segunda-feira, 23 de maio de 2016

A trajetória de Eduardo Gonçalves Ribeiro V - MÁRIO YPIRANGA MONTEIRO


CAPÍTULO 5

DO MUNDO NADA SE LEVA



Não elegemos o governo Silvério Nery como 0 mais visado pelas diatribes da imprensa. Parece-nos que até foi mais bem-sucedido quanto ao acervo de elogios. No entanto, foi nesse governo que vieram à tona acusações fundadas ou não sobre desmandos financeiros de Eduardo Ribeiro, Rui Barbosa, Serzedelo Correa e outros mais, menores em projeção politica. A que se deve essa campanha difamatória ou justa ao coronel Ramalho Júnior, ao dr. Pedro Freire... ? Certo que muita gente saída às carreiras de Manaus, de medo do chicote ou da ameaça de morte, teria motivos para desencadear mofinas e agressões contra governos e outras autoridades. Isso
sempre foi uma constante nas administrações. Todavia, o affaire Eduardo Ribeiro-Rui Barbosa, ou Serzedelo Correa-Rui Barbosa, originado da "complacência" do governo do dr. Silvério Nery para com seus adversários políticos, deixa dúvidas no espírito mais eclético. De repente, uma notícia invulgar, capciosa, com aparência mediúnica (opinião de um dos polemistas), traz à tona o nome de Eduardo Ribeiro e umas notas desabonadoras contra as proclamadas virtudes morais do conselheiro Rui Barbosa, interessado em dois episódios rentáveis (em moeda sonante): o funcionamento do Banco do Estado (do Amazonas) e a questão do Acre. Temos a impressão de que o estopim foi aceso pela nota discrepante aparecida no, jornal do Commercio do Rio de Janeiro, de outubro de 1900, ineditorial assinado por A. J. de Sousa Botafogo, ao parecer acreditado junto a certas especulações espíritas (existem livros desse autor ou com pseudônimo semelhante), mas é só uma suspeição. Na verdade, o caso explodiu antes do referido ineditorial, dias antes, poucos dias antes, talvez um ou dois dias, mas de qualquer forma a ele se refere o dr. Serzedelo Correa, autor do artigo em que inicia o desagravo à pessoa do dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro. Vamos transcrever todo o material por ser de suma importância para a história póstuma do governador atacado pelos adversários políticos de ontem, que ainda eram muitos e como se sabe estava,m na capital federal. Comecemos pela extravagante nota titulada "Espiritismo":

Evocado do outro mundo, onde vivo, acudo ao apelo do sr. João Serzedelo Correa para declarar que nunca acusei o sr. Rui Barbosa de desonestidade; se tivesse motivos para fazê-lo, fá-lo-ia pela forma que imprimo a todos os meus atos; não sou bomem de dize tu, direi eu. O que fiz, guando acusado de ato menos digno, foi defender me, declarando que aceitava, como ainda hoje aceito, discussão a meu modo sobre todos os atos de minha vida pública ou particular; não por convencional respeito à sociedade, que não mo merece, e de quem nada quero, senão que me deixe morrer em paz; mas para legar respeitado a meus filhos o nome que respeitado herdei de meu Pai.

É realmente uma nota bem característica, mas não evoca nada que diga respeito a espiritismo e, sim, a velhacaria. O morto que assim "fala" é sem dúvida nenhuma o dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro, e a pessoa que publicou o ineditorial deveria ser algum "fantasma" de dentro do jornal. O leitor, que não conhece senão por alto a vida recoleta do governador extinto, ignora que ele teve um filho, mas não se fala de muitos filhos. Ou quem escreveu a nota ignorava. essa particularidade? Outro fato é necessário aduzir a essas questões: o major Constantino Nery e seus amigos da bernarda viviam no Rio de Janeiro e não morriam de amores pelo dr. Serzedelo Correa, fiel guarda da memória do dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro, que defendeu com bravura. Tanto que viria a público com um longo artigo publicado no Jornal do Commercio de 22 de outubro de 1900, artigo que vamos transcrever in totum:

A MORTE DO DR. EDUARDO RIBEIRO ÁGUIA OU ABUTRE?

Na minha qualidade de amigo do dr. Eduardo Ribeiro, deveria estar satisfeito com a resposta branda e tímida que o sr. conselheiro Rui Barbosa se dignou de dar ao meu artigo anterior subordinado ao título acima, resposta esta em que s. exa. atira para fora de si a responsabilidade das aleivosias contidas no local de A Imprensa, contra a memória do meu amigo, para colocá-la toda sobre as costas de algum dos seus auxiliares de redação. Se, porém, a resposta de s. exa. se limitasse a isso, eu, ou ficaria calado, ou lhe mandaria daqui os meus agradecimentos por ter vindo a público, com o fulgor de seu nome, declarar que não havia insultado a memória de Eduardo Ribeiro.
Acontece, porém, que s. exa., em defesa própria, tachou-me de detrator, e cbamou de calúnias as afirmações que fiz da sua co participação nos proventos da concessão do Banco do Amazonas.
Volte, pois, à imprensa para que o público saiba que não costumo dizer senão aquilo de que tenho plena consciência. Disse acima que a resposta do sr. Rui Barbosa era branda e tímida. Digo mais, é medrosa. Para que s. exa. me pudesse chamar de caluniador era preciso que pnwasse.
1.° - Que não escreveu a carta a Eduardo Ribeiro, pedindo a concessão do Banco a Manuel Floriano de Brito.
2.° - Que não escreveu carta idêntica ao dr. Ramalho.
3.° - Que o seu cunhado Carlito que era gerente de A Imprensa, nesta ocasião, não recebeu 40 % quando os outros sócios só tinham 20 %, porque precisava repartir com s. exa.
4.° - Que a organização e plano do Banco não fossem produtos da sua concepção.
5 ° - Que o secretário da sua folha nessa época, o ilustre dr. Joaquim Pereira Teixeira, não fosse também um dos sócios na aludida concessão, cuja parte foi vendida aos srs. drs. João do Rego Barros e Lavrador.
      Depois que s. exa. fizer isso poderá então provar que não é sócio nem tem o menor interesse na concessão do Banco do Amazonas. Isto será fácil de provar a s. exa., porque talvez não haja documento da sua co participação, o gue virá confirmar o prolóquio popular gue, não querendo ofender a s. exa., diz que ` rato não deixa recibo":
E já que s. exa. veio em parte bater o mea culpa, declarando que não escreveu nem mandou escrever a local insultosa à memória de Eduardo Ribeiro, novamente apelo para suas crenças de católico pedindo que assista à missa que eu, minha senhora e meus filhos mandamos rezar em sufrágio da alma desse grande cidadão, e que se realizará na terça feira 23 do corrente, às 9 1 /2 horas da manhã na igreja de S. Francisco de Paula. Tenho o maior interesse de ver que s. exa. ora, e garante perante Deus, em que tanto crê, que nunca foi seu intento profanar a memória do meu grande e desventurado amigo Eduardo Ribeiro. João Serzedelo Correa
P. S. - Só após ter escrito estas linhas é gue um amigo chamou a minha atenção para um ineditorial do Jornal do Commercio em que o sr. A. J. de Sousa Botafogo declarou nunca ter acusado o sr. Rui Barbosa de desonestidade. Daria resposta cabal a s. s. se não estivesse convencido de que semelhante declaração não partiu do seu punho, e sim de algum inimigo que porventura possui e que o quis fazer passar por um doido vulgar, servindo-se para isso abusivamente do seu nome. Realmente não se compreende como e por gue uma resposta a assunto semelhante venha subordinada ao título de "Espiritismo': Não posso entender esta mistura: Eduardo Ribeiro, Rui Barbosa, Serzedelo, cartas, Banco do Amazonas e... espiritismo. A ser que o sr. Botafogo passou a si próprio semelhante atestado de alienação mental, devo declarar que nada tenho que ver com o caso. S. s. que recorra ao sr. dr. Teixeira Brandão, especialista na matéria e diretor da Assistência de Alienados, ou então gue peça cômodos na casa de doidos da Gazeta de Notícias.


