das árvores que cercam a praça são Oitis ("Licania tomentosa" ) e Viuvinhas ("Petrea volubilis schauer"). O piso - com desenhos sinuosos que posteriormente teriam inspirado as calçadas de Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro - simboliza o encontro das águas dos rios Negro e Solimões.


TEATRO AMAZONAS

Em frente à praça ergue-se imponente o Teatro Amazonas, sem dúvida o mais importante marco de nossa Cidade, símbolo de anos de fausto poder (época áurea da borracha, entre 1890 e 1910 , com muitas estórias verdadeiras ... e falsas. A sua edificação caracteriza um período em que o leite da seringueira tudo comprava. Era a época da borracha!
O projeto de construção do teatro data dos idos de 1881. Em 1883 o Governo do Estado aprova as plantas do "Gabinete Português de Engenharia e Arquitetura de Lisboa" e as obras são iniciadas em 1884, numa antiga roça localizada perto do aterro do Igarapé do Espírito Santo (hoje Av. Eduardo Ribeiro).


A firma italiana ROSSI & IRMÃOS incumbe-se da realização das obras, mas tem sua contratação cancelada pela lentidão e irregularidade constatadas no trabalho. Assim, a construção é paralisada em 1886 e vai reiniciar-se somente em 1893, sob o impulso empreendido pelo Governador Eduardo Ribeiro, que - motivado pela falta de material de construção e mão de obra - opta pela importação de matéria prima, operários, artistas, decoradores...
A cúpula do Teatro Amazonas, símbolo da cidade, foi duramente criticada pela opinião pública da época, que a julgava uma extravagância.
A armação de ferro foi importada da Europa e as telhas envernizadas,formando os contornos da bandeira brasileira, nas cores verde, amarelo, azul e branco, foram importadas da Alsásia (região francesa onde tradicionalmente os tetos de certas casas são cobertos com telhas similares), acondicionadas em redes durante a travessia do Atlântico.
A grandiosidade da cúpula, com seus contornos formando a bandeira brasileira, nas cores próprias, permitia que pudesse ser divisada ao longe pelos barcos que aportavam a cidade, lembrando a sua permanência em terras brasileiras.
Aproximemo-nos agora da entrada do Teatro.
Subindo as escadas principais de acesso observaremos, no frontão, uma alegoria em homenagem à música , à poesia, ao teatro e à arquitetura, com duas elegias - uma acompanhada por lira e máscara e outra segurando um compasso e pergaminhos. No alto encontram-se registradas as datas históricas da inauguração (1896) e das várias reformas havidas até os dias de hoje.
Durante anos a cor de suas paredes externas foi veementemente questionada pelos estudiosos. Na dúvida, as opiniões divergiam entre o cinza e o rosa. Pesquisas muito cuidadosas foram realizadas a esse respeito, quando da última reforma (1989/1990 ) e chegou-se à conclusão que, ao que parece, o teatro não estava ainda pintado na época de sua inauguração. No entanto, pelas evidências, a primeira pintura teria sido feita efetivamente em róseo.
Erguem-se em frente à fachada duas estátuas - à esquerda uma mulher, tendo às mãos uma lira estilizada com os contornos de um casco de tartaruga, simboliza a música; e à direita uma mulher, com pena e prancheta às mãos, simboliza a poesia.
Em estilo neoclássico, com adaptações regionais (tais como as calhas que saem das máscaras), vê-se ao lado esquerdo da fachada o baixo relevo de um rosto sorridente, a comédia, personificada pela musa Thalie e, ao lado direito, a fisionomia fechada da tragédia, caracterizada pela musa Melpomene. Essas representações, inclusive, são notadas em vários pontos da parte externa do prédio.
