sábado, 21 de maio de 2016

A trajetória de Eduardo Gonçalves Ribeiro II - MÁRIO YPIRANGA MONTEIRO



CAPÍTULO 2


SOB TODOS OS FOGOS DA REPÚBLICA

Ao raiar da República manda-se governar o Amazonas, em substituição à Junta Governativa, o tenente do exército Augusto Ximeno de Villeroy, um tipo de temperamento conflitivo, que arranja logo inimizades em Manaus e por isso mesmo desiste de continuar enfrentando as hostes turbulentas dos partidos políticos. Villeroy coloca o dr. Eduardo Ribeiro (tenente ainda) de oficial-de-gabinete. A experiência deve de haver agradado àquele mulato bisonho, pois não mais arreda pé do âmbito governamental, fazendo dele o estribo para a ascensão. Claro que o dr. Eduardo Ribeiro não necessitaria de degrau tão oscilante para tornar-se um homem conhecido. Ele já o era desde moço, quando redigia um jornalzinho no Maranhão, O Pensador, nome que deixa a gente inclinado a conjeturar possuísse inteligência aberta a grandes realizações. Era de fato um homem interior, voltado para si mesmo, mas a política tem esse condão de modificar a armadura moral dos rebocados em sua esteira. O dr. Eduardo Ribeiro deveria de calcular a extensâo do caminho que conduzia ao plano superior de sua pacata existência de segundo-tenente do Exército. Como a fortuna lhe vinha ao encontro, porém, colocando-o no centro geométrico daquele círculo de ambições políticas e de dissidências de toda ordem, não se desiludiu quando o tenente Villeroy desistiu do governo sob a alegação de doença grave da esposa. Villeroy assumiu o goveeno a 4 de janeiro de 1890 e deixou-o a 2 de novembro, havendo governado apenas onze meses. Nesses onze meses pintou a manta, desgostando à maioria da população com seus atos, alguns feitos de boa-fé, outros apenas saneadores. Dos atos atrabiliários consta a extinção do Museu Botânico do Amazonas, dirigido pelo notável cientista dr. João Barbosa Rodrigues, ato atribuído à formação monárquica do sábio, a que se solidarizou Eduardo Ribeiro. Igualmente deselegante mas com o apoio nas tendências republicanas foi a extinção do ensino religioso nas escolas, visto que a República havia separado a Igreja do Estado. Dos bons atos constam a reorganização do ensino primário e a unificação do Liceu com a Escola Normal sob o título de Instituto Normal Superior, como na França. Há outros atos dignos de aplauso, principalmente porque foi um administrador que fez vista grossa aos cambalachos politicos, ficando longe dos partidos. Quer acreditar-se haja sido grandemente influenciado pelo dr. Eduardo Ribeiro, que já estava em Manaus há mais tempo e conhecia o que deveria ser mudado ou conservado. Pelo menos na questão do ensino seu ajudante de gabinete foi de utilidade, pois o dr. Eduardo Ribeiro manteve uma politica de proteção à instrução pública. Além de que, respondendo pela diretoria de obras públicas, teria oportunidade de verificar o estado em que andavam as mesmas, como engenheiro militar que era.
A situação politica não era àquela altura de concórdia. Funestas atividades dos dois partidos dominantes, que já haviam desgostado ao governador Ximeno de Villeroy, ameaçavam a primeira administração do dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro. Nomeado vice-governador e já admitido nas simpatias gerais, nem por isso se viu o Pensador livre das futricas subterrâneas que o ódio misturado com a ambição de poder argamassavam. Não haviam decorrido muitos dias da investidura oficial de Eduardo Ribeiro na cadeira governamental (3 de janeiro de 1891) quando na manhã de 12 de abril abruptamente chega a Manaus a notícia de sua demissão e nomeação do coronel Taumaturgo de Azevedo para substituí-lo. Anulado pelo Partido Republicano, o povo - o povo é sempre o grande instrumento dos perturbadores da ordem - reuniu-se em protesto, convidado por boletim distribuído em todos os bairros da capital, que àquela data se resumiam em dois ou três principais, ainda anacumênicos: Cachoeïrinha, Tocos, Vila Municipal Operária e as colônias nascentes Cearense, Oliveira Machado ou João Alfredo, São Raimundo Nonato. O manifesto, consoante a autoridade do historiador amazonense dr. Arthur Cézar Ferreira Reis, dizia:

Aos doze dias do mês de abril de mil oitocentos e noventa e um, terceiro da República, reunido o povo da cidade de Manaus, em nome da população do Amazonas, na praça da República, em vista da demissão traiçoeiramente conseguida do Governo-Geral pelos inimigos da República, do cidadão dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro, que a contento da população do Amazonas está dirigindo os destinos deste Estado, resolveu a mesma população aclamar o referido dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro governador efetivo do Estado do Amazonas. Em seguida o mesmo povo depôs a Intendência Municipal por não mais lhe merecer confiança. E por ser esta a vontade do povo, foi lavrada a presente ata que lida ao cidadão Governador proclamado pelo povo, foi aceita e assinada pelos presentes.