A segunda notícia não é menos interessante e foi publicada em O Jornal de 22 de outubro de 1900, do Rio de Janeiro:

AMAZONAS

Quer Fuão Correa, no seu proverbial e inglório afã de fazer escândalo, ser o iconoclasta dos créditos da nova e honrada administração amazonense. Não admira, porém, Correa, por estas mesmas colunas já elevou o dr. Silvério Nery ao sétimo céu da glória política. Mas, naqueles tempos ainda se não havia dado o célebre encontro de Belém; de Freire e Guapindaia ainda empunhavam qualquer coisa aí por Manaus ou Copacabana... Passaram-se os dias. veio o fatídico encontro e os cinqüenta contos não quiseram aceder aos meigos acenos do fariseu da nova espécie. O homem zangou-se e ei-lo a trovejar nos a pedidos. Quando aparecerão outros Barés?!... Quem o sabe! Por estes quatro anos pelo menos... a tua alma será triste... Ao apetite insaciável, ao sabor satânico dos maldizentes de todos os tempos, não pode agradar a correção, a lisura, a integridade dos homens de bem.
O maior crime (sic) do eminente governador do Amazonas é ter calafetado as enormes rachaduras que encontrou no cofre estadual, traçando rijo cordão sanitário entre a sua Tesouraria e os aventureiros gulosos que enxameavam nas ruas de Manaus.
Estão fechados os escoadouros dos dinheiros públicos, tão prodigamente distribuídos durante as últimas administrações. Repressão, por isso, às paixões, crescem os olhos, pulula a difamação.
Descanse Fuão Correa.
A fumarada do seu despeito não maculará jamais a reputafão e a conduta irrepreensíveis do ilustre dr. Silvério Nery, que neste momento dirige sábia e criteriosamente os destinos do seu futuroso Estado natal.
S. eaca. tem o nome feito no país e fica absolutamente a cavaleiro dos botes da calúnia que ele sabe desprezar e percorre desassombrada e tranqüilamente a brilhante reta que se traçou como particular e como estadista de eleição na grande obra da regeneração financeira, administrativa e política do Amazonas, argamassando o imorredouro pedestal que perpetuará a glória de seu nome imaculado e querido.
Um conselho ao difamador: não envolva mais a respeitabilíssima família do dr. Nery nas suas misérias e diatribes.
Quem me avisa...
Ajuricaba.
Rio, outubro de 1900.


Realmente o escriba que preferiu mascarar-se sob pseudônimo tâo amazonense e que seria, na pior das hipóteses, um fâmulo a soldo da família visada (a família não foi acusada de desmandos e, sim, o politico dr. Silvério Nery) estaria em condições de realizar a ameaça pública contra o dr. Serzedelo Correa, ameaça, como se viu nas entrelinhas, de morte ou vapulação. Também os correligionários do eminente dr. Silvério Nery já haviam projetado erguer-lhe uma estátua, da mesma forma como haviam projetado erguer um monumento a Eduardo Ribeiro, monumento que para nossa maior vergonha só foi tomado realidade oitenta e oito anos depois de sua morte e mais ou menos no local onde ele iria chantar um dos maiores e mais belos palácios do Brasil. A glória e a fama pesam demais sobre as consciências medíocres: nunca mais falou-se no monumento projetado ao grande Lobo dAlmada, mas o que se vê nas nossas praças são (afora as homenagens justas) bustos de Florianò Peixoto, de Santa-Anna Nery, de Pedro I, de fulano e beltrano.
A memória de Eduardo Ribeiro era para muitos um insulto que conviria afastar do caminho, relegar ao esquecimento, eliminar brutalmente como foi ele eliminado do número dos vivos por algum celerado a soldo. Voltamos a lamentar a carência de documentos nos arranjos improvisados do espólio da vítima duas vezes infeliz. Nunca se falou dos dois coches, dos cavalos de sela, da mobília cara da Chácara
Havia na Manaus do meu tempo de estudante de Direito um cidadão português de nome Joaquim Fanal, que havia sido cocheiro e tratador dos cava.los na baia da Chácara, depois motorneiro de bonde e, finalmente, operário nas obras do velódromo da Cachoeirinha, de propriedade do dr. Deodoro Freire. Com aquele senhor de sessenta anos mais ou menos tivemos nós conversas demoradas, a que às vezes assistia o dr. Deodoro Freire. Sempre foi nosso costume nâo escrever história a partir de depoimentos pessoais. Sabemos como procedem as pessoas entrevistadas: ou omitem propositadamente fatos ou criam sugestões fantásticas. Áquele Fanal falava de um barco ancorado atrás da Chácara, no igarapé Manaú, que servia a Eduardo Ribeiro nos seus passeios águas abaixo até próximo do igarapé da Cachoeira Grande. Possibilidades que não sâo contrárias ao estamento da verdade e que não têm importância senão pelo fato de que dita embarcação (se é verdade que existiu) não aparece catalogada no inventário dos bens do falecido, como outros objetos raros e custosos trazidos por ele da Europa: quadros, porcelanas etc.


Depois da morte de Eduardo Ribeiro, os amigos e adversários políticos passaram à lixívia. Lavaram a roupa suja em público. Queimaram a imagem popular do ex-governador, ou tentaram fazê-lo em nome de uma coisa repelente que se chama politicagem, com o único objetivo de cimeirar outros ícones. Dizem dos assírios que apedrejavam o Sol quando o ocaso começava a obscurecer a natureza. E louvavam-no entusiasticamente quando renascia. No Amazonas, como deixamos dito e repetido, o Sol dos agraciados padecia desse ritual. Não houve
um só governador, nem antes nem.depois de Eduardo Ribeiro, que não fosse ultrajado e/ou nâo recebesse epinícios no antes e pedradas no após. É o costume das qualidades envolvidas no mistifório da política.
Agora, veremos como se defenderia o conselheiro Rui Barbosa, no seu jornal A Imprensa, das objurgatórias amáveis do sr. Serzedelo Correa, também um homem ilustre (25) e devotado amigo do dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro:

AO PÚBLICO

Dizendo que as locais de uma folha não são escritas nem revistas pelo seu redator em chefe, teria dito o que ninguém ignora. A Imprensa não é diversa dos outros jornais. Tem, como eles, numeroso corpo de redação, a quem incumbe essa tarefa, na qual não intervém o seu diretor senão excepcionalmente, guando a importância do caso o reclama, ou os seus auxiliares o consultam. Não se tendo dado esta hipótese, nem sendo ocasião daquela, a notícia, que me valeu a furiosa diatribe de ontem, é tanto obra minha como do meu espontâneo detrator.
Para defesa tão óbvia não valeria a pena de acudir com o meu nome aos prelos. O que a eles me traz é simplesmente opor a verdade a uma calúnia nova, cuja inigüidade emparelha com a da suposição, que armou contra a minha honra mais este gratuito agressor. Nunca fui parte em concessão oficial de espécie nenhuma No Banco do Amazonas, a que ali se alude, não tive, não tenho sociedade alguma. Minha amizade cóm o seu concessionário, o sr. MANUEL DE BRITO, vem da mais respeitável origem. Conbeci-o no eacílio, em Buenos Aires. Sou-lhe grato pelo carinho com que acolheu o desterrado. Nunca lbe recusarei os legítimos serviços da amizade. Mas nos seus negócios com o governo daquele estado nunca me tocou, nem me toca absolutamente o menor interesse.
Rio, 20 de outubro.
Rui Barbosa
(A Imprensa, Rio de Janeiro, 21 de outubro de 1900)

É estranho que o conselheiro firmasse opinião tão aberta, ele que já havia embolsado, como se disse antes, dinheiro do Amazonas para promover defesas que não foram muito corretas do ponto de vista da história dos nossos limites, haja vista que não era perito em azimutes. Mas o tópico acima ainda revela outras falhas: o conselheiro simplesmente não se defendeu das acusações do dr. Serzedelo Correa. O hábil advogado e jurista costumado a polêmicas arrasadoras, ficou devendo ao público uma satisfação moral que a nota capciosa acima não soluciona a contento. Recebeu ou não recebeu os bagarotes? O homem que se finaria louco havia muitas razões para enlouquecer... e uma delas foi a ingratidão dos corvos.
Vejamos agora o primeiro artigo do dr. Serzedelo Correa, aquele que deixaria dançando na corda bamba o conselheiro dr. Rui Barbosa:

A MORTE DO DR. EDUARDO RIBEIRO ÁGUIA OU ABUTRE?