O revestimento do piso ao redor do teatro foi especialmente fabricado com uma liga de borracha para que o forte ruído das rodas das carroças pudesse ser abafado,
Penetremos agora no prédio ...
No "foyer" da entrada observam-se, ainda, antigos bancos de ferro em estilo "art-nouveau". Os pedestais das colunas e o piso são em mármore de Carrara. A sala de espetáculos (a plateia), com 685 lugares, mostra-se em seu estilo original após a reforma havida em 1989 que, apoiada em cuidadosas pesquisas, primou pela obediência aos padrões originais, exceto o veludo das cadeiras em jacarandá (originalmente em palhinha) e do sistema de refrigeração central.
O pano de boca, com 195 m2, confeccionado pelo artista pernambucano Crispim do Amaral , cenógrafo da "Comédie Française", em Paris, faz alegoria ao "Encontro das Águas" (dos rios Negro e Solimões) e mostra grandiosa pintura da deusa IARA circundada por aspectos da flora e fauna regionais.
Interessante é que, ao contrário da realidade, na alusão ao "Encontro das Águas", os rios (negro e barrento) encontram se representados com a mesma cor... O pano foi pintado em Paris e trazido depois para Manaus e lá não se sabia dessa diferença! A fim de que a pintura não sofra danos o pano não se enrola, mas sobe reto numa só peça teto adentro.
O palco nos dias atuais é sofisticado. Foi construído dentro dos mais avançados padrões e é acionado por sistema hidráulico, que permite a subida e descida de nível conforme as necessidades do espetáculo. Na apresentação de óperas, por exemplo, a orquestra fica comodamente alojada no fosso, em frente ao palco.
O teto mede 220 m2 e foi concebido em Paris, nos ateliês da "Maison Carpezot". Observando-se atentamente a pintura tem-se a impressão de estar embaixo da Torre Eiffel (Paris), na época recém-inaugurada, em comemoração aos cem anos da Revolução Francesa, representava o protótipo do modernismo da arquitetura. Observa-se, entre as bases da torre, quatro interessantes cenas alegóricas representando a dança, a música, a tragédia e - por último - uma homenagem à Carlos Gomes com motivos das óperas "TOSCA", "CONDOR" , "O GUARANI" e " LO SCHIAVO" , todas de sua autoria.
Importado da França, o lustre central desce ao chão para permitir a reposição das lâmpadas.
As grades dos camarotes, as colunas e todas as peças de ferro da sala, foram importadas da França .
Ao redor da sala observam-se máscaras teatrais homenageando os grandes vultos da música e do teatro, desde os gregos antigos (Ésquilo e Aristófane) até os mais recentes Verdi (ainda vivo na época da inauguração do teatro), Shakespeare, Molière, Rossini, Schiller, etc.
O teatro foi oficialmente inaugurado em 31 /1 2/1896, com uma apresentação local. Em 1897 é exibida a ópera LA GIOCONDA, de Ponchielli, com letra de Arrigo Boito, inspirada na peça de Victor Hugo "ANGELO, TYRAN DE PADOUSE" , pela Companhia Lírica Italiana.
As apresentações das grandes companhias europeias prolongaram-se até 1907, quando a Companhia Lírica  Francesa encerrou o ciclo áureo do teatro, com a apresentação da ópera LA JUIVE, de Halévy. Inicia-se o declínio do lucrativo comércio do látex e o teatro entra em uma triste fase de abandono, ao ponto de ter suas galerias utilizadas como depósitos de borracha, durante a 2°. guerra mundial.


O SALÃO NOBRE

No segundo piso localiza-se o salão nobre, que naquela época era frequentado por visitantes ilustres, durante os intervalos dos espetáculos, para conversas e fumo ou, ainda, para elegantes bailes que reuniam a nata da sociedade manauara. O piso deste salão, confeccionado em madeiras brasileiras e europeias (pau-brasil, carvalho, pinho de Riga, jacarandá, etc.), é constituído de 12.000 peças, encaixadas sem a utilização de pregos ou cola.