Os autores da combinada proclamação não ignoravam naturalmente a origem do despejo. Após a proclamação da República seriam escolhic~os os representantes eventuais do Estado à Constituinte Nacional e daquela "seleção ' faziam parte inimigos do regime, isto é, franco-atiradores com assento no partido opositor: monarquistas de casaca mudada, duas velhas raposas intransigentes, Manuel Francisco Machado, o barâo do Solimões, e Joaquim José Pais da Silva Sarmento, senadores; e dr. Manuel Inácio Belfort Vieira, deputado. Além do mais, extinta a Assembléia Legislativa Amazonense por ato decisório do tenente Ximeno de Villeroy, criara-se uma atmosfera de animosidade, contra a representação ribeirinha, animosidade que viria a explodir mais tarde. Aqueles homens, convencidos de que a República era apenas uma atividade política transitória, espécie de quartelada em que fora jogado o general Deodoro, também ele monarquista, tramaram contra a estada do dr. Eduardo Ribeiro no poder, estada que constituía séria ameaça às ambições dos partidos, principalmente ao conservador Partido Democrático, pululante de monarquistas convictos.
O governo federal não daria ouvidos ao forjado reclamo das massas porque seu interesse maior estava colocado no sustentáculo da política econômica. Naquele tempo, o Amazonas pesava. na balança com sua proverbial manifestação de exuberância financeira, e o país, miserabilizado, necessitava do apoio de nossos representantes na Constituinte. Quando a borracha significasse menos para as ambições dos homens do governo, a República negligenciaria o Amazonas e até considerava com aborrecimento nossos pedidos de ajuda. Nunca nos deu a mão e até mesmo contribuiu para aumentar o desfavor que passamos a gozar.
Impingiram ao desgostoso povo um elemento de prestígio militar, é fato, e com alguma boa experiência amazônica: o coronel Gregório Taumaturgo de Azevedo, que morreria marechal. Esse homem culto e presto possuía o mesmo defeito do tenente Ximeno de Villeroy: era irritadiço e perseverante em suas decisões. Não apaziguou os âmimos e ao contrário contribuiu para aumentá-los. Quando chegou a Manaus, encontrou visível a hostilidade dos grupos e, em vez de tentar uma manobra de congraçamento, cultivou a desarmonia, fazendo-se o centro de preocupação política dos partidos alvoroçados. Taumaturgo era enérgico e correto, mas fraco no momento de conservar o equilíbrio psicológico para enfrentar a perturbação ambiente. Taumaturgo de Azevedo fora escorraçado de sua terra, o Piauí, e mancomunara-se com os soldados de Deodoro da Fonseca. Insinuara-se no prestígio republicano apoiado, aliás, pelo partido dos Moreiras, e começara mal sua jornada pela administração. Alguns autores o dão como honesto e bem-intencionado. No eritanto, o maior escândalo de sua administração foi o célebre Contrato Predial em que era ao mesmo tempo legislador e contratante. Hoje se diria advocacia em causa própria. Sujou as mãos numa empresa que estaria fadada ao desenvolvimento se os sabujos que rondavam a gamela do Tesouro não se imiscuíssem nela. O coronel Taumaturgo de Azevedo não conhecia os homens do Amazonas, isto é, os políticos ajustados ao momento, os camaleões, os forjadores das "chapas de caixão", os traidores e conspiradores renitentes, os profissionais da intriga. Em sua mensagem de 15 de novembro de 1891 ele se desdobra em minúcias a propósito do embelezamento da cidade e pede alguns créditos para esse programa. É seu o ato arbitrário de anulação do contrato dos esgotos, sob a alegação de irregular e até nocivo à saúde pública. É possível que o fosse, não possuímos condições para confirmar. No entanto, essa história de anulação de contratos feitos em administrações anteriores era um vício contumaz que deixava sólidos réditos a quem os decretava e um passo à retaguarda no progresso da cidade. O coronel Taumaturgo
desejava conciliar seu nome (obrador de milagres) com o embelezamento de Manaus. Se esse fosse realmente um programa estabelecido dentro das normas usuais da administração, valia a pena aceitá-lo. De fato, as idéias do novel governador eram boas, até mesmo necessárias, do tipo aterro de igarapés etc.
O deínônio da ambição, porém, andava de braço dado com a lisonja e o cortejamento dos sacanetas desfibrados. Dirigindo-se ao Congresso Amazonense na sessão de 25 de novembro de 1891, o coronel governador procurou logo dar a conhecer o estado das finanças, que não eram más. Começou bem.
Ao dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro coube apenas o gesto disciplinado de passar o governo. Creio que a história deveria ser contada assim: manobrado pelos políticos na capital federal, o marechal Deodoro indicou o novo comandante da flotilha, cápitão-de-fragata Borges Machado, para substituir o dr. Eduardo Ribeiro. Este, intimado no dia 5 de maio a entregar o governo, passou-o ao vice Guilherme José Moreira, barão do Juruá, um dos que eram apontados como traidor de causa perdida. Deposto, sem qualquer manifestação de desagravo, dr. Eduardo Ribeiro dispôs-se naturalmente a esperar que os "amigos" do partido, no Rio de Janeiro, advogassem sua causa. Isso fez o valente dr. Almino Álvares Affonso no Congresso. Seu discurso é uma peça memorável de retórica parlamentar: estilo empolado, cultismo verborrágico, arrancos de piedosa
ternura para com as nossas possibilidades. O dr. Almino Álvares Affonso não chegaria só com palavras duras a hostilizar o coronel Taumaturgo de Azevedo na defesa intransigente do dr. Eduardo Ribeiro: foi às vias de fato no dia 14 de janeiro de 1892 com o dr. Domingos de Carvalho Leal. Apesar de Arthur Reis situar a praça do General Osório frente ao Quartel do 36° BI (mais tarde 27° BC), a escaramuça teve lugar no Palácio do Governo (hoje sede da Prefeitura Municipal) e nela morreu o soldado Fernandes Pimenta, saindo ferido levemente na região glútea o dr. Almino Álvares Affonso, acérrimo adversário do coronel Gregório Ta.umaturgo de Azevedo. A posição de Eduardo Ribeiro nesse conflito de interesses seria de reserva e abstenção. Talvez de prudente espera? O fato é que após toda aquela sarrafascada receberia de galardão o cargo de professor de Matemáticas da Escola Superior de Guerra e a patente de capitão de Estado-Maior. Um prêmio régio de Floriano Peixoto já no govemo com a abdicação de Deodoro.
Taumaturgo de Azevedo não demorou muito no poder, apesar de haver sustentado briosamente seus presumidos diréitos contra a palavra de Floriano Peixoto. A situação no Amazonas voltava agora a piorar e a perspectiva. de graves acontecimentos pairava. no ar. Intimado a entregar o governo, recusou-se, fortificando-se nâo em seguros princípios legais mas em sua vontade. Isso obrigou Floriano Peixoto a intervir na situa~ão, mas de maneira suasória, enviando uma comissão parlamentar de oficiais das duas armas, Exército e Marinha, havendo, contra a vontade e sob , protesto escrito, entregue o mandato ao capitão-de-fragata José Inácio Borges Machado. Se este trabalho dissesse respeito aos movimentos revolucionários do Amazonas, muita coisa se teria a acrescentar aqui, porém o destaque principal é a figura do dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro, que, nessa conjuntura, misantropo como era, recolheu-se a seus penates aguardando o final da embrulhada.
E obrou inteligentemente, porquanto seus verdadeiros amigos na capital federal trabalhavam pela reintegração no poder.Floriano Peixoto não era da mesma estirpe de Deodoro. E contava. com o mérito de haver estado no Amazonas, lotado no 3 ° Batalhão de Artilharia a-Pé como coronel. Em Manaus filiou-se à Loja Amazonas, sita na rua de Bernardo Ramos. Era portanto um homem que conhecia, dos tempos da Província, a região e seus homens políticos. Sabia em que mares navegava, enquanto Deodoro ouvia apenas as partes interessadas em malquistar o dr. Eduardo Ribeiro. Observe-se, ainda, que o Pensador não era filiado a nenhuma loja do Amazonas, portanto estivera lutando sozinho contra obreiros que possuíam força para mantê-lo longe do governo. Talvez, quero acreditar, fosse a colônia maranhense de Manaus, representada em sua quase totalidade porhomens de cor (Lima Bacuri, Raul de Azevedo, mulato-claro; Pedro Freire, mulato-claro), o sustentáculo de sua vitoriosa carreira. Já dissemos: o dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro não era ofensivo corno o coronel Taumaturgo de Azevedo ou Guerreiro Antony. Já dotado de uma experiência local, e apoiado pela resistência dos bons republicanos residentes no R.io de Janeiro, deputados e senadores, desfez-se habilidosamente do peso que representava o coronel Gregório Taumaturgo de Azevedo. A 11 de março, o dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro recebia nova nente as rédeas da administração. Agora julgava-se firme no posto e não teve dúvida alguma de fazer o que a política sempre vinha fazendo: dissolveu o Congresso Amazonense, que havia ficado solidário ao ato de Deodoro, reformou a Constituição, cujos termos apropriados já citamos, e elegeu-se governador do Estado para o período 1893-1896....A quartelada de 1892 teve como pivô a soma daquelas três atividades muito freqüentes na história do Amazonas: vingança contra a ascensão ao poder do dr. Eduardo Ribeiro; ambição do Partido Republicano; e intervenção militar, por desforço, diante da recusa do governador a aceitar a proposta de um major do Exército para construir a estrada de ferro para o Rio Branco. Também se diz que em vez de estrada de ferro era a rodovia para aquela região.
O fato é que era por causa desta última. Indivíduo interessado no serviço, o major Tristão Sucupira de Alencar Araripe, repudiado em suas francas intenções de abiscoitar o serviço, andou correndo de Herodes a Pilatos solicitando o apoio de todos os políticos republicanos. Esse cidadão era major locado no 36° Batalhão. Junto com o irmão João Araripe, bacharel demitido "espontaneamente" do cargo de Procurador Fiscal do Tesouro Nacional, e mais outros uniu-se aos ambiciosos expurgados da cúpula do Partido Republicano - Domingos Teófilo de Carvalho Leal, Jônatas de Freitas Pedrosa, major Enrique Ferreira Pena de Azevedo e Pedro de Alcântara do Rego Barros - promovendo um conventículo a fim de depor o governador Eduardo Ribeiro e se apossarem do poder. O cômico da história é que nas reuniões havidas na rua da Independência (hoje do Frei José dos Santos Inocentes), residência do major Araripe, foi apresentada uma lista dos futuros "eleitos pelo povo por aclamação": o dr. Domingos Teófilo de Carvalho Leal, o homem que se mordia de ódio por não haver sido guindado a posição relevante, seria o governador do Estado, o qual depois passaria o queijo para o major Enrique Ferreira Pena de Azevedo roer por sua vez; o sargento João Fernandes Pacote passaria a comandante de Segurança Pública e os demais viriam a ser promovidos. O envolvimento nessa trampolinice de miseráveis praças era o que a cachimônia dos conspiradores mais aspirava, pois aos quatro sargentos estavam destinadas a segurança e a paz da família amazonense. Os demais, civis, comprometiam-se a apresentar trezentos homens armados.' Aqui começa a vacilar o projeto sedicioso, pois para esses civis foi necessário envolver certo português muito conhecido na Manaus daqueles idos, cujo nome, Brás Santos, foi dado à praça hoje 15 de Novembro. O pobre comerciante de cachaça se viu intimado pelo major Araripe a fornecer um caixote com armas. A intimação feita pelo major ao comerciante era apoiada na suspeita ou prova de haver ele vendido rifles (dois caixões) quando fora da deposição do coronel Taumaturgo de Azevedo. Lembramo-nos de que naquela mazorca estava. metido como principal mandante o dr. Domingos Teófilo de Carvalho Leal. O português recusou-se a fornecer o material alegando não o haverem pago. Nâo chegou a ficar provado se depois negociou as armas. Além daqueles militares foram arrolados na conivência o primeiro-sargento Manuel Guedes Monteiro, Cândido Serpa (praça) e o cabo-de-esquadra Francisco Guedes Monteiro. Os pequenos, os miseráveis aliciados para a cena de sangue que se desenrolaria na madrugada de 31 de dezembro de 1892. Os maiorais da miIícia eram os já referidos primeiro-capitão José de Alencar Araripe e o genro deste, primeiro-tenente Cláudio da Rocha Lima.
Um nome a destacar é o do segundo-tenente Fernando José dos Santos Barbosa, que ficou fiel a seu comandante, tenente-coronel Geógrafo de Castro Silva, quando os arruaceiros tentaram amotinar o Batalhão, sem nenhum sucesso. Esse segundotenente Barbosa deu parte ao comandante do que estava ocorrendo nos Artigos Bélicos (3) com respeito ao parque de artilheria, sendo por isso louvado na ordem do dia n° 41 de 13 de janeiro de 1893, juntamente aos companheiros de farda major dr. Clarindo Adolfo de Oliveira Chaves(4), capitão Antônio Correia de Oliveira, capitão Carlos Augusto de Sousa, capitão de engenheiros Manuel Uchoa Rodrigues(5), capitão honorário Francisco Inácio dos Santos, tenente João de Lemos, tenente Raimundo de Amorim Figueira, tenente-farmacêutico Raimundo de Vasconcelos, alferes Bernardo Pio Correa Lima e alferes Francisco Siqueira Melo Rego Barros(6). Do exame do material bélico roubado dos Artigos Bélicos pelo primeiro-tenente Cláudio da Rocha Lima, constavam cartuchos para peças de artilheria, de fabricaçâo estranha, manipulados, ao que se saberia depois, pelos implicados na quartelada. Além daqueles militares citados, do 36° de Infanteria, havia mais o tenente Raimundo Martins Nunes, alferes Odilon Pratagi Brasiliense e alferes José Bransford da Franca Amaral. A impunidade com que o governo federal tratava a mátula empregada no derramamento de sangue inocente não era novidade àquela altura nem seria depois. Mais tarde veremos como o regime republicano foi sempre uma completa e iterativa demonstração contrária à filosofia de fraternidade, aquela palavra oca que se colocava ostensivamente nos papéis burocráticos. Tratava n-se fraternalmente nos ofícios e na vida prática mordiam-se, apunhalavam-se pelas costas, ambicionavam posições e dinheiro. Foi o dinheiro que arrastou o major Tristão Sucupira de Alencar Araripe à formalização de desagradáveis contubérnios, em que muitas vidas seriam imoladas inocentemente depois. Quando o referido major apresentou os planos para a abertura da estrada Manaus-Rio Branco, os técnicos descobriram uma boa cópia de erros grosseiros de orientação geodésica, de latitudes e longitudes, e por isso o governo do Estado recusou-os. Talvez não fosse somente por isso 0 objeto da recusa, pois naquela altura já se sabia que uma estrada de rodagem para o Rio Branco estava sendo contratada; como o foi depois, aparecendo outros concessionários mais prestigiados. Pelo menos vinte quilômetros já estavam prontos, dizia-se. O objetivo da revolta organizada pelo major Araripe e apaniguados era apossar-se dos ricos terrenos marginais da estrada em projeto de abertura desde 1834. Disso dá conta o arrazoado da imprensa manauara da época e a troca de insultos baixos havida entre o referido major Araripe e o dr. Eduardo Ribeiro, este mais comedido nas acusações e aquele desabrido pela derrota verificada duas vezes em menos de um ano! O homenzinho atarracado , capaz das ma.iores felonias, desmentiu tudo quanto a imprensa disse dele, mas sem provas documentais. Ficaria impune para tentar nova arremetida, dada a frouxidão com que foi tratado pelo comandante do 36° Batalhão de Infanteria na primeira rebelião. Preso à ordem do ministro da Guerra, mas contando com a nociva solidariedade do general comandante do 1 ° Distrito Militar, Bento José Fernandes Júnior, no dizer enfatuado dos militantes da desordem "vindo a Manaus com ordens secretas do marechal Floriano", o que seria formalmente desmentido depois. Não conformado com a situação que o deixava desmoralizado perante a opinião pública e os camaradas de farda mais ajuizados, o bando - isto é, os três cabeças da sedição, major Araripe, capitão José Araripe e tenente Cláudio Lima - propos-se renovar o tentame, desta vez acobertado pelo Partido Nacional em que se escudavam dr. Constantino Nery, dr. José Nery, dr. Jônatas Pedrosa (médico), cônego Amâncio de Miranda(7), dr. Domingos Teófilo de Carvalho Leal, alferes Adolfo Guilherme de Miranda Lisboa e dr. Américo Vitrúvio de Campos. A entrada de elementos cimeiros do Partido Nacional nessa desavença tinha sua razão de ser (para o pa.rtido, naturalmente) numa série de fatos que poderiam atingir algumas organizaçôes religiosas e politicas. Desde o governo do tenente Ximeno de Villeroy o Estado desvinculou-se da Igreja e logo depois Eduardo Ribeiro reformava a educação, privando certas escolas patticulares de generosas somas a título de subvenções. Dois dos representantes desses organismos sofreram com as medidas salutares trazidas pela República: o cônego Amâncio de Miranda e o dr. Jônatas Pedrosa, este diretor e
proprietário do Ateneu Amazonense, o colégio destinado a acoitar os soldados rebeldes na primeira revolu~ão abortada. Esses dois homens, mancomunados com o dr. Constantino Nery, que era secretário do general-de-brigada graduado Bento José Fernandes Júnior, foram os principais instrumentos do Partido Nacional numa segunda e ma.is sangrenta tentativa de depor o governador dr. Eduardo Ribeiro. A história oficial dessa bernarda é longa, enche um livro de trezentas e dezenove páginas, mas o fato é que o Partido Naciona.l negaria oficialmente qualquer ingerência nos conflitos de rua, na idéia de compelir o governo a abdicar. Depois da derrota, todo mundo se apresenta na figura de mártir e de inocente. Quem arrastou com a responsabilidade, até chacotas obrigado a engolir, foi o general Bento José Femandes Júnior pela boa-fé com que se bandeou para os dissidentes e inconformados. Comparado com o tumulto de 30 de dezembro de 1892, o mótim de 26 e 27 de fevereira de 1893 foi mais referto de tropelias, de mortes e destruição da fazenda pública, com perigo para a população civil, que abalaria para os bairros afastados do centro citadino. Como se esboçou acima, tomaram parte ostensiva nesse "desagravo" ao Partido Nacional: o major dr. Antônio Constantino Nery, secretário do comando do 1 ° Distrito Militar e do Estado-Maior de primeira classe; os dois Araripe inconformados; cônego dr. Amâncio de Miranda, que ganharia mais tarde uma rua com seu nome no bairro de Constantinópolis (Educandos); o capitâo-de-fragata José Antônio de Oliveira Freitas; general Bento José Femandes Júnior; dr. Agesilau Pereira da Silva; Hilário Francisco Alves; dr. Américo Vitrúvio de Campos; alferes Adolfo Guilherme  de Miranda Lisboa, que mais tarde haveria de ser um grande prefeito de Manaus; e o primeiro-tenente Cláudio da Rocha Lima. E de um lado 0 36° Batalhão de Infanteria e do outro o Batalhão de Segurança (policia militar), muito mais municiado e disposto ao confronto sangrento, como se verá.
Após a primeira sarrafascada de 30 de dezembro de 1892, os ânimos nâo cederam à voz da razâo e da prudência. Os Araripe prosseguiram aliciando parciais e as ondas de boatos inquietavam as famílias. Estourou a revolução no dia 26 de fevereiro, pela manhã, quando foi largamente distribuído na cidade o boletim seguinte, que a muitos deixaria perplexos e a outros intimidados:
                             