Sob o peso ainda da dolorosíssima impressão que me causou a notícia da morte imprevista do meu querido amigo dr. Eduardo Ribeiro, com o coração retalhado aos golpes da desoladora tragédia com que terminou a existência terrena daquele grande coração de patriota, é que pego da pena para remover da estrada que ele tem de percorrer até a posteridade o lixo com que o querem aterrar e as pedras com que pretendem evitar a sua passagem gloriosa e desassombrada.
Morreu Eduardo Ribeiro! Morreu, porque procurou pelas suas próprias mãos livrar se do espetáculo degradante que lhe forneciam todos os dias aqueles a quem ele, na sua grande magnanimidade, tinha arrancado da lama e da miséria, para colocar na posição de homem. Não é, porém, contra esses que se locupletaram com seu prestígio e com as sobras da sua generosidade que me venho postar na defensiva.
Esses, bem os conheço eu. Sei perfeitamente que o papel de Eduardo Ribeiro na política do Amazonas foi da avestruz meiga e incauta, que errou de ninho e foi incubar nas margens do grande rio ovos de crocodilo, sem se lembrar de que da eclosão desses ovos surgiriam os seus mais ferozes algozes, aqueles que o deveriam devorar. Esses, os atuais dominadores da política amazonense, que foram encontrados por Eduardo Ribeiro entre as torturas da miséria e as transigências do caráter, já são de há muito conhecidos de todos e aplaudidos por aqueles que acham que a ingratidão é a independência do coração. A minha principal revolta é contra o sr. conselheiro Rui Barbosa, gue, descendo da sua costumeira altura de águia, veio corvejar como um abutre vulgar sobre os destroços do meu infeliz amigo. É-me realmente doloroso ser obrigado a contrapor ao respeito e à admiração que sempre tive pelo talento do redator-chefe da A Imprensa, e que julgo uma das maiores glórias da intelectualidade brasileira, a repugnáncia que me inspirou a leitura das linhas com que noticiou a morte de Eduardo Ribeiro.
É de uma pungentíssima ironia a frase última desta local publicada pelo órgão em gue o sr. Rui Barbosa defende os seus erros e a sua personalidade, abusando para isso da confiança dos que fundaram uma empresa jornalística, da qual lhe entregaram a direção suprema.
"Agora, segundo a comunicação telegráfica, sabemos que o dr. Eduardo Ribeiro, iludindo a vigilança dos que certamente o cercavam, enforcou-se, saltando da vida, satisfazendo o seu último sonho de potentado e milionário."
Potentado! Milionário! Estas duas simples palavras revelam todo um mundo de infâmias e de calúnias.
Abastado, era Eduardo Ribeiro, e, como de simples capitâo do Exército, chegou a essa abastança, eu o poderei provar sem um único indicio que possa ser deprimente para o seu caráter. O sr. conselheiro Rui Barbosa esqueceu-se provavelmente, quando escreveu ou mandou escrever aquele período com que rematou a fatídica local, de que esse potentado, esse milionário gue se chamou Eduardo Ribeiro foi o mesmo homem que recebeu, guando presidente do Congresso Amazonense, uma carta de s. exa. pedindo seus bons favores para que o senhor Manuel Floriano de Brito (26) obtivesse dos seus amigos do governo a concessão do Banco do Amazonas uma das mais escandalosas que se tem visto. E não admira que o sr. Rui Barbosa tivesse essa falta de memória, quando falha muito mais grave teve v. exa. escrevendo carta idêntica ao sr. Ramalho, a quem nunca conhecera e com quem não entretinha relações nem de simples cortesia.
De ambas essas cartas tenho eu conhecimento não só por tê-las lido, como também por ouvir comentários sobre elas. Tão famosas se tornaram no Amazonas, que por lá havia quem delas soubesse trechos inteiros de cor. Essa célebre concessão do Banco do Amazonas, de que o sr. Rui Barbosa é sócio, porque o associado Carlos Bandeira, cunhado de s. exa., foi contemplado com 40 % dos proventos, não foi provavelmente que concorreu para gue Eduardo Ribeiro se tornasse potentado e milionário.
Estou aqui, estou a ver o sr. Rui Barbosa declarar em artigo puxado a longos períodos brilhantes que o fato do seu cunhado ser sócio de uma empresa não guer dizer que s. exa. o seja. Eu, porém, conheço muito bem a história toda e sei, portanto, que o sr. Carlito teve 40 % porque tinha de dar metade a s. exa.
Sei mai.s que após o recebimento da primeira prestação do governo amazonense, na importância de três mil e tantos contos, o sr. Nery rescindiu o contrato e os concessionários ficaram calados, por lbes haver o sr. Rui Barbosa acenado com a possibilidade de uma indenização.
Quem será mais potentado, o dr. Eduardo Ribeiro, que acumulou os seus haveres pelos seus hábitos de economia, ganhando durante sete anos de seu governo a soma de trinta contos anuais, ou o sr. Rui Barbosa, qúe meses antes da proclamação da República se quis atirar de uma janela abaixo por atrasos em aluguéis de casa e agora afronta a opinião pública com carruagens? S. exa., antes de ir cuspir sobre um cadáver respeitável; antes de faltar com o        respeito que deve a si próprio, à posição que ocupa e ao nome que adquiriu, deve vir a público para responder ao sr. Botafogo e destruir as acusações de desonestidade que lhe foram feitas por aquele senhor.                                  
                                                  Por que não o fez s. exa. ?                             
Porque tinha certeza que nesses fatos seriam impotentes todos os seus recursos de imaginação. Só admitirei aleives partidos do sr. Rui Barbosa  depois gue s. exa. provar que é o imaculado que apregoa.
                                                 Potentado Eduardo Ribeiro?                                  
E foi para a manfestação promovida a esse potentado gue o sr. Floriano de Brito, sócio do sr. Rui Barbosa, no Banco do Amazonas, concorreu com          5 00$000.                     Miliionário o homem que só se aproveitou dos seus sete anos de administração para transformar a cidade de Manaus, e deixá-la no ponto em que hoje se acha, coisa que bastava para fazer o nome e a glória do administrador!                               Por que motivo acha o sr. Rui Barbosa que Eduardo Ribeiro morreu com o sonho de potentado e milionário? Será, porventura, porque nunca esteve ameaçado de penhora por dívidas em confeitarias? O que é que pode levar mais facilmente à grande riqueza? Comprar terrenos a preços ínfimos pelo seu nenhum valor e valorizá-los depois por meio de melhoramentos, ou encher as arcas do tesouro (de) moeda falsa com gue se inundou o país durante a gestão do sr. Rui Barbosa na pasta da fazenda?                           S. exa. leva diariamente a arrancar do fundo do seu tinteiro queixas amargas porque o injuriaram e porque lhe atiram ao nome calúnzds sobre calúnzizs.                          Se é que injúrias e calúnias doem tanto a s. exa. é caso de perguntar por que motivo as exerce até contra os mortos?                
                                   É que o sr. Rui Barbosa, na sua dupla doença de delírio de perseguição e megalomania, julga-se o único injuriado e o único que pela sua superioridade não o pode ser. Na sua fase de delírio e de perseguição acha que é caluniado quando se lhe atira à face a responsabilidade, que lhe cabe exclusivamente, da desgraçada situação financeira atual.                                       Nos períodos de megalomania julga-se um          inacessível supremo, e não admite que neste país haja o cérebro que tenha o direito de pensar em ' desacordo com os seus dogmas. Tenho plena certeza de que o sr. Rui Barbosa, pondo a mão na consciência, compreenderá que cometeu um ato de suprema desumanidade insultando assim a memória de um morto, e que reconhecerá, pelo menos, a nobreza da minha atitude defendente, por espírito de gratidão, um homem, diante do qual, se existissem interesses, tais interesses estão fechados no túmulo. Não fui dos apaniguados do dr. Eduardo Ribeiro; nunca explorei a sua posição. Tenho, ao contrário, cartas dele, como posso provar, agradecendo os poucos serviços que porventura lhe pude prestar. Quando, porém, a fatalidade política me atirou daqui por imposição da ditadura, durante a revolta, eu encontrei em Eduardo Ribeiro um seio amigo que me acolheu, e que soube ser reconhecido dando-me, nesta difícil ocasião, uma colocação que, além de honrosa, representava a subsistência de minha família.
Agora, que a senha política do Amazonas está cumprida, e gue era esta - "E preciso eliminar o negro custe o que custar" ; posso dizer ao sr. Rui Barbosa que Eduardo Ribeiro, morrendo, deixou ao menos um amigo que ainda não penalizou a honra de que defenderá a sua memória, custe o que custar.
Que o sr. conselheiro Rui'Barbosa me permita, ao terminar, um apelo às qualidades, que sei ainda existem na sua alma pessimista. S. exa. é um pai tão extremoso, quanto eu o sou. É um amigo inexcedível da família. É para o lar a personificação do carinho e do respeito. Pois bem. É em nome dessas coisas sagradas da família, que eu peço a s. exa. que, na sua qualidade de crente fervoroso e de católico superior, vá assistir à missa que eu, minha senhora e meus filhos mandamos rezar em sufrágio daquele grande e desventurado amigo.. exa. mostrará assim que não foi seu intento e que não está na sua generosidade cuspir insultos sobre um cadáver.
João Serzedelo Correa
(Rio, Jornal do Commercio, 20 de outubro de 1900)