O desenho do piso é atribuído a Domenico de Angelis (Pintor italiano ligado ao ateliê do Prof  Capranese em Roma que também trabalhou na decoração do Teatro da Paz em Belém/PA) que,auxiliado pelos artistas também italianos Francisco Alegiane, Adalberto de Andreis e Sílvio Centofanti (autor dos murais da Igreja de São Sebastião), pintou ainda o teto e as paredes.
O teto, de 125 m2, datado de 1899, é o segundo do Brasil pintado com motivos profanos e representa a "Glorificação das Belas Artes na Amazônia". Alguns detalhes foram realizados em ouro de 14 quilates. A obra produz uma fantástica ilusão de movimento: o observador, ao deslocar-se, tem a sensação de que certos detalhes do conjunto também se movimentam.
Sabe-se que o Salão Nobre foi acabado depois da inauguração da sala de espetáculos, em 1 899.
Nas paredes, Domenico de Angelis pintou falsos "gobelins", imitando tapeçaria, com alegorias enfatizando a fauna, flora e comércio local; os igapós; a pesca no Rio Negro; aspectos da cidade; vista do Rio Amazonas e a cena final da ópera O GUARANI (de Carlos Gomes), com o índio Peri salvando Ceci de um incêndio. Os quadros foram pintados em tela e afixados depois de prontos.




As colunas têm base em mármore de Carrara e o corpo estucado para dar a impressão de tratar-se de ferro. Sobressaem magnificamente trinta e dois candelabros em cristal de Murano, portas com moldura em mármore de Verona e dois grandes espelhos importados da França colocados de forma a refletirem-se um ao outro, dando ideia de infinito - são importantes detalhes que complementam a grandiosidade do conjunto. Este tipo de recurso é típico dos estilos barroco e rococó.
Os móveis são brasileiros, fabricados no Rio de Janeiro.
No terraço , vários bustos homenageiam os grandes virtuoses da música e do teatro, inclusive o compositor Cárlos Gomes (de O GUARANI) e o dramaturgo João Caetano (1808-1863), que fundou em 1833 a primeira companhia dramática do Brasil, em Niterói.



Na fase áurea da borracha o teatro possuía móveis importados da Europa; porcelanas chinesas, francesas e japonesas; bibelôs de Sévres (centro de fabricação de cerâmica de luxo, próximo a Paris) ; tapetes e cortinas da Síria (Damasco). Na verdade, quase tudo foi importado da Europa, com exceção do material elétrico que foi adquirido na América (Nova York), especialmente porque o "chic" se encontrava lá... e Manaus era muito "chic" ... Muitas das peças outrora adquiridas hoje não mais existem.
Muitas estórias são contadas acerca da apresentação no Teatro Amazonas de lendárias personagens do teatro e da música. Caruso e Sarah Bernard, que estiveram no Brasil, jamais vieram até Manaus. No entanto, numerosos artistas, famosos na época, se apresentaram em seu palco, destacando-se Giovanni Emanuel, Lucila Perez, Josefina Rebledo, Guiomar Novais e Heitor Villa-Lobos, uma vez que Manaus fazia parte do circuito dos navios que traziam as grandes companhias de espetáculos para a América do Sul e para os Estados Unidos da América.
Em 1996, em comemoração ao centenário do teatro, apresentou-se o tenor espanhol José Carreras, junto com a Orquestra Sinfônica Brasileira. Assim, a Opera de Manaus (Teatro Amazonas) ainda faz jus à tradição de seu glorioso passado.
Duas casas de espetáculo serviram de modelo ao Teatro Amazonas - o SCALA de Milão e o Palácio GARNIER, de Paris. O Palácio GARNIER, Opera de Paris, com 2156 lugares, foi construído entre 1862 e 1875, durante as grandes obras de reforma de  Paris, dirigidas pelo Barão Haussmann, no Segundo Império. O SCALA, de Milão, com 3600 lugares, é o mais antigo e foi construído em 1776 - trata-se de um dos maiores teatros do mundo.
Saindo do teatro, dirija-se à parte de trás...


Nos terraços laterais duas estátuas (de um homem e uma mulher) representam índios segurando tochas.
Aos fundos duas belas  estátuas femininas chamam a atenção - a da direita empunha uma espada e a da esquerda mostra-se envolvida em pesada túnica desde a cabeça, segurando um ramo de flores.
Interessante observar na parte lateral e nos fundos do teatro que existem suspensas interessantíssimas luminárias em estilo antigo.
Do terraço posterior do teatro tem-se uma belíssima vista do Palácio da Justiça. 