Em nome da soberania nacional, a bem da autonomia do povo amazonense, declaramos deposto o governador Eduardo Gonçalves Ribeiro - cuja administração feriu fundamente a liberdade, predicado primeiro da liberdade popular - e o vicegovernador barão de Juruá; e aclamamos o major Antônio Costantino Nery, filho desta ubérrima região, a quem delegamos nossos poderes e com o qual juramos ser solidários, assumindo, inteira, a responsabilidade que nos couber.
Manaus, 26 de fevereiro de 1893
Dr. Américo de Campos
Monsenhor Amâncio de Miranda

Vê-se o sofisma do monsenhor (ou cônego), porque depois da batulheira que sucedeu a esse boletim o padre desapareceu de circulação, isto é, fugiu da frente de combate, passando à retaguarda, à teoria.
Após a circulação desse nocivo boletim e o tumulto provocado no seio da família amazonense, uma chusma de civis postou-se na frente do quartel do 36° de Infanteria a bradar e a aclamar aos gritos os próceres do movimento, inclusive depondo dó comando o tenente-coronel Geógrafo de Castro Silva, e assumiu o comando o tenente Cláudio da Rocha Lima. O bando não se intimidou e, armado de revólveres, visou a pessoa do comandante Geógrafo, que revidou. Foi preso pelo tenente Cláudio Lima e mantido incomunicável! Como se verifica, a situação era de conselho de guerra, desde o início, se o comandante Geógrafo não fosse tí bio. Aos vivas e ameaças, o padre Amâncio de Miranda aclamava o major Antônio Constantino Nery como governador. Parecia mais uma revolução de opereta, não fossem os resultados sangrentos do choque havido depois. De repente, uns pândegos, inconformados com as medidas salutares tomadas pelo governador Eduardo Ribeiro, saíam à rua arrastando os gatos-pingados pagos para gritarem bem alto os nomes dos aclamados "pelo povo". O povo, como sempre o bode expiatório dessas pochades, estava. arrumando a trouxa e abalando para os bairros distantes, aldeia de São Raimundo Nonato, Flores, Cachoeirinha etc.
À tarde, o "eleito" enviou ao governador do Estado o seguinte ofício, conduzido pelo alferes Adolfo Lisboa, ajudante-de-ordens do general Bento Fernandes:

Manaus, 26 de fevereiro de 1893.
Sr. Capitão dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro. Aclamado pelo povo amazonense Presidente deste Estado, sendo vós deposto pelo mesmo povo do cargo de Governador, comunico-vos, para vosso governo, gue fica marcado o prazo de 12 horas, a contar do momento em que este vos for entregue, para retirar vos, com toda a força gue aí tendes
concentrada, do Palácio do Governo, ficando vós desde já responsazilizado pelo derramamento de sangue que porventura possa haver no caso de resistência de vossa parte.
Saúde e fraternidade
Antônio Constantino Nery.

O comentarista anônimo do livro, coronel Francisco Ferreira de Lima Bacuri, um maranhense por todos os pontos digno de se conservar a homenagem que lhe foi prestada com o nome de rua, permite-se a seguinte observação: "Como se compreende facilmente da linguagem do sr. Antônio Constantino Nery, o vulto que na quadra presente mais facilmente se prestou para os manejos políticos de alguns padres e alguns rábulas, estava deposto (grifo do autor da peça) definitivamente o dr. Eduardo Ribeiro".
Realmente, para quem conhece a história daquelas desavenças políticas partidárias não deixa. de ser uma comédia bufa essa atitude do major Constantino Nery Que povo o aclamou e depôs Eduardo Ribeiro? Em que dispositivo constitucional ou meramente cívico se estribava o ambicioso major para assumir o papel de "eleito"? O povo a que aludia (miserável povo! ) era a chusma de valdevinos pagos para bater palmas ao entreato pífio. Seria bastante um tiro disparado ali para que a malta esfarrapada azulasse.
O comandante do 36° por si próprio nomeado, tenente Cláudio Lima, egresso convicto do motim de dezembro de 1892, mandou cerrar as portas do quartel e dispor a tropa em linha na frente, ostensivamente, inclusive as baterias. Daí em diante progrediu a ameaça de transformar a cidade em segunda Tróia com dois fogos programados para a destruição e a morte. O governador Eduardp R.ibeiro não seguia indiferente à arrurnaçâo dos AraripeNery-Lima. Mandou o batalhão de policia ficar de prontidão e não tomou a ofensiva, senâo burocraticamente, dirigindo ofícios ao comandante da flotilha, ao general Bento, ao presidente Floriano, cônsules acreditados em Manaus etc. Ao comandante da flotilha expôs a situação e pediu providência no sentido de manter a situação menos ofensiva. O capitão negou-se a tomar uma atitude oficial, sob a alegação fútil de não possuir homens em número suficiente para operar um desembarque.
Realmente não foi necessário: o batalhâo policial possuía todas as condições bélicas para frustrar um ataque a Palácio. Foram enviados ofícios aos cônsules da França, Itália, Alemanha, Inglaterra, Peru, Colômbia, Bolívia, Portugal, Espanha, do tipo que segue:

CIRCULAR.