O leitor estaria na iminência de requerer comentário breve, ao menos, para certos parágrafos do artigo acima transcrito, artigo que, pela lógica, deveria vir antes do primeiro. À circunstância de haver-se extraviado este primeiro artigo do dr. Serzedelo Correa, deve-se a alternância, que não modificou em coisa alguma a querela trava.da na imprensa. O dr. Rui Barbosa não responderia aos quesitos formulados pelo amigo do dr. Eduardo Ribeiro porque não teve condições morais para fazê-lo. Calar-se e engolir as reprimendas era o melhor alvitre, resguardando o nome.de possíveis avacalhações, pois é muito certo o ditado: quem tem rabo de palha não toca fogo no do vizinho. Pretendendo turvar a memória do dr. Eduardo Ribeiro por despeito, o grande jurista nunca viria a público dizer quanto embolsou do governo amazonense para certas transações como aquela do Banco Amazonense. Sua defesa pública foi mascarada pelo receio de ser apontado à irrisão popular. Não era novidade, na época, e o dr. Rui Barbosa era apenas um mortal que necessitava comer, andar de carruagem numa cidade em que nâo havia muitos tipos de condução, sustentar a casa e o seu estadão de gênio, de "águia de Haia". É por isso que o dr. Serzedelo Correa segwia indeciso entre depenar a águia e torcer o pescoço ao abutre. As duas aves de presa se conluiavam no mesmo processo fisiológico de comer viva a vítima e depois defecar em cima do cadáver. Era a regra geral e não há por que admirar, se já deixamos escrito dessa filáucia.
Entretanto, há a considerar no artigo acima uns dois ou três tópicos que o leitor desavisado de assuntos da história do Amazonas não percebeu nem de longe... Referimo-nos primeiramente à senha - aliás uma réplica do delenda Cartago! - em que se reclama a destruição do negro, custasse o que custasse! Refraseando o que foi dito: "É preciso eliminar o negro, custe o que custar". O negro que obstaculizava a marcha gloriosa dos nepotes para a imortalidade ao menos terrena era o dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro. E quem servia de acólito para os Coelho Neto e os Rui Barbosa dizerem mal da terra e da gente era nada mais nada menos do que os eternos descontentes, os que não puderam abocanhar fabulosos lucros com as concessões disso e daquilo. O dr. Serzedelo estava. com razão e procedeu à altura desmascarando a águia famelga. Um outro tópico bastante pitoresco a que não podemos deixar de fazer alusão é aquele em que se fala de "ovos de crocodilo", chocados pelo erro da avestruz. Havia um sujeito sem cultura e até sem muito crédito moral, visado numa crônica célebre pelo maroto escritor Coelho Neto, cujo apelido era "Jacaré". Esse indivíduo, cujo pai português enriqueceu honestamente em Manaus (era pedreiro), chegando a mestre construtor de obras e contratante de serviços rentáveis do governo (vários governos, desde a Província), jogou fora, nos cassinos de Paris e de Manaus, a fortuna do pai, a da mulher e a sua particular, que fizera com encampações etcétera e tal. Era um mote alusivo a sua chocante postura para com as fêmeas de qualquer escala social, até criadinhas de cesta sob o braço. Morreu numa dependura de Pedro Sem e não podia jactar-se de ser branco, apesar do pai português. Foi um dos que, eclipsado o sol que o protegera sempre, transferiram-se com armas e bagagens para os Nery, de quem se fizera parente por afinidade. O fato de gastar o que era seu não perturba a consciência de ninguém; o que se torna estranhável é que quase todos eles trasfegassem as bagagens para o adversário de ontem, tripudiando sobre a desgraça do benfeitor. É como diria o poeta Augusto dos Anjos: "A mão que afaga é a mesma que apedreja".

NOTAS

(25) Serzedelo Correa, O rio Acre

(26)Esse ilustre desconhecido
havia obtido, pelo Decreto n° 416 de 2 de abril de 1900,
a concessão por espaço de cinqüenta anos
dos terrenos marginais dos rios Negro, Branco e Japurá a fim de
explorar o solo e subsolo. A Lei n° 306 de 10 deagosto de 1900, 
do governador Silvério Nery, anulou a concessão.





A trajetória de Eduardo Gonçalves Ribeiro IV - MÁRIO YPIRANGA MONTEIRO


CAPÍTULO 4

NEM TUDO QUE É SÓLIDO SE DESMANCHA NO AR


Talvez Eduardo Ribeiro fosse uma esfinge à espera de que a posteridade o definisse. Abateram-no porque não conseguiram vencê-ló pela persuasão e pela mofatra. O major Araripe disse dele coisas profundamente ignominiosas, uma retaliação grosseira e, por certo, produto da inconfessável frustração. Essas frases odiosas foram publicadas no livro citado do historiador Lima Bacuri e vamos transcrevê-las, porque, como se disse antes, representavam nada mais que uma vindicação agressiva, e sem norte. Isso aconteceu após a segunda bernarda de 1893, mas é também reflexo da desastrada arruaça de dezembro de 1892:

ARTIGO DO MAJOR TRISTÃO SUCUPIRA DE ALENCAR ARARIPE

Ao público e aos meus camaradas oficiais do Exército.
A ninguém é desconhecido nesta capital o modo porque eu e o meu irmão - o bacharel João Araripe - temos procedido em relação às calúnias infames mandadas assoalhar contra nós neste Estado e fora dele pelo governador Eduardo Ribeino, por intermédio de uma matilha de rafeiros assalariados que o servem incondicionalmente, prontos a satisfazer-lhe os fins mais ignóbeis. À proporção que temos tido conhecimento dessas produções nojentas - já sob forma de pasquins, já sob forma de correspondência em artigos e telegramas à imprensa, guase tudo anônimo - temos devolvido com a responsabilidade legal de nossas assinaturas essas podridões que nos arremessam, produzidas por um ente gerado num meio abjeto,
vindo ao mündo com a alma formada pela fatalidade atávica nos moldes dos sentimentos mais torpes de degradafão moral. Sem coragem para enfrentar-me, reconhecendo
que minha presença e de alguns parentes meus neste Estado era-lhe incômodo(20), urdiu-nos uma indigna tramóia, pretendendo esse saltimbanco político envolver nos em sua politicagem de falsidade e cinismo.
Em telegrama publicado no Jomal do Commercio da capital federal, essa pústula que flagela a dignidade deste povo no exercício imoral do cargo de governador, esse miserável caluniou-me vil e infamemente perante o Brasil inteiro, pelo que requeri conselbo de investigação a fim de provar que fui vítima de um eactravasamento dessa pústula e patentear ao público e aos meus camaradas oficiais do Exército que felizmente não fui
atingido pelas torpezas desse bandido.
Em requerimento que dirigi ao exmo. sr. general comandante do 1.° Distrito Militar em data de 18 do corrente solicitei nomeação de um conselho de investigação para liguidar as acusações feitas no dito telegrama que assim diz: "O major
Sucupira despeitado pela não concessão da estrada do Rio Branco e demissão de um seu irmão empregado, procura por todos os meios embaraçar o governo do Amazonas provocando escândalos e conflitos etc. etc."
Publicado no Diário de Notícias da Bahia de 12 de janeiro por transcrição do Jornal do Commercio do Rio, veio ao meu conhecimento o tal telegrama a 9 do corrente e logo a 10 fiz a requisição aludida pedindo ao exmo. sr. general solicitasse do governador relatório escrito acompanhado de documentos que pudessem instruir o processo a que me propunha responder no intuito de que fossem provadas as acusações ou considerado o governador um caluniador.
Após duas solicitações feitas a este último em ofícios do comando do 1.° Distrito sob números 3898 e 3915 de 13 e 20 do corrente exigindo remessa do relatório e documentos em questão obtive o seguinte despacho:
"Não pode ter lugar a nomeação do conselho de investigação requerido pelo suplicante por falta de base para tal nomeação visto como o dr. governador do Estado de quem foram solicitados documentos competentes e informações a respeito, declarou-me em seu ofício n.° 1 de ontem nada ter que informar-me acerca dos fatos sobre que deviam versar as investigações do conselho, por serem estes fatos correntes nesta capital e fora dela (Assinado) Bento José Fernandes Júnior":
Miserável quando, onde e em que termos formulei pedido de concessão dessa estrada de ferro que dizes ter me recusado?
Meu irmão o bacharel João Araripe não foi o próprio gue demitiu-se espontaneamente do cargo de Procurador Fiscal do Tesouro Estadual arremessando às faces desbriadas tuas esse emprego, por julgar se incompatibilizado de servir com um governador abjeto e pusilânime?
Não foste tu, bandido! que engendraste essa comédia política para mais tarde a 25 de janeiro praticares a imoral farsa eleitoral de te apoderares das municipalidades do Estado e assim garantires o teu governo pelo suborno?
Finalmente não foste tu, infame miserável! que telegrafaste ao exmo. sr. marechal Presidente da República dizendo teres triunfado licitamente nesse pleito eleitoral caracterizado pela mais negra falsificação?
Cínico!
Manaus, 22 de fevereiro de 1893
Major Tristão S. de A. Araripe

O artigo acima merece ser comentado por vários motivos que não são só políticos. O leitor desavisado deve de haver prestado atenção àquele trecho "vindo ao mundo com a alma formada pela fatalidade atávica". E mais: "ente gerado num meio. abjeto", que poderiam completar os escassos dados da infância e adolescência de Eduardo Ribeiro. Sabe-se de fonte limpa haverem sido seus pais humildes e descendentes diretos de escravos negros no Maranhão. A ninguém era desconhecida essa faceta na Manaus de 1892. Posto que não fosse negro retinto, o dr. Eduardo Ribeiro o era por ascendência e pelos característicos somáticos. Em seu busto de mármore que encima o túmulo pode ver-se perfeitamente o lanudo do cabelo agarrado ao crânio. Mas não é a essa particularidade que se refere o foliculário insatisfeito, e, sim, à notória condição humildosa do pobre menino gerado numa família sem condições financeiras. Além do mais, corria em Manaus uma notícia que parece ajustar-se àquela expressão dura "fatilidade atávica". Parece que o genitor do governador não era equilibrado mentalmente, e até nos causa certa estranheza nunca se referirem aos pais dele. Só se sabe de certo que o menino fora excepcionalmente dotado de predicados intelectuais muito generosos e alcançaria pelo mérito o posto no Exército pelos canais acadêmicos, e não por atos de bravura ou outros. É-se levado a admitir que a antipatia do moço militar pela política imperial advém de uma relação de causa e efeito com a escravidão negra.
Eduardo Ribeiro foi um marginal superior, destacando-se da linha de comportamento do homem de cor pela ambição de subir. É a sua negritude, seu proverbial amor pelo Maranhão, que o leva a amparar as populações miseráveis daquele Estado, a criar colônias em Manaus para locar os conterrâneos, a chamar para a administração maranhenses cultos. Excepcionalmente ele procura atrair gente de Pernambuco, mas não do Ceará e de outros Estados. Por isso, nas entrelinhas, o inquieto e trêfego major Araripe o estigmatizava com o sinal da loucura! O que sobra para dizer é muito pouco: não me convenço da retirada suasória do irmão Araripe do governo. Naquele tempo de concorrência assanhada? Não, a demissão foi dada por motivos que são óbvios: a estrada de ferro projetada e que nunca seria realizada. Aliás, o que ficou registrado não foi uma "estrada de ferro" e, sim, a estrada carroçável para o Rio Branco (21).
Ora bem, por todas essas amostras de despeito, frustração, carência de espírito de disciplina, arrogância e outras causas possíveis e ocultas ou semostradas, não é de duvidar que os Araripe, contaminados pelas futricas dos pretensos açambarcadores do poder, houvessem preparado a conjura militar. Só que os Nery não eram da têmpera do coronel Guerreiro Antony, que agüentou com seus homens o bombardeio de sua casa da rua de Enrique Martins. Fugindo todos eles, com o padre Amâncio de Miranda à frente, deixaram o general Bento Fernandes Júnior como bode expiatório da convulsão política. Mas tanto o general como o tenente-coronel Geógrafo vieram a público cada qual contar sua história. História que é, naturalmente, unilateral, um criando motivos suspeitosos para justificar seu indébito ingresso na bernarda; o outro até levando-o no ridículo, increpando-o de joguete e outros conceitos depreciativos.
Enquanto durou a Província e o sistema de eleição, não houve barulho armado, embora houvesse cambalacho, como em 1878 (22). Depois da República, ou no início da República, têm começo os desaguisados, as intrigalhas, entre monarquistas e republicanos, estes crismados de jacobinos quando demasiado ferrenhos na defesa da "democracia".
Essa luta entre partidos políticos, e daí entre elementos entre si, teve no dr. Domingos Teófilo de Carvalho Leal um representante inconformado. Logo mais a brega avulta e obriga o governador Ximeno de Villeroy a renunciar. Fervia o caldeirão político, estalavam as ambições de cargos elevados. Estouram as duas quarteladas contra Eduardo Ribeiro e um remanso sucede. Como as tempestades amazônicas que duram um máximo de sessenta minutos, a paz e a concórdia desceram sobre os partidos. Uma década mais ou menos de trabalho subterrâneo, mas o vulcão da discórdia está adquirindo forças e vai explodir em 1910 com força total. Aqui são ainda os militares que promovem o genocídio em Manaus, com aqueles calhambeques apelidados de navios de guerra, "Missões", "Traripe", carentes de guarnições necessárias à manutenção da ordem pública, como disse o comandante da flotilha em resposta ao apelo do governador Eduardo Ribeiro para que as forças federais controlassem a bernarda (23).