O PALÁCIO DA JUSTIÇA

Descendo as escadarias estaremos em frente ao imponente Palácio da Justiça. Sua edificação, iniciada pela firma inglesa MOERS & MORTON, em 1894, na gestão do Governador Eduardo Ribeiro, é completada em 1900, na gestão do Governador José Cardoso Ramalho Júnior, por uma firma brasileira.
Durante todos esses anos o prédio manteve-se sempre com a sua destinação original de abrigar a sede do Poder Judiciário.
O estilo da construção foi inspirado na arquitetura do 2° império francês, acrescentado de elementos tardios do neoclassicismo inglês.


A edificação de dois pavimentos teve sua aparência externa cuidadosamente preservada ao longo de mais de um século.
O térreo tem revestimento de alvenaria, com tratamento de bossagem, janelas e portas em arco pleno e colunas do pórtico da ordem toscana. O segundo andar caracteriza-se por alvenaria lisa, janelas de púlpito de verga reta, com frontões curvos e triangulares e colunas do pórtico da ordem composita.
A escada monumental da fachada é de mármore.
Na parte superior da fachada uma grande estátua de TEMIS ( a deusa grega da Lei e da Justiça ) , de olhos desvendados, segura à mão direita uma espada e à esquerda uma balança. Embaixo um medalhão onde se lê - LEX (Lei). Ao contrário das representações comuns da Justiça verifica-se que a estátua não tem venda sobre os olhos, o que a torna bastante incomum, uma vez que Têmis é tradicionalmente apresentada cega. Por outro lado, ainda, nota-se que a balança em suas mãos pende, em desequilíbrio, para um dos lados.
O interior é barroco, com profusão de ornamentos.
Por tratar-se de uma repartição pública a visitação é bastante restrita.
Observa-se, ainda, bem na esquina da Av. Eduardo Ribeiro com a Rua 1 0 de Julho, em frente ao Palácio da Justiça, os vestígios dos trilhos de bonde. Manaus, rica em borracha, foi uma das primeiras cidades brasileiras a possuir bondes elétricos, desde o final do século XIX, antes inclusive das grandes cidades do leste-sul.


MANAUS E OS BONDES

Em 1889 foi inaugurada em Manaus a primeira linha de bondes. Em 1893, sob a gestão do Governador Eduardo Ribeiro, novo impulso é dado ao serviço. Em 1896 é inaugurado o Serviço de Viação Pública, que levava os passageiros do centro para os subúrbios e vice-versa. Finalmente, em 1908, a empresa passa a ser administrada pelos ingleses da "The Manaos Tramways and  Light Co. Ltd." A pontualidade britânica reflete-se na obediência rigorosa dos horários e o bonde passa a ser referencial sempre que se desejava saber as horas. Até o ano de 1939 não havia em Manaus outro meio de transporte coletivo além do bonde.
Atrás do Palácio da Justiça, na Rua 1 0 de Julho, localiza-se o hospital SANTA CASA DE MISERICÓRDIA, construído em estilo eclético.


A data de 10 de Julho é alusiva à comemoração da libertação dos escravos no Amazonas, ocorrida em 1884, quatro anos antes da abolição no Brasil.
Diversas fachadas de casas particulares, em diferentes estilos arquitetônicos, datando da época áurea da borracha, poderão ser notadas,
Na esquina da Av. Eduardo Ribeiro com a Rua Monsenhor Coutinho situa-se o IDEAL CLUBE (um prédio verde), famoso desde a época da borracha e até hoje ainda um dos mais frequentados pela elite manauara.