Ao sr. Cônsul de...
Estando ameaçada a populaçoo desta capital de derramamento de sangue provocado por alguns oficiais da guarnição federal deste Estado e dispondo este governo de meios sufzcientes para restabelecer a ordem, responsabilizo o sr. general Bento José
FernandesJúnior, comandante do 1.° Distrito Militar, por tudo quanto possa acontecer; o que levo ao vosso conhecimento para os devidos fins.
Saúde e fraternidade
Eduardo G. Ribeiro

O conflito sangrento teve início à boca da noite, quando os guardas da Alfandega(8) e Tesouraria atacaram as forças estaduais postadas na rua Municipal entre as casas dos srs. Braga Alegria e Polack"(9). O leitor moderno ignora essa disposição que vamos reconstituir: a rua Municipal é hoje a avenida Sete de Setembro e o Palácio do Governo ficava no edifício clássico da hoje Prefeitura Municipal. Portanto o local do tiroteio seria justamente entré as ruas atuais da Instalação da Província e avenida Sete de Setembro, mais ou menos, até mesmo a rua da Conceição ou da Matriz, hoje de Lobo dAlmada. Enquanto isso o Palácio do Governo era bombardeado pela artilheria do tenente Cláudio Lima postada à frente do quartel do 36° BI. Houve uma série de ofícios trocados entre o governador do Estado e o comandante da flotilha e entre estes e o general Bento, mas em todos os documentos Eduardo Ribeiro manteve-se firme na disposição de enfrentar as forças federais amotinadas. A questão de quem começou o tiroteio não foi apurada, porém houve da parte dos rebeldes o arrombamento do Depósito Público estadual e danificação do livro de entradas de mercadorias, fato denunciado e apurado pelos peritos nomeados pelo subprefeito da Segurança Pública, cujos autos aparecem no livro de Lima Bacuri citado.
Uma outra divertida situação está no privilégio das forças antagonicas sobre a vitória na luta sustentada de dentro e de fora do Teatro Amazonas em construção. Os militares do 36° BI afirmam que saíram vitoriosos:

Seguiu-se sem interrupção uma luta que durou até às 11 horas do dia, hora em que, havendo-se entrincheirado no teatro em construção no largo de São Sebastião uma força policial de cerca de 40 homens, ordenei gue saíssem para desalojá-las 18 praças, comandadas pelo 1 .° sargento Salustiano, e 8 pelo 2.° sargento Barata, da Segunda bateria, de cuja incumbência desempenharam-se brilhantemente estes inferiores.

A quem cabe a razão do grande feito fratricida? Do relatório que apresentou ao governo o major Ra.imundo Afonso de Carvalho, comandante interino do Batalhã.o de Segurança, extraímos o seguinte tópico:

Uma força de 40 praças sob meu comando, tendo como subalterno o destemido tenente Lucas, que sempre mostrara muita coragem e sangue-frio, embargou os passos ao inimigo, fazendo-o retroceder de diversos pontos onde se achava até o largo do seu Quartel, sendo nesta ocasião repelidos os que se achavam entrincheirados nos alicerces do Teat~n em construção, no largo de Sáo Sebastião, e, assim desbaratados os atacantes, puderam nossas forças avançar até a ruaJoaquim Sarmento, bem próximo ao Quartel do 36.°, onde nos entrincheiramos com o fzm de impedir a passagem para este ponto (...) Pouco antes do meio-dia estava com o inimigo completamente sitiado, deixundo que no auge do desespero, no fogo sem trégua que fazia sobre Palácio e nossas forças, esgotasse a pouca munição que já lbe restava ou viesse a render se pela fome e sede, em virtude das pynvidências postas em prática por este comando... Às 4 1 /2 boras da tarde mandou este comando tocar cessar fogo por ter aparecido em no.rsas linhas, alçando bandeira branca, um parlamentar, enviado pelo cl~efe da flotilhaa de guerra surta neste porto, e de ordem vossa foram suspensas as bostilidades fzcando todavia em seus postos as nossas forfas até a tarde do dia 1.° deste mês, quando seguiram para o Pará o romajor Tristão Sucupira de Alencar Araripe, capitão José de Alencar Araripe e tenente Cláudio da Rocba Lima, principais promotores dos lutuosos acontecimentos que tanto apavoraram a população laboriosa e ordeira desta futurosa cidade.

O comando não deixou claro o número de mortes e ferimentos verificados do lado do 36° rebelde, mas publicou os nomes dos mortos e feridos da parte do Batalhão de Segurança, inclusive outras cenas de combates, em que os soldados do govemo e alguns paisanos se mostraram dignos de menções. A todos esses sauifícios ficariam indiferentes os politicos e militares ambiciosos; mas o govemador dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro não cedeu senão quando o arrependimento e a prudência resolveram baixar a cerviz aos mandatários do çonfronto que haviam subornado a autoridade de um general bem-intencionado mas frouxo de autoridade. A reuriiâo entre os dissidentes teve lugar no consulado francês e o dr. Eduardo Ribeiro teve coragem de ir enfrentar a acrimônia do general Bento. Os outros cônsules convidados ou nâo responderam, ou o fizeram recusando-se ao comparecimento "por falta de garantias", acusando o general Bento. Assim o fizeram o cônsul do Peru, também respondendo pelo consulado da Bolivia e Itália, e o cônsul da Espanha, que por sua vez alegava. falta de segurança, com as forças federais a intimar na rua as pessoas e a revistá-las acintosamente. É fato que ninguém, nem mesmo autoridades consulares desejava. expor-se ao mandato atrabiliário dos Araripe. Até o cônsul da França, muito ligado simpaticamente ao Estado (quase tudo vinha da França àquele tempo), o sr. d'Anthonay(l0), queixar-se-ia daquela situaçã.o de insegurança pública, muito embora o general Bento, em seu artazoado para fugir às responsabilidades, invoque os cônsules estrangeiros como testemunhas das agressões policiais.
A bemarda terminou com o embarque tardio dos Araripe e do general Bento. O presidente Floriano declarou sustentar a legalidade do govemo Gonçalves Ribeiro, apoiar o amigo e camarada de farda e manter no comando do 36° BI ao tenentecoronel Geógrafo de Castro Silva..

Rio, 4 de março 93.
Dr. Eduardo Ribeiro - Governador - Urgentíssimo.
Segundo informações vosso secretário movimento aí feito em meu nome é falso; ainda mesmo que não fôsseis meu amigo eu não concorreria para semelhante abuso.
Todas as providências foram tormadas para garantir vosso governo que é o legalmente constituído. Floriano Peixoto
                                                                 ...

Rio, 4 março, 7,40 m - Comandante 36.° Batalhão tenente-coronel Geógrafo.
Deveis assumir comando guarnição Amazonas, imediatamente; decreto desta data foi dispensado o general Bento Fernandes do comando do 1.° Di.rtrito; coronelJoaquim Manuel Medeiros deverá assumir interinamente esse comando.
Devei.r garantir a ordem nesse Estado sustentando o governo legalmente constituído que é o do dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro.
O major Sucupira, capitão Alencar Araripe devem com a máxima urgência recolher-se Capital Federal
Ministro da Guerra .

Foi a pá de cal nas absurdas pretensões do Partido Nacional, de um lado, do lado da politicalha, e na ambição dos Araripe, do oposto. Depois dessa convulsão, o dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro poderia governar em paz e realizar a grande transformação urbana de Manaus que tinha em mente e dispondo de recursos para fazê-lo. Mas não se pense que o ódio e a ambiçâo ficaram imunes de contágio. Depois do govemo frutífero do dr. Eduardo Ribeiro as coisas recomeçaram na gestão do dr. Fileto Pires Ferreira, contra seu cunhado dr. Guido de Sousa, o chefe de policia mais sanguinário que Manaus já teve depois do célebre Mário Monteiro. Mas isso é outra história... Doloroso para o dr. Eduardo R.ibeiro seria, no entanto, não mais o affaire Fileto Pires Ferreira e, sim, a subida ao poder do seu maior desafeto, o major (agrimensor) Silvério Nery. É em derredor deste que gravitam as atenções, se dobram os salamaleques, investem as homenagens. Silvério Nery procuraria; na sua hora da vingança, distante já daquela funesta journée des dupes, descontinuar a obra em andamento do seu adversário politico.

NOTAS

(3)Ficava no fim da rua de Luís
Antony.

(4)Todo o tempo que durou a
convuIsão, ficaram fiéis ao seu comandante e mais tarde vieram
a sofrer por esse ato honroso.

(5)Cearense, engenheiro
militar, veio para o Amazonas em 1889 ou 90.

(6)Ver Francisco Ferreira de Lima
Bacuri, Estado do Amazonas. Movimentos
revolucionários de 30 de dezembro de 1892 e 26 e 27
de fevereiro de 1893. O autor não se identifica na
publicação, temendo represálias.

(7)Nasceu em Manaus no dia 31 de dezembro de 1848 e faleceu em Belém do Pará a 27 de novembro de 1901.

(8)Trata-se da antiga Alfândega e Correios, um prédio colonial deitado abaixo para no local ser levantado 0 espigão atual
da Fazenda.

(9)A atual casa é um prédio nobre, cuja frontaria esbelta está na esquina da rua da Instalaçâo da Província e avenida Sete
de Setembro.

(10)M. Achylle Arthur Georges
Jacquot d'Anthonay, comerciante e
agente consular, ainda possui descendente em Manaus,
na pessoa da senhora Enriqueta d'Anthonay.