Poderíamos ajuizar de outra forma a recusa em desembarcar, talvez por prudência ou parcialidade. De qualquer maneira, foi sempre uma medida ajuizada, pois o Estado mantinha de fogos acesos seus dois barquinhos de guerra, os avisos "Tefé" e "Jutaí", melhor armados que os napaflus (navios de patrulha fluvial) de então. Era fiado nessa garantia que o dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro oficiava ao comandante da flotilha, dando conta do que se passava e resistindo às pressões adversárias. Mas foi o capitão dr. Manuel Uchoa Rodrigues quem dirimiu o conflito, tomando a deliberação de propor pessoalmente ao governador do Estado as tréguas. Ele se encontrava prisioneiro dentro do quartel do 36° BI, quando lá fora, por mera curiosidade, foi saber o que havia, por causa do tiroteio. É uma proposta de paz e concórdia que vai atamancar a dissidência e fazer valer a autoridade do dr. Eduardo Ribeiro e do comandante Geógrafo. Fê-lo entretanto com o conhecimento pleno do general Bento e sua concordância:

Amigo dr. Eduardo Ribeiro. Acho-me no quartel desde ontem e tenho visto
o que nestas horas de luto se tem dado de lastimável para o Estado do Amazonas. Acabo de saber que em breve continuarão as hostilidades. Por um dever de cidadão, ao qual não me posso eximir, mormente na crise que atravessamos, aguda como sabeis, eu como cidadão, e como soldado, concitovos a suspender a luta até que eu tenha uma conferência convosco. Aguardo vossa resposta urgente. Do amigo e colega Manuel Uchoa Rodrigues - Deputado Federal Quartel do 36.° Batalhão de Infanteria em 27 de fevereiro de 1893, às 6 horas da tarde.

Diz o mesmo apaziguador que às oito da mesma noite recebeu do governador a resposta:

Manaus, 27 de fevereiro de 1893. Amigo dr. Manuel Uchoa Rodrigues
Em resposta a vossa carta agora mesmo recebida declaro-vos que aguardo a vossa vinda a este Palácio para que possa ter lugar a conferência a que vos referis.
Espero que isso seja urgente porque toda a força do Estado está a postos até que seja restabelecido o império da lei. Não transijo.
Do amigo e colega - Eduardo G. Ribeiro

Não transigiu. Ao lado direito do Palácio, ancorados, estavam os dois avisos de guerra "Tefé" e ` Jutaí ", prontos e de fogos acesos para tomar parte no conflito se as canhoneiras o fizessem. Entrincheirada no telhado da Enfermaria Militar e Quartel General, a guarda fazia fogo contra o Palácio, que àquele tempo era um metro quadrado de pedras robustas, só mais tarde acrescido de instalações melhores do que a cocheira e a baia. Em compensação, as forças estaduais ocupavam "pontos estratégicos" à entrada da praça da República e rua e cruzamento das ruas Municipal e Instalação da Província, e pelo lado norte guarnecendo a casa do governador, na rua de José Clemente Pereira. Quase fechados em um círculo de fogo, os soldados do 36° BI ainda resistiam pela honra da firma, comandados pelos amotinados que não eram todos os oficiais e mantendo como reféns o dr. Manuel Uchoa Rodrigues, tenente-coronel Geógrafo de Castro Silva, dr. Clarindo de Queirós, tenente João de Lemos e outros oficiais graduados não partícipes da camorra. Antes de tomar corpo a ideia de terminar-se honrosamente o conflito armado, aparecera diante do quartel uma comissão de paz composta dos senadores Almino Álvares Affonso, do vice-governador dr. Moreira, do senador Joaquim Sarmento e do dr. Duarte da Silva., presidente do Superior Tribunal de Justiça, que fora vaiada pela populaça engajada no serviço particular dos Araripe e não conseguira falar com o general Bento José Femandes Júnior. Essa mesma comissão publicara antes um manifesto ao país, relatando os episódios comprometedores em que estava n envolvidos oficiais e paisanos simpáticos à causa do major Constantino Nery e Tristão de Alencar Araripe.
De volta ao quartel amotinado, o dr. Uchoa Rodrigues conseguiria convencer o general-de-brigada Bento Fernandes Júnior da inutilidade da resistência diante de tantos mortos e feridos e da carência de munição existente. O relato diz que já havia sido distribuída entre os soldados toda a munição e, diante da inflexível tomada de posição do governador, considerava-se perdida a ingrata causa. Ingrata causa suscitada pelo delírio de grandezas e da qual já haviam fugido alguns dos elementos ditos lideres. A propósito, comentava. o manifesto dirigido ao país e à Câmara dos Deputados: "O Hilário com os trezentos homens não apareceu, o Agesilau foi mudar a camisa e não voltou, o Miranda Araújo vinha depois do jantar e ainda não chegou". Esses eram partidários acérrimos da escaramuça, mas na hora do pega-pra-capar azularam. Voltariam depois com desculpas amarelas, quando tudo serenado, o general Bento demitido, os Araripe embarcados e o major Constantino Nery quieto em sua triste condição de governador desaclamado.
Os mazorqueiros fugiram ou silenciaram, amoitados em suas covas residenciais. O primeiro a dar às de vila-diogo foi o cônego Amâncio de Miranda. Havia sïdo vice-presidente da Província do Amazonas no período de 2 de julho a 12 de julho de 1888, e de 11 de novembro de 1888 a 12 de fevereiro de 1889 como presidente. Cometeu uma série de extravagâncias e é apontado como negociador de um carro de condução de água potável, que não merecia ser adquirido pela Presidência pelo mau estado em que estava. Negociatas desse tipo ou quiçá pior aconteciam nos governos da República até nossos dias. O cônego ou monsenhor arrenegaria da amizade dos Nery e isolou-se no conato de Nossa Senhora de Nazaré, em Belém. Foi singularmente um dos mais cultos sacerdotes daquele tempo, sendo amazonense de Manaus, numa época de efervescência politica. Foi professor de língua grega (catedrático) no Liceu Pais de Carvalho (Belém), jornalista polêmico e camareiro extranumerário do papa Leão XIII. O Dicionário histórico, geográfico e etnográfico do Brasil, parte referente ao Amazonas(24), diz que ele fora "perseguido por adversários políticos", o que não é verdade pelo menos na administração Eduardo Ribeiro, durante a qual sempre gozou de muita liberdade individual e religiosa. Pode ser que mais tarde, nos governos do coronel Ramalho Júnior e do tenente Fileto Pires, tenha sido molestado pelas correrias que arquitetasse com seus amigos do Partido Nacional. O que é admirável (mas não me suscita admiração) é o convívio de políticos "decaídos" com os Nery governadores. De repente, os amigos do dr. Eduardo Ribeiro seguem um novo rumo, tomam-se vestais consagradas ao novo culto. Os amigos da mocidade ficam fiéis, como o dr. Pedro Freire e o dr. Serzedelo Correa. O que faria o dr. Silvério Nery com toda a herança recebida desse governo próspero e progressista? Que faria ele para contrabalançar o "demérito" das escavações contratadas a preços astronômicos e outros serviços? Resposta: nada. Nada. O que resultaria dessa política de desperpetuidade genial seria doloroso para todos nós de hoje. Muitos benefícios preparados pelo governo do dr. Eduardo Ribeiro foram cruel e morbidamente interrompidos ou deixa.dos de executar na origem. Nem sequer o dr. Silvério Nery e antes dele o coronel Ramalho Júnior vislumbraram a solidez daquelas iniciativas. Aconteceu, pois, que, seguindo o dogma de que "a vingança é o privilégio dos deuses", aqueles políticos reduziram a zero qualquer forma de sobrevivência da simpatia pública auferida pelos adversários políticos ou procuravam atrair políticos de expressão para seu grêmio. Isso aconteceu realmente e é histórico que nomes de politicos tidos por inimigos figadais passassem a conviver nos bródios suntuosos como aquele banquete em que o monsenhor Courinho começa com um verso de Dante Alighieri para turibular ao chefe e conceder-lhe a aura de probo: "Há um verso de Dante, considerado por Salvattore Thomasi como o ma.is belo verso do mundo e que bem se poderia aplicar a v excia., dr. Silvério Nery: Sotto L`usbergo del sentirse puro":