Dobre a esquerda e entre na Rua Monsenhor Coutinho. A cinquenta metros localizam-se dois prédios muito interessantes - um utilizado como funerária e outro como laboratório de análises (pela parte interna  ambientado historicamente), ambos datados do início do século. Vale a pena entrar no pátio e observar mais de perto. O pessoal é especialmente amigável com os visitantes.
Rua abaixo, à esquina da Monsenhor Coutinho com a Rua Ferreira Pena, situa-se o Consulado do Japão. O prédio é antigo e possui detalhes arquitetônicos interessantes, como um busto de mulher no canto da casa, dominando o frontão. Manaus tem uma colônia japonesa e numerosos navios de bandeira nipônica aportam frequentemente em seu cais.
Dobre agora à direita, na Rua Ferreira Pena, até o cruzamento com a Rua Ramos Ferreira.
Na esquina ergue-se um belo casarão, datando de 1909, recentemente reformado. As cores, em tons pastéis, combinam entre si ressaltando detalhes arquitetônicos interessantes. Pelas janelas do térreo, vê-se um belíssimo porão, com abóbadas em pedra, antiga adega e hoje um salão de negócios.
À esquerda vê-se a Praça Cinco de Setembro, também chamada de Praça da Saudade, pois no passado havia um cemitério às suas proximidades, no mesmo lugar onde hoje está localizado o Atlético Rio Negro Clube.
A praça é arborizada com sibiripirunas (Caesalpina pelthoroides benth), allamandas, papoulas e "frutos de cachorro" (Dillenia indica L), Ao meio ergue-se um monumento erguido em homenagem a Tenreiro Aranha, que foi o 1 ° presidente da Província do Amazonas.


TENREIRO  ARANHA E O CINCO DE SETEMBRO

No século XIX, a região de São José do Rio Negro ainda encontrava-se subordinada à administração de Belém (Pará).Em 1844,inconformado com a situação, João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha inicia renhida luta com o móvel de conseguir a independência e, assim, nasce em cinco de setembro de 1852 a Província do Amazonas, que tem o próprio Tenreiro Aranha como o primeiro presidente. Grande trabalho social e cultural é realizado até 1852. Vítima, porém, das intrigas e perseguições morre Tenreiro aranha, pobre e esquecido, em 1862.
Na época da independência da Província do Amazonas a capital ainda não se chamava Manaus. Em 1848, é elevada à categoria de cidade, com o nome de Barra do Rio Negro, com mais ou menos 600 habitantes. Só em 1856 é que o nome Manaus, subtraído de uma das tribos indígenas do Rio Negro, vai identificar a cidade.


Ainda na Praça da Saudade, no trecho que ladeia a Rua Ferreira Pena, pode-se observar um chafariz moderno, que exibe duas esculturas curiosas, uma representando um homem pré-histórico segurando um machado de pedra e outra reproduzindo um homem moderno.
Na esquina da praça com a Rua Simão Bolívar vê-se outro prédio antigo, em estilo árabe. Trata-se do Palácio Cinco de Setembro.
Retorne pela mesma Rua Ferreira Pena e dobre a esquerda, na Rua Ramos Ferreira , até a Praça do Congresso, no final da Av. Eduardo Ribeiro.


A PRAÇA DO CONGRESSO

Seu nome homenageia o Congresso Eucarístico Diocesano de Manaus, que em 1942 comemorou os 50 anos de criação do bispado, quando gigantesca procissão fluvial aconteceu, de Belém até Manaus, subindo o rio Amazonas. O monumento que se ergue, em frente ao Instituto de Educação do Amazonas, representa N. S. da Conceição, a Padroeira do Amazonas, e também comemora o quarto centenário da descoberta do Rio Negro, em 1542, por Francisco  Orellana - a primeira visão do rio Negro pelos homens brancos.
Esta praça foi reformada pela CCE da Amazônia em 1995.
Dela  avista-se a Avenida Eduardo Ribeiro em toda a sua extensão. Às suas costas vê-se o Instituto de Educação do Amazonas (IEA), que ocupa o mesmo lugar onde na época da borracha teria sido iniciada a obra do Palácio do Governo, jamais concluída. Pouco se sabe acerca do prédio atual.
Seguindo pela Rua Ramos Ferreira tem-se à direita uma bela vista da cúpula do Teatro Amazonas e à esquerda, mais a frente, um dos prédios mais representativos da saudosa época da borracha, o Instituto Benjamim Constant, nome do grande republicano que propagou no Brasil as ideias positivistas de Augusto Comte.