A trajetória de Eduardo Gonçalves Ribeiro - Por MÁRIO YPIRANGA MONTEIRO






 PREFACIO


 O falecimento de Eduardo Ribeiro, ocorrido a 14 de outubro de 1900, num afastado subúrbio de Manaus, em uma casa de sua propriedade e residência, continua e continuará em mistério. (Agnelo Bittencourt)

O governo do Estado do Amazonas salda uma dívida moral para com a figura do dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro ao resgatar-lhe a memória. Era um compromisso que se vinha protelando na base da incúria de uns e da carência de sensibilidade de outros. Muita gente detesta ser coberto pela sombra dos mortos ilustres. E a sombra póstuma do capitão de Estado-Maior de Exército, bacharel em Ciências Físicas e Matemáticas, deputado estadual, inaugurador da República no Amazonas, governador duas vezes, sempre obscurecia a epifania mal-concertada de quantos o sucederam na emulação. Nascido da corajosa iniciativa do governo amazonense, através de sua representação em São Paulo - Secretaria para Promoção do Desenvolvimento -, cuja orientação técnica está a cargo do professor Alfredo Mário Rodrigues Lopes, este documentário tardio se afigurava difícil de ser proeminado por muitas razões que não se discutem aqui, porém que é necessário lembrar apenas uma: a busca de documentos de origem familial, que constitui quase que a petra scandali de todo o fundamento da obra. A dificuldade de situar a biografia do dr. Eduardo Gonçalves R.ibeiro na etapa da juventude pareceu-nos desde logo uma das remoras que só encontraria equivente no mistério de sua morte. Os extremos se tocam. O álbum é falho neste sentido, justamente ali onde seria jubiloso falar da infância do genial administrador, tanto quanto seria piedoso e necessário à História, sine ira et studio, elencar os episódios de sua morte. De qualquer modo, este álbum responde a muitos interrogantes que várias gerações desejariam saber esclarecidos de forma menos untuosa e mais chocante. Estas páginas abrem um ciclo de vida para que nelas se leia a verdade sobre uma administração que não procuramos vestir de elogios nem despojar de seus méritos. É talvez uma revelação excessivamente episódica, marcada por numerosos flagrantes que a muitos autores pareceriam despidos de oporturlldade, porém que aqui apenas constituem membros de um corpo que resultaria mutilado se fossem alijados. É igualmente uma homenagem do historiador amazonense ao administrador que soube aproveitar-se da oportunidade econômica para apressar o desenvolvimento da cidade onde nasci. Do que ele realizou, produto de suas idéias próprias ou de projetos sancionados, faz-se aqui o reconhecimento imorredouro, grava-se a nossa gratitude perpétua.

MÁRIO YPIRANGA MONTEIRO

Livro : "NEGRITUDE E MODERNIDADE"