Não estamos inquinando dr. Silvério Nery de gastador atrabiliário dos dinheiros públicos, apenas convocando ás notas históricas de sua própria lavra para que se fique sabendo que era comum a um governo discordar sem motivo sério das atividades financeiras de seu antecessor. Pelos menos os governos passados não ofereceram banquetes suntuosos para comemoração de aniversários de administração nem mandaram cunhar medalhas alusivas ao quadriênio. Isso requereria dinheiro e esse dinheiro nâo sairia do bolso particular do "homenageado" pelo povo. Em 1902, um jornalista satírico que assinava. "O Velho" escrevia no jornal A Província do Pará (13 de setembro) artigo titulado "Manaus" (sic), dizendo: "As `histórias do Amazonas' hão de alcançar a mesma celebridade que as histórias do arco da velha, tão bizarras e fabulosas são elas! Não passa um só dia sem que, aqui, deixe de aparecer uma coisa engraçada e nova. Quando, em Manaus (sic), chegaram os números de A Província, destabanado colega da `Secção Livre', L. O. despejou diante do público uma cornucópia de notícias estupefacientes, o meu velho e bom camarada Silvério iluminou-se e, com seu próprio punho, dizem, escreveu para o Amazonas (jornal) uma ameaça tremenda contra o governador do Pará e o redator-chefe d'A Província;, e afirmou que aqueles artigos da `Secção Livre' saíam da própria redação, que assim praticava uma farsa".
O caso é que naquele tempo os jomais de todo o Brasil comentavam os sucessos mais escandalosos dos governos amazonenses e só assim o país tomava
conhecimento de ocorrências boas e más. Ora, o dr. Silvério Nery poderia orgulhar-se de não haver sido bafejado pelo cálamo precioso do grande maranhense Coelho Neto, a quem encomendou a sátira jocosa escrita no periódico A Cidade do Rio de 10 de agosto de 1900 contra o govemador Ramalho Júnior. Aquele Coelho Neto, que nos deslumbrou com sua prosa nos timidos alvoreceres da literatura e depois nos deixou com náuseas, foi o mesmo que, aqui recebido com arras e estenderetes, saiu dizendo mal do Amazonas e de nossos símbolos, símbolos oficializados pelo governador Ramalho Júnior. Coelho Neto como Alberto Rangel escarraram na mão que os encheu de libras esterlinas. Aliás, foi sempre assim, não admira. O que admira é a crônica encomendada, crônica que, vazada em estilo do ano da graça de 1200, situa o coronel Ramalho Júnior na triste posição de emérito sibarita. O título da crônica é "Sete mil-réis", importância que se diz haver o dr. Silvério Nery encontrado de saldo no Tesouro. Extratamos apenas uns períodos: "Ele não era simplesmente o zastre elegante, era o rascoeiro de qualquer zabaneira, tanto aceitava a recambiada dos alcouces europeus como a lavadeira dos igarapés e, como em geral, a concubina é alagadeira iam-se os bens do Tesouro em presentes com que o balardo pagava. os espasmos das suas noites". "Eu não lastimo somente o Amazonas, tenho pena, igualmente, do novo govemador que vai, num trabalho hercúleo, tirar do lodo um Estado. Pobre coronel Silvério!"
Era visceral a campanha de difamação que presidia,os atos de assunção do novo pretoriano. No entanto, quem lê a mensagem do dr. Silvério Nery chega à conclusão de que ele não operou nenhum milagre para satisfazer a todos os compromissos e pagar o funcionalismo em dia. Mas éra a chave com que os governos abriam a porta da notoriedade e em nossos dias ouvimos a mesma cantiga. De mesmo que isso estava acontecendo com o governo Silvério Nery, agitavam-se na capital federal outras questões que pelo fato de estarem no passado não deixava n de causar pruridos incômodos nos falastrões da imprensa ou nos interessados na maledicência.



NOTAS

(20)O major Tristão de Alencar Araripe não explicou publicamente a razão pela qual sua presença
em Manaus era "incômoda" ao governo.

(21)
Joaquim Huet de Bacelar,
Projeto de Estrada de Ferro estratégica de
Manaus à fronteira do Rio Branco Amazonas.

(22)Exposição em Manaus, 1870.
Trata-se de recursos contra as eleições
paroquiais daquela data e suas manobras.

(23)Havia mais navios, cerca de uns seis, iriclusive sucatas memoráveis do tempo da guerra com o Paraguai e maridadas "servir" nesta terra de degredo. Que eu me lembre somente a canhoneira "Missões" de fundo chato, pouco calado, apresentava aspecto decente de navio de guerra.

(24)A parte referente ao Estado do Amazonas (v. II, p.83 e segs.) foi redigida pelo dr. Luciano Pereira da Silva. O volume publicado no Rio de Janeiro tem a data de 1922.