O INSTITUTO BENJAMIN CONSTANT

Construído entre 1892/1894, no governo de Eduardo Ribeiro, grande admirador de Benjamim Constant.
O prédio, em estilo eclético, tem sua fachada em linhas horizontais e simétricas, com uma enorme  escada unido curiosamente o térreo ao segundo pavimento. O portão de ferro, à entrada, é um dos raros exemplos de fundição ornamental em Manaus, com detalhes de flores e personagens estilizados. Existem, ainda, jardim e capela. Em 1893 a administração do instituto era realizada por cinco irmãs da Ordem de Sant'ana, que cuidavam da educação de aproximadamente cinquenta alunos. Hoje o edifício abriga uma escola pública.


Em estilo antigo, vê-se o prédio da Academia Amazonense de Letras, na esquina da Rua Ramos Ferreira com a Rua Tapajós. Trata-se de construção antiga, com bela fachada, que data da época da borracha, quando abrigava uma escola. É mais um exemplo do carinho e da preocupação dos governantes da época com relação ao ensino público.


Em frente à Academia não deixe de visitar a banca de "tacacá" da Dona Maria, que funciona somente ao entardecer. O "tacacá" é um representante típico da gastronomia da Amazônia, servido em cuias e preparado com uma mistura de goma e tucupi (produtos extraídos da mandioca), camarão e jambu  (erva de sabor muito especial). É imperdível. A banca da Dona Maria também oferece outras delícias da cozinha local.
Continue a caminhada pela Rua Ramos Ferreira, até o n° 1 .036, casarão que abriga o Museu Amazônico.




O MUSEU AMAZÔNICO

O Museu Amazônico foi fundado pela Universidade do Amazonas, em 1991 , e funciona como órgão de apoio e pesquisa nas áreas da história, antropologia e arqueologia.
O museu apresenta exposições temporárias sobre assuntos culturais amazônicos e possui grande acervo de livros, documentos originais, fotografias, filmes e microfilmes, o que permite um amplo acesso às informações sobre a região desde o Século XVII. Encontram-se ainda guardados importantes documentos sobre a Amazônia colonial, imperial e sobre a república, microfilmados do Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, da Biblioteca Municipal do Porto e da Sociedade Geográfica de Lisboa. O Museu Amazônico abriga, ainda, um espetacular conjunto de 3.200.000 documentos pertencentes ao Fundo J. G. de Araújo (firma  exportadora/importadora estabelecida em Manaus desde 1879), que registram com fidelidade a história sócio econômica da Amazônia, desde a época da borracha até dias mais recentes.
Pode também ser visto o extraordinário acervo da obra do fotógrafo e cineasta português Silvino Santos, o maior documentarista visual da Amazônia, que viveu no período de 1886/1970, representado por cerca de 1 .500 negativos em chapa de vidro, dois filmes curta-metragem 1 6 mm ("O Fim do Pioneiro" e "1922, A Exposição da Independência") e várias peças de seu laboratório fotográfico particular.




SILVINO SANTOS (1886-1970)

Nascido em Portugal, sonhava desde cedo em conhecer a Amazônia. Em 1913 iniciou seu trabalho como cinegrafista, na Peruvian Amazon Company. Em 1922 é contratado pela firma amazonense J. G. de Araújo, para quem realizou vários documentários e centenas de fotografias, retratando com extrema  sensibilidade aspectos sociais, citadinos, indígenas e selvagens da Amazônia.
Retorne pela Rua Ramos Ferreira, vire à esquerda na Rua Tapajós e desça em direção à Praça São Sebastião (aquela do teatro). À direita encontram-se o Luso Sporting Clube ,  com sua arquitetura " manuelina " copiada dos prédios de Portugal, fundado e administrado pela comunidade portuguesa; e o Centro de Artes Hanemann  Bacelar (também chamado de Centro de Arfe da Universidade do Amazonas - CAUA), que oferece concertos de jazz, clássicos e música regional, exposições de pintura e escultura, sessões de cinema e vídeo, livraria e mantém numerosas oficinas de arte.
De volta à praça entre agora na Igreja de São Sebastião...