Manaus, outubro de 1900


                          Casa de Eduardo Ribeiro

CAPÍTULO 1


UM ESTRANGEIRO NA LEGIÃO AMAZÔNICA


 As  duas  últimas décadas do século passado foram particularmente de grande influência nos destinos do Estado do Amazonas. Acontecimentos alicerçados em atividades sociais e econômicas prendiam a atenção e o tempo dos homens responsáveis pela orientação politica e administrativa. da região. Alguns desses acontecimentos traziam como sufrágios a co-participação popular; outros eram menos que, aparentemente, distúrbios de uma classe
de eruditos acampanados na torre do dissídio filosófico. A teimosa e freqüente alforria de escravos negros no Amazonas não obedece a nenhum plano ditado pelas amáveis predisposições dos mandatários oficia.is: talvez se tenha de dizer fosse ela um amplo gesto simpático de negritude, pois que, historicamente, antes das leis manumissivas amazonenses e federais, o rio Madeira notabilizou-se pela libertação iterativa. dos negros. É provável que isso seja uma nota discordante na história mas, na verdade, a economia amazonense nunca suportou um embasamento creditado no conhecido "instrumento oral" dos romanos. A escravidão negra não seria entre nós o recurso apropriado para o desenvolvimento econômico. Havia já a mão-de-obra quase gratuita que era o índio, conhecedor astuto e valente da selva., sabedor milionário das coisas pertinentes a seu meio. Essa a razâo maior por que a escravidão no território amazonense desempenhou papel medíocre, pois o acontecimento possuía seus tribunos exaltados, seus ardentes opositores, suas pugnaces e não pouco atrevidas assembléias defensivas. Não é de admirar, conseqüentemente, que as leis amparadoras do elemento servil houvessem saído privilegiadamente do Amazonas. A década de 80 do século passado inspirou realmente grandes movimentos intelectuais passivos em prol da politica regional e da cultura. Quase todos os benefícios recebidos pelo povo ou são executados nessa década, vindos de ó0 ou 70, ou são infibulados a um processo instaurado entre 80 e 90. Obedecendo a esse critério de impostação dos eventos principais, seria necessário, eqüitativamente, conceder espaço para um alusão ao pensamento humano que ditava. a atividade de que pendiam as leis. Nossa Assembléia Legislativa. tanto quanto a nossa Câmara Municipal eram verdadeiros focos de cerebrações engajadas a serviço da cultura e do progresso da região. Não seria demais salientar aqui o serviço prestado pela maçonaria nesse sujeito. Desde os primórdios, os pedreiros-livres e livres-pensadores se houveram às mãos contra os católicos extremos. As discussões na Assembléia Legislativa Provincial sâo sempre impregnadas de azedume, de objurgatórias entre os elementos dos partidos politicos. Quando a moção é de interesse geral do povo, porém, não se põe dúvida em aprová-la. Desse modo, as mais brilhantes leis de amparo à agricultura, à educação etc. são o resultado da compreensão unitária dos representantes do povo. Portanto alguns dos atos que emergem dessa oficina do pensamento, se não foram obj etos de pronta execução na década de
80, o foram na de 90. De passagem, daremos alguns exemplos do que ocorria: os projetos para a instalação de água encanada, luz elétrica, veículos motorizados ou tirados a animais, o Teatro Amazonas, aterros de igarapés, calçamento de ruas, instalação de serviços federais e regionais, apoio financeiro a invenções e à indústria, ajuda a estudantes pobres; um mundo de conquistas deve-se a essas duas décadas, mas não se deve admitir que apenas a elas. Já foram mencionadas acima as décadas de 60 e 70, mas supomos que elas não tenham sido ainda o verdadeiro fulcro do progresso amazonense, muito embora a biblioteca e o jornal se situem na década de 50. Isto posto, o homem amazônico começa a situar-se entre o espanto e a comodidade numa época em que, em outras províncias e em muitos países do mundo, a sociedade escravocrata não usufruía as mesmas comodidades que nós outros em Manaus.
É duvidoso que houvesse tido algo parecido com um "pogrom" contra os negros na Amazônia Ocidental, excetuando-se casos isolados de hostilidades pessoais. O gozo imediato de cidadania com ascensão reta para liderança está incluído na determinante social que nos apresenta homens da envergadura de Lima Bacuri, Eduardo Gonçalves Ribeiro, Raul de Azevedo e Esmeraldo Coelho, muito embora de origens diferentes. A terra acenava, com sua riqueza esbanjada - a "Golconda" de que nos fala Agnelo Bittencourt -, a todos os quadrantes do Brasil e os homens para ela corriam. Foi assim que tivemos gente dos mais remotos sertões do mundo - da China; Japão, Tirol, Alsácia, Grécia, Barbados, Calábria, França, Estados Unidos, Rússia, Arábia, Egito, Marrocos - e brasileiros em quantidade pronunciada, do norte ao sul. E toda essa gente deixou alguma coisa de seu, quando não fosse um pensamento criador era a força do braço construtór. Não prazia, portanto, ao amazonense a aquisição de negros escravos por duas razões simples: preço elevado das peças e concorrência habitual do índio e do caboco. Esse plantel social deve de haver elevado de muito o nível da sociedade amazonense da época e determinado uma triagem no pigmento selecionado pela avidez da terra. A razão essencial do nosso pensamento é que, olhando-se hoje essa sociedade, percebe-se a raridade da mancha escura na família. Principalmente no interior do Estado e, muito particularmente, nos rios Juruá e Purus, onde predomina a cor clara européia. Os elementos de cor presentes em nossa sociedade são oriundos do Maranhão e do Nordeste, principalmente Alagoas e Sergipe.
A década de 80 expirara com duas brilhantes apoteoses: a libertação dos escravos no Amazonas e a vigência da República, República que foi, no rol das coisas, uma dolorosa experiência para nós. A filosofia comtista não nos aproveitou: passamos de povo autônomo, social e economicamente, a enteados do governo federal, que explorou quanto pôde nossas possibilidades. É um fato constatado: se o povo não se dava conta de que o regime monárquico exigia subordinação à autoridade dos ministérios, na fase republicana essas exigências passaram à drasticidade. Que perdíamos a autonomia diante da voracidade de grupos políticos nacionais é fato consumado. Imagine-se uma República feita da noite para o dia, uma República que começava. por impor ao Amazonas e demais Estados (nessa conjuntura, as Províncias passaram a nomear-se Estados) um governador não escolhido nem apontado pelo Partido Republicano Amazonense. Contudo, o militar positivista dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro não é um produto da conspiração democrata da Província com o Estado. Não teve nenhuma atuação na preparação do ambiente republicano no Amazonas. Nâo teve de exaltar-se como indivíduos da espécie do dr. Dómingos Teófilo de Carvalho Leal, o dr. Almino Álvares Affonso, próceres que estiveram barbeando a monarquia, que fizeram oposição ao conde d'Eu e hostilizaram, sistematicamente, o governo imperial. Observe-se também que durante o regime reinol e imperial não houve perturbação interna que tivesse por objetivo a sórdida ambição politica. Quem desejar fazer a história dessas perturbações pode apelar para três movimentos: o motim por falta de troco, em Manaus; o levante de 1832, em Manaus; e a sangrenta guerra da Cabanagem, que seria um movimento envolvente partido do Nordeste. Salvo a Cabanagem, que foi uma espécie de "fronda", com as hordas comunistas de lenço vermelho ao pescoço e o simbolo fraterno das duas mãos cruzadas, em cocar, no chapéu, os demais tiveram limitado campo de ação. Entretanto, a República, com sua apologia da liberdade, criou situações vexatórias para o povo de Manaus, situações determinadas pela ambição de poder, com vistas nas arcas do Tesouro público. E quem criava essas situações eram os militares que traziam fórmulas novas de governo.
O dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro não foi um produto primeiro da experiência provincial amazonense. Incorporado ao Exército quando deixou a Escola Politécnica, foi lotado no 3 ° Batalhão de Artilharia-a-Pé sediado em Manaus e onde servira o coronel Floriano Peixoto. É certo não haver tomado parte nas campanhas pró-abolição dos negros, apesar de suas origens mulatas, e nem parece haver sido desde logo um fervoroso adepto da República. Talvez por prudência deixou-se ficar numa situação de expectativa. O professor Agnelo Bittencourt, na curta biografia do Pensador, afirma ver uma foto no Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, em que aparece o dr. Eduardo Ribeiro no grupo que cerca o conde d'Eu. O que nos ocorre confirmar é que o dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro não fosse de todo infenso às idéias republicanas, e sua participação nesse grupo só pode justificar um fato: representava alguma patente militar. Entretanto, não consta que levasse muito a rigor os preceitos de Benjamim Constant.
Alcançando Manaus em obediência a ordens superiores, em 1887, em 1889 deve de haver visto e sabido a manifestação que os próceres republicanos fizeram em Manaus contra a pessoa do conde d'Eu, obrigando este a permanecer esquivado, praticamente detido no navio que o conduzia em visita a Tabatinga. Aqui deveria caber uma nota: o povo de Amazonas estava de amuos com o imperador dom Pedro II por sua falta de ética quando passou por Belém rumo aos Estados Unidos. Um imperador que deixava. de visitar a Província que ma.is distante ficava nâo merecia, na consciência do povo, consideração alguma. E, principalmente, enviando um representante estrangeiro. Já se disse bastante desses amuos: o povo de Manaus nunca tolerou dom Pedro I por causa da questão do não-reconhecimento da Província do Amazonas. Nunca lhe dedicou um logradouro, nem o mais escuro e sujo beco. Por isso a falta de habilidade de dom Pedro II serviria de pá de terra na monarquia.
Imagina-se que o dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro haja sido um homem de vontade de ferro, capaz de tomar grandes resoluções, um pensador a seu modo, mas de qualquer maneira possuía a cabeça dos matemáticos: dura de roer. Bacharel em Ciências Matemáticas, como se titulava nos atos oficia.is, chegou a ser nomeado professor da Escola Superior de Guerra, no Rio de Janeiro, mas nunca exerceu a cátedra, apesar de haver tomado posse dela em 1890, no governo do marechal Deodoro. Que justificativa encontramos para a recusa do matemático em exercer as funções? Ou a nomeação foi apenas um prêmio, uma nota honorifíca? Talvez influência de seu amigo capitão do Exército Augusto Ximeno de Villeroy Foi este quem deu a chance para o dr. Eduardo Ribeiro ascender na politica. Isso nos leva. a conjeturar haver o Pensador optado pela politica e a admnistração civil, opção que lhe causaria desgastes morais e, consoante certas opiniões antigas, teria apressado a velha disposiçâo para a fraqueza mental. De qualquer modo, o dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro era misantropo e sua personalidade só pode ser comparada ao do colega de armas tenente dr. Fileto Pires Ferreira, um homem dinâmico mas sabidamente reservado. Seja por isso sua vocação para o celibato? Dr. Eduardo Ribeiro não se casou, mas vivia com uma senhora com quem teve um filho muito nomeado na crônica dos jornais da oposição e a quem ele, dr. Eduardo Ribeiro, fazia de herdeiro universal. Essa disposição testamentária levava os irritados opositores à crença de que o governador acumulara riquezas a fim de deixar o filho em situação independente. Desse filho nunca ma.is se soube notícia, mas uma versão da época o localiza primeiro em Minas Gerais, depois no Rio de Janeiro, para onde se mandaram os homens da privança do governador: coronel Afonso de Carvalho, dr. Manuel Uchoa Rodrigues e outros.
Como já foi dito, o dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro não foi um produto da experiência provincial, como talvez Floriano Peixoto, o capitão-de-mare-guerra Nuno Alves Pereira de Melo Cardoso, dr. Leovegildo de Sousa Coelho, gente que praticamente conviveu com a população na época em que o Amazonas escapava da suserania do Pará. Republicano como a grande maioria dos cadetes, talvez mais afeiçoado à filosofia comtiana e constantina do que muitos outros de sua idade, foi ele quem inaugurou no Amazonas o conceito de cidadania, conceito que nivelava as classes todas respeitosamente. Qualquer sujeito, por mais pobre e rebaixado socialmente que fosse, era o cidadão. Esse conceito não é somente um requisito da forma "res publica", mas um tuteamento capaz de equilibrar as desvantagens de ser-se carroceiro, calceteiro, boleeiro etc. ou doutor em medicina, engenheiro etc. Logo mais a forma que aparece nos atos oficiais é extirpada da preocupação dos governantes e volta-se ao "sr. fulano" etc. O respeito que o dr. Eduardo Gonçalves R.ibeiro (ou o Estado republicano) guardava pelo cidadão está muito bem representado em sua escolha dos assessores. Quando a gente passa em revista os nomes desses secretários compréende, perfeitamente, por que a máquina administrativa andava regularmente e com precisâo absoluta, precisão militar. Os papéis do governo e do interesse coletivo não dormiam nas gavetas, não se procrastinava nos despachos.
Tudo corria como se o governo tivesse pressa em concluir no menor tempo possível a quantidade de obras atacadas aqui e ali. Essa é uma das boas qualidades da administração ribeirina, exemplo que deveriam ter presente os modernos administradores que deixam os papéis do povo para o dia 31 de fevereiro...
 Não tomou parte nas campanhas pró manumissão dos negros escravos nem a formaçâo da consciência republicana. Contudo, diz o professor historiador dr. Arthur Cézar Ferreira Reis, sua vinda para a Amazônia foi em decorrência de aplicaçâo de pena militar, "dadas as suas demonstrações pela República". Não me parece que a simpatia pela forma republicana (extensiva e intensiva. no Exército da época) fosse suficiente razão para o que, naquele tempo, e qui~á ainda hoje, se considera pena severa o desterro para a Amazônia. Deve de haver sido algo mais discriminante, que não chegou a ser divulgado. Tanto que o apenado deixou-se
comodamente ficar em Belém do Pará a curtir o efeito do castigo e, somente em agosto de 1887, é que se desloca para Manaus. As situações nâo conferem: nâo foi sua vinda para a Amazônia, já no posto de tenente, condicionada a alguma indisciplina, pois que havia sido lotado no 3° Batalhâo de Artilharia-a-Pé sediado em Manaus. Existe, portanto, um certo qüiproquó nessa situação do militar que não se conseguiu ainda deslindar. O certo, porém, é que foi um elemento de ocasião na política amazonense, um elemento que, à primeira vista, parecia destinado a provocar distúrbios entre os partidos majoritários: o Democrático, que tinha por órgâo oficial o jornal O Amazonas, e o partido oposicionista Nacional, este chefiado e organizado pelo velho político Ferreira Pena e o primeiro com a ajuda do próprio dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro. Como se vê, a caldeira começou a ferver de novo no Amazonas e ferveria de maneira assaz tumultuosa. Nela se envolvia Eduardo Ribeiro provocando a acrimônia de uns e o aplauso de muitos. A situação chegou a formar um caos, pedindo a intervenção imediata do governo central. Parece que a República instaurada sem uma visão dos confrontos de interesses partidários ameaçava ruir com tanta indisciplina reinando na administração, com o próprio Deodoro a dançar na corda bamba. O militarismo que se implantou no Brasil teve sempre a repulsa das camadas civis e Rui Barbosa não deixaria de escrever um panfleto contra essa tendência.
O Partido Democrático (republicano), instalado em Manaus a 27 de julho de 1890 e chefiado pelo dr. Domingos Teófilo de Carvalho Leal, tinha sua sede na rua de José Clemente (praça de Sâo Sebastião) e seu dirigente era o mais ferrenho adversário do Império. Ambicioso e atrabiliário, inimistou-se logo com a camada social de Manaus, à altura de 1889, quando fez parte do triunvirato que sucedeu ao presidente provincial dr. Manuel Francisco Machado. O tumulto provocado pelas decisôes oposicionistas do chefe do partido acabou por liquidar as pretensões daquela gente que entrava na República falando alto de democracia e arregaçando as mangas para o pugilato. No entanto, a verdadeira manifestação democrática republicana estava na voz do professor de primeiras letras Bento Aranha, que, em toda parte e cerca de vinte anos antes, já diminuía o Império, atacando-o em todas as frentes, no jornal e na tribuna. Nada conseguiu com a implantação da República, enquanto os oportunistas, os republicanos de última hora (monárquicos ontem), faziam-se nos cargos públicos. Acreditamos que somente três indivíduos daquela plêiade de políticos batalhadores tinham realmente vocaçâo republicana: Bento Aranha, Carvalho Leal e Almino Affonso, porque possuíam voz nos comícios e nas ocasiões oportunas, mas também sabiam enfrentar o militarismo, principalmente quando da gestâo do coronel (depois marechal) Taumaturgo de Azevedo.
Uma vez fincado o pé no estribo, o dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro não mais desistiria de governar. Como militar e engenheiro, enfrentou as sedições que o desejavam longe da curul governamental. Teve sorte em encontrar apoio numa atmosfera de desconfiança e de traição, ele próprio considerado proditor pela história dos acontecimentos de 1898. A existência do dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro, como político, deixa oportunidade para sev~. ~as críticas, lugares abertos às reivindicações da verdade. Não se trata da vida do administrador, que essa, apesar de curta, curtíssima, foi brilhante. Pudesse aquele homem de tino e de caráter férreo governar mais oito anos e estaríamos hoje em condições de usufruir de mais prestígio entre os povos civilizados. O que desejamos concluir é que, salvo alguma predisposiçâo para o exagero, Eduardo Ribeiro traçava os planos que executava realmente. Para isso cercou-se de uma equipe de infatigáveis homens de talento, engenheiros, burocratas, que o ajudavam a manter o ritmo dos negócios administrativos. Mas, em contrapartida, estiveram a seu lado igualmente os profissionais da politicagem desenfreada, aqueles que pululavam no Clube Republicano, adventícios muitos deles e outros já celebrizados em falcatruas eleitoreiras, como os irmãos Moreira (Guilherme, Emílio e José), qüe o povo dizia formar o "Partido dos Moreiras". O fato é que o dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro não deixou de pisar na veste talar da Justiça nem de tripudiar sobre os direitos do povo. Uma espécie de consciência dupla: agia como homem de espada e como alcaide de obras. O primeiro grande ato público de sua administração
provisória foi a reforma da Constituição do Estado. Ora, atualmente quantos indivíduos não reformaram a nossa pobre Constituição para adaptá-la a seus interesses particulares? Acho que Eduardo Ribeiro está redimido desse ato atrabiliário a que se sucederam muitos outros durante sua curta administração. Mas para que a reforma da Constituição? Que interesse havia em produzir um novo estatuto político? Sem discriminações, a resposta deve de estar no artigo 155 , último, nas disposições transitórias. Esses acréscimos dizem respeito ao patrono político-filosófico do Exército Benjamim Constant - e ao próprio Eduardo Ribeiro, assim redigidos:

Aríigo l55 ° - Para perpetuar em todos os tempos a gratidão profunda do povo Amazonense ao benemérito cidadão Benjamim Constant, fica consignado nesta Constituição um voto de admiração e respeito à memória do eminente patrício, o Fundador da República dos Estados Unidos do Brasil.

E logo em seguida:

Disposições Transitórias Artigo 1 .° - O período governamental ocupado pelo Governador Dr. Eduardo Gonçalves Ribezro e Vice-governador Coronel Guilherme José Moreira (Barão de Juruá) terminará guatro anos depois da promulgação desta Constituição. Artigo 2.° - O mandato dos atuais Representantes terminará a 31 de dezembro de 1894.

Basta para o serviço da crítica os dois artigos supra. Imagine-se o grande Eduardo Ribeiro legislando em causa própria, ou seja, amparando sua continuidade na Constituição por ele reformada. É um golpe de mestre, mas isso não seria novidade no Brasil, nem mesmo nestes últimos cinqüenta anos de Repúblicas Nova e Velha. A malandragem política cerrava. uma porta e abria outra mais larga à evasão dos interesses partidários. Imagine-se Eduardo Ribeiro sem raízes na terra e sem nenhuma experiência do caudal de conflitos pessoais e gerais que a antiga província jorrava no âmbito inexperiente da jovem República, tendo ao lado um vice que procedia justamente daquele caudal. Na verdade, o dr. Eduardo Ribeiro não governou com seu partido, mas também nâo deu muita chance aos veteranos da terra, como Bento Aranha, que morreu quase esquecido, pelo menos esquecido de seus antigos correligionários. Mas não se deslembrou de convidar o erudito coronel Bernardo Ramos, um dos últimos abencerragens do monarquismo. Essa forma de contemporização, um tipo de filosofia útil aos interesses do Estado, eletismo político que agradou, confere a Eduardo Ribeiro o mérito de ser astuto e prudente, no início de sua arrancada. Os adversários do Partido Nacional não o perdoavam, nunca o perdoaram e foram muitos os que tentaram denegrir sua obra, maculando a pena nas infâmias e injúrias assacadas na imprensa diária. Nós outros não duvidamos em reproduzir certas histórias vertentes nas páginas dos jornais da oposiçâo. Algumas delas possuem hálitos de verdade, como a de haver dotado o filho único com capital extraído das aras públicas. O fato de o dr. Eduardo Ribeiro morrer sem posses não exclui a possibilidade de haver deixado ao filho o suficiente para enfrentar a vida futura. Um governante que não possui família constituída legalmente e aparentemente habita sozinho uma mansão ou duas (no caso dele), dispondo portanto de facilidades que um simples vice-governador não usufruía, deveria amealhar réditos sem tamariho. Até aí o sentido de honestidade que lhe dão Arthur Reis e Agnelo Bittencourt, seus principais biógrafos, o último com maiores aportes, sem crítica analítica. Supomos que os jornais oposicionistas não tivessem razão para melindrar a pessoa humana do ilustre homem. Essas estroinices não são produto da ociosa capacidade do povo, não são. Representam o tributo de uma época de expansão econômica e de facilidades políticas. Por isso não é de admirar que o dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro possuísse duas moradas, uma na cidade, à rua de José Clemente Pereira, e a outra, a mansão ou retiro, também chamada Vila Pensador, na estrada antiga de Epaminondas, hoje de Torquato Tapajós.
                  
Acontecimento político de extraordinário sucesso foi o reconhecimento, pelo Congresso Amazonense, no dia 9 de julho de 1986, dos candidatos dr. Fileto Pires Ferreira para governador do Estado e do coronel José Cardoso Ramalho Júnior para vice governador. Não gue estes dois nomes sugerissem algo especial no cenário da cultura, mas porque ambos viriam a ser pivô da mais curiosa farsa que a história política do Brasil já registrou nos seus anais: o primeiro como vítima de uma renúncia forjada pelos governos estadual e federal e o segundo como autor ou co-autor do ilícito de que foi mandatário e autor intelectual do probo dr. Eduardo Ribeiro, o homem das apregoadas e nunca esguecidas honestidades, que tem sido reverenciado como padráo de trabalho e de ilibada moral. O homem que, com o estampido de um foguetão lançado às dez horas da manhá, antecipou de duas horas o meio-dia, a fim de consumar a farsa que entregara o poder nas mãos do seu pupilo dr. Fileto Pires Ferreira. Estranha história de estranhos resultados(1):

Geralmente se conta esse episódio de outro modo, mas os resultados foram os mesmos. A verdade, porém, é que o Congresso Amazonense costumava reunir-se às 12 em ponto, hora oficial assinalada por um foguete manipulado pelo Serviço Meteorológico do Estado. Não havia ligaçãó nenhuma entre aquele.serviço e o Congresso Amazonense. Mas no dia 9 de julho de 1986 toda Manaus surpreendeu-se com o estranho acontecimento! Eram apenas 10 horas da manhã e o foguete assinalava meio-dia. Uma das poucas pessoas sobreviventes daquela época em 1940 era o senhor Zeferino Rocha, funcionário competente da Manaus Harbour, mas naquela altura empregado do mesmo serviço meteorológico. Ele e o engenheiro Paiva e Melo gostavam de referir para minha curiosidade de historiador as façanhas dos políticos do Amazonas, pois o engenheiro fora também ele uma das vítimas quando da concessão dos serviços telefônicos para o grego Jaramillo. O curioso é que o mesmo autor e mandatário da farsa seria igualmente o homem que empurraria o camarada de farda escada abaixo pelo simples fato de o dr. Fileto Pires Ferreira haver traído a confiança política qwe nele depositara dr. Eduardo Ribeiro. De posse do poder, dr. Fileto Pires Ferreira passou a aceitar dr. Campos Sales e chegou a fazer declarações comprometedoras à imprensa de Paris (2).Ora, naquele tempo era mais provável saber-se de imediato um acontecimento verificado na
Europa do que no Rio de Janeiro. Em Paris estava o irmão do político dr. Silvério José Nery, o famoso e erudito barão de Santa-Anna Nery, e na França o representante Alexandre d'Atri. Num ápice, as comprometedoras observa~ões do dr. Fileto passaram ao telégrafo de Belém do Pará e não demorou muito alcançarem Manaus. Quando estourou a notícia de que seu pupilo estava ameaçando aceitar a politica de Campos Sales, o recurso era alijar o pupilo do poder, por inconveniente. O Congresso Foguetão (por que passara a ser conhecido depois daquela farsa) aceitou um papel com a assinatura formal do dr. Fileto Pires Ferreira que dizia o seguinte:

RENÚNCIA

Cidadão Presidente e mais Membros do Congresso Amazonense.
Paris, 27 de Jünho de 1898.

Saúdo-vos, apresentando-vos os mais sinceros e cordiais protestos de meu acatamento e respeito para convosco.
Cumprindo o preceito constitucional venho trazer vos hoje a renúncia do cargo que exerço nesse Estado, do qual sois dignos representantes, por não me ser possível por motivos de ordem superior continuar a exercê-lo.
Vós melhor do que ninguém sabeis que aceitei essa delegação do povo amazonense depois de reiterados pedidos de todos os nossos amigos; delegação, repito, que por mim jamais foi ambicionada e que hoje não o é.
Discípulo de Benjamim Constant, inspirado nos seus ensinamentos é convicção minha que a tolerância e a transigência deviam ser sempre as qualidades de um homem público.
Fiz tudo o que as minhas forças comportaram e não me acusa a consciência de me haver afastado da linha que propus-me seguir. Tomando esta resolução sugerida pelos ditames de meus sentimentos, determinada pelo império das circunstâncias deixo bem patente aos meus concidadãos que dos cargos que na política ocupei apenas me prendam a vontade e o desejo de por intermédio deles ser útil ao meu país. Crente de que o digno povo amazonense saberá fazer me justiça, envio-lhe as expressões dos mais ardentes votos que faço pela
prosperidade e engrandecimento que lhe asseguram as suas riquezas e o patriotismo acrisolado dos seus filhos.
Saúde e fraternidade.
Fileto Pires Ferréira.