A IGREJA DE SÃO SEBASTIÃO

A construção do prédio da igreja, sob a direção de Gesualdo Machetti de Lucas, data de 1888, Com o fim do Império e consequente Proclamação da República a obra sofreu atrasos em decorrência do corte de recursos anteriormente garantidos pelo Estado.


O prédio é em estilo neoclássico, com alguns elementos medievalistas. Muitos dos objetos originais, tais como vasos sacros de ouro e porcelana, já não mais existem. Estão intactas as pinturas que cobrem o teto, desde a entrada até o altar, incluindo a cúpula e as paredes. Trazidas da Itália e afixadas no local são de autoria de Sílvio Centofanti, Francisco Campanella e Ballerini. A maior delas, pintada por Ballerini no teto, logo à entrada, mostra o martírio de São Sebastião; na base da cúpula retrata os quatro evangelistas; e na própria cúpula a "Glória do Céu" com oito anjos. Nas laterais da nave existem telas representando São Pedro e São Paulo.


A capela lateral, à esquerda, abriga um interessantíssimo presépio em tamanho natural, com um grande camelo, trazido da Europa por uma rica família manauara. Na capela-mor existe uma bela estatueta de São Sebastião, ladeada por três vitrais modernos e quatro telas de inspiração franciscana, assinadas por Francisco Campanella. A "Via Crucis" (a observação é dificultada uma vez que localiza-se muito em cima) é notável, com seus quadros em relevo, A fachada tem somente um sineiro - o segundo jamais foi construído. Certos autores dizem que infiltrações de água motivaram a . paralisação das obras, que nunca mais foram reiniciadas. Outros dizem que o mestre de obras teria fugido com o dinheiro destinado à construção...

Voltamos ao ponto de partida.
Existem pelos arredores muitos bares interessantes, especialmente o tradicional Bar do Armando, onde se pode saborear uma cervejinha ou um bom refrigerante supergelados.

sábado, 19 de setembro de 2015

O IGARAPÉ QUE VIROU AVENIDA: ESPÍRITO SANTO



É um fato histórico bem conhecido e até documentado em fotografias. Mas achei interessante reunir informações numa animação mostrando como seria o antes e o depois, tendo ao fundo a música "Danúbio Azul". Também não é novidade que as cheias que atinge a avenida Eduardo Ribeiro é uma demonstração da existência dos igarapés aterrados junto com o Espírito Santo.
Usei principalmente duas fotos, uma mostrando um bonde na Avenida Eduardo Ribeiro. de um postal colorido de 1905 ou 1906. E uma foto colorizada pelo Sr. Paulo Menezes, que está no Facebook "Manaus em Cores".


Imagem retirada do primeiro postal da cidade.

Imagem montada com uma foto e um pintura mostrando a catedral em construção.

Duas fotos reunidas numa só. Aqui aparece também a Catedral em fase final da construção e mostrando o Igarapé do Espírito Santo onde hoje é a Avenida Eduardo Ribeiro. Uma ponte que existiu no cruzamento do Igarapé com a Rua Municipal, hoje, Sete de Setembro. As fotos também foram colorizadas pelo Sr.Paulo Menezes.

Cheia de 2012 que alagou a Eduardo Ribeiro, em proporção,  maior que a de 1953.

Efeito digital que deixou a avenida deserta.

Avenida Eduardo Ribeiro em postais coloridos.
Uma versão não colorizada do Igarapé do Espírito Santo.

A ideia de juntar as duas fotos não foi original. Aqui está uma versão tirada de um informativo da UNIMED Manaus (Jornal). Também está num livro sobre Manaus do Prof. Aldemir Oliveira informando que as fotos foram unidas  na UFAM.