Com efeito, o homem que redigia um papelucho mal-escrito, depois de aceitar os cambalachos políticos que o elevaram, não iria baixar à terra e confessar-se inibido para as funções. Está patente a atrevida poluição moral da congérie que preparou a farsa. Dr. Fileto Pires Ferreira reagiria a tão insólito gracejo:

Recordo-me de haver deixado nas mãos do senhor Eduardo Ribeiro uma folha em branco com a minha firma, ainda quando eu me encontrava na capital federal, com o escopo de defender a sua primeira eleição. Ele deveria apresentar aquela carta acompanhada de uma reclamação a propósito de antiguidade militar. Mas o documento não foi apresentado, enquanto que a folha com a minha firma ficou sempre em seu poder, conquanto ele me havia prometido várias vezes restituir-ma.

Nâo seria necessário um artifício desse tipo. A assinatura do dr. Fileto Pires Ferreira andava em documentos oficiais. Atribuem os políticos do passado, firmados em devassa, ao cidadão Aristides Emídio Baima a autoria do ilícito, mas fica sempre flutuando a responsabilidade autoral do coronel Ramalho Júnior e do dr. Eduardo Ribeiro. Presentémente, confiou-me o historiador dr. Arthur Cézar Ferreira Reis possuir um documento que lhe foi dado pelo coronel Ramalho Júnior e no qual fica este eximido da grande responsabilidade histórica. Esse tópico não diz respeito às manobras políticas que envolveram os nomes dos três grandes, por isso não nos estendemos mais em considerações a respeito do "caso Fileto Pires", um dos maiores, se não o maior, escândalos da administração na República e do qual participou o governo federal como interessado direto.
Seria lógico argumentar, pelos fatos acima, que a intolerância politica do governo estadual atingisse profundamente o caráter do homem Eduardo Ribeiro? Ou devemos separar o evento politico da armadura moral do homem que realmente se constituiu um padrão de atividade dinâmica em benefício da cidade de Manaus?
Considerando-se certos fatos ligados à administração Eduardo Ribeiro e sua formação ética (o militar nunca tomou decisões extremas), chegase à conclusão de que o absconso homem que nâo aparecia freqüentemente nem mesmo no teatro que construíra à custa de esforço e em tão pouco tempo pecava pelo ensimesmamento, pela talvez muito notada egolatria. As fotos do homem, em trajes civis normalmente e em militar raras vezes, mostramno carrancudo, sobrancelhas carregadas, bigodes de guias empinadas, o biótipo do coronel (da Guarda Nacional) Ramalho Júnior, embora os temperamentos diferissem grandemente. Eduardo Ribeiro, homem culto, reservado, trazia a verônica enfeitada apenas pelo bigode. Calvo e redondo. Creio que a qualquer pessoa não escapam os olhos amortecidos de doente. Sabemos pelas notícias divulgadas pelos jomais de Manaus haver contraído a terrível moléstia que assolava a região, o paludismo ou febre palustre. Essa doença o levaria à Europa. Relata uma boa revista italiana, L' Amazzonia, bem informada a respeito das coisas da Amazônia Ocidental, a presença do político no velho continente, mas quando ocupava, a presidência do Congresso Amazonense, em outubro de 1900:

Eduardo Ribeiro
Completamente ristabilito, col/ Rio Amazonas fece ritorno a Manaos l'illustre nostro amico Dr. Eduardo Ribeiro, Presidente del Congresso dello Stato dellAmazonas. Sua Eccellenza - chè a Pará fu affettuosamente visitado dal Governatore di quello Stato e a Manaos accolto dalle autorità tutte e da numerosa folla - riprenderà subito il suo altissimo ufficio. Le nostre vive felicitazioni.

O dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro viajou com licença do Congresso de Representantes a tratamento da saúde abala.da, mas não se pode acolher uma notícia desse feitio sem uma especulação: o tempo concedido ao presidente do Congresso era muito exíguo para o tratamento de moléstia daquela espécie, para a qual, apesar de todos os remédios nacionais, regionais e europeus, nâo havia ainda solução. É de suspeitar essa brevidade, parecendo mais uma desculpa para desorientar possíveis manobras politicas. Toda vez que ele e dr. Fileto se ausentaram
do governo ficava o terceiro homem, o coronel Ramalho, que também foi à Europa semostrar-se, escandalizar o mundo europeu com suas nababescas orgias. Mas com o dr. Eduardo Ribeiro não acontecia esse desregramento. O homem era de qualquer modo retraído, sóbrio, casmurro, irritável. Fechado como uma ostra, mas dono de uma habilidade infernal para fazer distrair os outros a sua custa ou à custa do erário público, embora essas despesas não fossem incluídas nos balancetes do Tesouro. Arrumava.-se a casa todas as vezes que um eleito ocupava o trono. A primeira coisa a dizer (e parece que o andor não mudou até hoje) era que as finanças do Estado andavam seguras, controladas pela severa distribuição das rendas, e os dinheiros haviam crescido pela boa administração. Isso não impedia que o dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro entregasse o governo com um débito assustador, que o pupilo dr. Fileto Pires Ferreira escondia sob a alegação costumeira. É o que ele proclama em sua mensagem de 1898, é o que estimavam todos os outros. Só depois que ascendem ao poder os Nery é que a cantiga muda de tom, com o interesse em solapar o brilhantismo das obras dos antecessores, visto que depois de Eduardo Ribeiro seriam raras as obras de vulto levadas a cabo em Manaus, muito embora a goma elástica ainda sustentasse o prestígio econômico da regiâo até mais ou menos 1909. Ao contrário, o que fez o primeiro Nery da oligarquia foi seguir o exemplo do coronel Ramalho: deitar abaixo as paredes do majestoso Palácio do Governo sob a alegação de que estavam defeituosas e ameaçavam ruir. Aliás, o autor da primeira "encampação" das obras foi o coronel Ramalho, que mandou dinamitar o prédio, deixando-o somente numa meia altura. Nery fez o resto sob a justificativa de mandar erguer um palácio menos suntuoso e mais seguro. A idéia não passou da planta, desse palácio e do Palácio do Congresso.



NOTAS

(1)Mário Ypiranga, teatro Amazonas,VI,p.198, 165-6) .

(2)Idem, v.II, p.390. existem notícias estampadas nos jornais de Manaus sobre a traficância do tenente dr.Fileto Pires Ferreira, registrando-se noutra paróquia a fim de aumentar a idade e atender a exigência da candidatura governamental



segunda-feira, 16 de maio de 2016

AVENIDA EDUARDO RIBEIRO:O ESPÍRITO SANTO



O  centro histórico de Manaus foi o resultado do aterro de vários igarapés. "Espirito Santo" era o Igarapé que deu lugar a Avenida Eduardo Ribeiro. Em época de grandes cheias, como em 1953 e 2012, o Espirito Santo reclama o velho leito canalizado e ocultado por galerias embaixo da Avenida. Segundo os livros que falam da história da cidade, esse igarapé se estendia até a altura do Edifício Cidade de Manaus, que em certa ocasião, teve inundado o estacionamento do prédio, alagado pelas galerias da Avenida Eduardo Ribeiro,que transbordam em grande chuvas e cheias do Rio Negro.
Como a cidade foi muito documentada em fotografias, postais, foi possível demonstrar como e onde era o Igarapé do Espírito Santo, e o alagamento, a cheia de 2012. 
Ao som de Danúbio Azul, uma homenagem póstuma ao Igarapé sacrificado em nome da modernidade e do progresso...

BREVE HISTÓRIA DA ZONA FRANCA



Ainda há muito que escrever sobre as origens e o desenvolvimento, atavismo dos momentos de riqueza e exploração humana. As contradições políticas e o desenvolvimento desordenado de uma cidade que foi invadida por milhares de migrantes em busca de uma vida melhor.

Eis um exemplo sobre o período da borracha, a construção do Teatro Amazonas sobre um Cemitério indígena, no livro de Eric Hobsbawn, A ERA DOS IMPÉRIOS:

HOBSBAWN, Eric
A ERA DOS IMPÉRIOS – 1875-1914

“Mas se o progresso era tão poderoso, tão universal e- tão desejável, como explicar essa relutância em acolhê-lo ou mesmo em participar dele? Seria simplesmente o peso morto do passado que gradual, desigual  porém inevitavelmente seria tirado dos ombros daquelas parcelas da humanidade que ainda se dobravam sob seu peso? Em breve não seria erguida uma ópera, aquela catedral característica da cultura burguesa, em Manaus, mil e seiscentos  quilômetros acima da foz do Amazonas, no meio da floresta equatorial primitiva, com os lucros do boom da borracha, cujas vítimas indígenas sequer teriam, lamentavelmente, oportunidade de apreciar II Trovatore? Grupos de paladinos dos novos hábitos já não estavam ã frente dos destinos de seus países, como os chamados científicos no México, ou se preparando para isso, como a também significativamente chamado Comitê para a União e o Progresso (mais conhecido como Jovens Turcos) no Império Otomano? “

 CAPÍTULO 1
A REVOLUÇÃO CENTENÁRIA
Página 17,18


“A economia da Era dos Impérios foi aquela em que Baku (no Azerbaijão) e a bacia do Donets (na Ucrânia) foram integradas à geografia industrial, ao passo que a Europa exportava tanto bens como moças a cidades novas como Johanesburgo e Buenos Aires, e aquela em que teatros de ópera foram erguidos sobre os ossos de índios mortos em cidades nascidas do boom da borracha a 1600 quilômetros rio acima da foz do Amazonas.”
CAPÍTULO 2
UMA ECONOMIA MUDANDO DE MARCHA  (página35)

Livro:
PDL – Projeto Democratização da Leitura (PDF)