sábado, 21 de maio de 2016

A trajetória de Eduardo Gonçalves Ribeiro III - MÁRIO YPIRANGA MONTEIRO



CAPÍTULO 3

ANATOMIA DE UM CRIME

Não escondemos que o dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro foi um cidadão politicamente infeliz depois de deixar o govemo. Completamente abandonado por amigos e detestado pelos inimigos, deveria refugiar-se na mais humilhante das posições, se é que já não estava desde muito em situação de nâó poder conter-se. Sem família constituída, sua casa da rua de José Clemente Pereira deveria de ressentir-se com a falta de uma esposa e de crianças. A mulher existia, com quem teve um filho, mas era obrigada a viver no anonimato, na triste situaçâo de apenas concubina. Os criados eram poucos e de confiança, ordenanças e bagageiros do Batalhão de Segurança. Ele próprio não deveria sentir-se muito seguro sozinho naquele casarão. Pois sabemos entretanto de atentados contra sua vida, numa época em que a vida valia muito pouco para o caudilhismo provinciano. Eduardo Ribeiro haveria por seu turno de lamentar as conseqüências do seu ato, elegendo pela farsa ao amigo Fileno Pires Ferreira. Esse homem guindou ao poder seu cunhado, dr. Guido de Sousa, o maior patife que já surgiu na administração do Estado, talvez superior ao célebre Calambange, da oligarquia Rego Monteiro. Era um indivíduo de mau caráter, vingativo e impiedoso. Dele diria o jornalista Victor Hugo Aranha, sob o pseudônimo Taliâo (O Passado, 1902), em artigos publicados no
jornal A Federação, de Manaus, as coisas mais incríveis, atos de perversidade inauditos, assassinados impunes, surras, desvirginamentos, invasôes de lares, catilinárias que se estendiam igualmente ao dr. Raul de Azevedo, outro preto claro maranhense. A quando da queda do dr. Füeto, Guido de Sousa foi obrigado a sair fugido de Manaus e, durante a saída do navio (suspeitou-se de que não embarcou), os foguetes de assovio iluminaram o cais do porto. Com todas essas misérias de que se julgava em parte culpado, um peso na consciência, Eduardo Ribeiro nâo deveria usufruir de sono descansado. Seu maior adversário politico, que se julgava. esbulhado do poder, obstinava-se em cortar-lhe a proa. O sr. Antônio Constantino Nery não escondia de ninguém que devia o insucesso de sua primeira tentativa. de apossarse do governo à reação armada do dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro. Ao dr. Fileto Pires Ferreira sucederia o coronel da Guarda Nacional José Cardoso Ramalho Júnior, vice, e a 23 de julho de 1900 é eleito o dr. Agrimensor, filho de Quari, Silvério José Nery. As coisas mudariam então. Em 1900, 14 de outubro, falece Eduardo R.ibeiro em sua chácara da Chapada do Pensador, hoje nomeada apenas Chapada. O tempo instaurado entre a eleiçâo do primeiro Nery e a morte misteriosa de Eduardo Ribeiro é muito curto, mas não o seria para a eleva.ção do coronel Antônio Constantino Nery à curul governamental.
Essa elevaçâo foi uma pequena comédia legal. Era vice o monsenhor Benedito da Fonseca Coutinho e a lei orgânica amazonense nâo permitia a sucessão de parentes do governador(11) , a menos que resignasse o titular em tempo hábil. Isso foi feito e assume o monsenhor. É então eleito por sufrágio universal (a balela de sempre) o coronel Antônio Constantino Nery para o quatriênio 1904-1908. A ofensiva contra Eduardo Ribeiro começara antes, meio indiretamente, é fato, pois o trabalho dos Nery foi quase sempre de solapamento da obra grandiosa do Pensador. Sucederam-se as famosas encampações a que já aludimos, cujo mérito exclusivo era tirar de A as prerrogativas adquiridas por contrato ou não e entregá-las a B, em função da amizade ou do interesse particular. Damos a palavra ao provecto mestre Agnelo Bittencourt: "Começou Silvério Nery por anular vários contratos firmados na vigência do seu antecessor considerados lesivos ao Estado, no valor dé 13.796.200 (contos de réis), bem assim fez declarar insubsistentes várias nomeações de magistrados julgadas contrárias à lei. Mandou apurar as responsabilidades financeiras do Erário público, achando um acervo no valor de 42.104.820 (contos de réis)". Sim, não há dúvida; era, aliás, uma das características dos governos daquele tempo desfazer o que os outros haviam projetado e em contrapartida realizar a.lguma coisa de proveitoso. É duvidoso, no entanto, que tudo fosse obra inspirada pelos mentores administrativos.
O ranço do ódio pelo governo Eduardo Ribeiro e continuadores flutuava e fez-se mais indisfarsável quando assumisse o major Constantino Nery. Então o morto já incomodava menos, somente sua memória jazia presente no juízo dos amigos mais chegados, como 0 dr. Bretislau de Castro, Hermenegildo Lopes de Campos, mulato também, tenente Fernando José Barbosa, maranhense e mulato, coronel José Cardoso Ramalho Júnior, coronel Afonso de Carvalho, uma minoria (com mais alguns outros) que o reverenciou após a morte inglória.
As biografias do dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro são curtas(12). E quem dele poderia dizer tudo calou-se durante toda a vida. Só falaram os que dele precisavam dizer as amargas. O dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro foi militar severo nos julgamentos dos governados, não procurou adoçar as opiniões que dele se faziam no lar e na rua. Não queremos dizer que houvesse sido drástico e poluto, como pretendia a oposição. À outra luz, não acusamos nominalmente quem quer que seja da morte do ex-governador. As condições um tanto esquisitas dessa morte trágica já foram encaminhadas pelo erudito historiador amazonense dr. Arthur Cézar Ferreira Reis quando diz textualmente: "Morreu a 14 de outubro de 1900, em circunstâncias um tanto misteriosas". Quem informou o historiador possuía condiçôes para fazê-lo porque viveu a época de defasagem moral que o Estado atravessava com tantos ambiciosos do poder. No entanto, tudo leva. a crer que o "negro precisava ser liquidado".
O dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro nasceu em São Luís do Maranhâo a 18 de setembro de 1862. Fez o curso secundário no Liceu Maranhense. Em 1881 matriculou-se na Escola Militar do R.io de Janeiro, saindo alferes em 1886. Segundo vimos antes, graduado no posto de segundo-tenente, seria locado no 3 ° Batalhão de Artilharia-a-Pé sediado em Manaus. Essa transferência teria sido por medida disciplinar, mas no Álbum descritivo amazônico, 1899, de Aïrthur Caccavoni, diz-se foi "removido, por fútil motivo, para Manaus". O motivo, fútil ou grave, não interessa em sua parte civil, pois que erá da alçada militar e não cremos que houvesse conexã.o com a honra do homem. Já se disse que ele era republicario convicto e essa convicção filosófica talvez chocasse os monarquistas. O fato, porém, é que ern seu jornal O Pensador havia espaço bastante para as idéis nascentes que os movos arvoravam com destemor. Pelo menos um dos colaboradores daquele jornal, o dr. Pedro Freire, maranhense poeta, foi comboiado para a administração, servindo o posto de secretário de Eduardo Ribeiro.
A morte de Eduardo Ribeiro não passou ignorada em Manaus. Em torno dela teceram-se os mais diversos comentários, porém jamais se admitiu houvesse sido autocídio. Do ma.logrado trabalho do professor Júlio Benevides Uchoa, um homem de consciência reta, extraímos o seguinte trecho dilucidativo:

Residia o imortal maranhense, na antiga Chácara Pensador, em companhia do dóutor Menélio Pinto, diretor da Secretaria do Congresso
Legislativo. Profundamente abalado de suas faculdades mentais, à época do tristíssimo acontecimento gue o vitimou, encontrava-se o doente sob rigorosa vigilância. Meses antes estivera no Ceará e na Europa a tratamento de saúde. Em Gênova, uma junta médicaa composta dos professores Ludovici, Maragliano e Taburini o examinara detidamente, concluindo que o seu restabelecimento se processaria pouco a pouco. Do velho mundo retornou o enfermo a Manaus a S de setembro de 1900. Permaneciam junto ao Pensador o doutor Menélio Pinto, o alferes da Força PúblicaJoão Emídio Ferreira da Silva, o furiél Severino Augusto de Souza e os praças da mesma corporação, Manuel Laranjeira, João Evangelista e. josé Santos(l3). Era um grupo bem numeroso de vigilantes, capaz de velar pela segurança do doente e evz'tar qualquer desatino, que, porventura, ele cometesse, no estado de insânia em que se encontrava. Passara a noite de sábado para domingo agitadíssimo, pedindo isso e aguilo, em grande estado nervoso. Pela madrugada de ontem (13) o doutor Eduardo Ribeiro tirando as correntes da rede, sacudiu-as, jogando zìmas nas outras. Tiradas estas por um dos enfermeiros, ele pediu um pouco de leite. (...) E, enquanto seu guarda saía do quarto para pedir o líguido, o grande homem, só, isolado por minutos, pôs termo a sua utilíssima exzstência.
Momentos depois, quando o tenente Emídio da Silva entrou no aposento, o Pensador estava morto. Suicidara-se no seu próprió quarto de dormzr uma sala junto à varanda, com janelas para o quintal e pátio. Tinba enlaçado no pescoso uma corda de mosquiteiro - uma corda de cor verde - que pendia do armador. Eduardo Ribeiro jazia com a cabeça para o lado direito, sentado no soalho, a cabeça e o tronco apoiados na parede, as pernas estendidas ao comprido, os pés ligeiramente cruzados. hestia na ocasião um camisão de dormir de linho branco e meias pretas com listas brancas. Às 8 horas e 30 minutos chegavam à Chácara os médicos Carlos Grey, assistente do Pensador, Clementino Franco, Alfredo Araújo e Miranda Leão, que fizeram os respectivos exames. O corpo estava na posição em que fora encontrado às S boras e 30 minutos, Do laudo subscrito pelos médicos que fizeram o
levantamento cadavérico, consta o seguinte: a cabeça presa por uma corda de linho fixada na parte superior de um armador de rede; a corda estava passada em volta do pescoço e atada por nó corrediço; o restante da corda passava em uma roldana, das destinadas a suspender o mosquiteiro, fixada no centro do teto do guarto; a cabeça do cadáver achava-se reclinada sobre a espádua direita. A boca entreaberta deixava ver a extremidade da língua presa entre as arcadas dentárias; os olhos cerrados e a face vultuosa e congesta. O braço direito, em meia flexão, repousava sobre o terço superior da coxa do mesmo lado; o
braço esguerdo pendente sobre o soalho, repousando sobre a face dorsal da mão direita, que se achava em supinação. Pélo hábito externo, não notaram equimoses ou outros sinais de violência gue denunciassem luta ou haver se ele debatido na ocasião da morte. A posição do cadáver, disseram os médicos, era naturalíssima.
   
                        Chácara de Eduardo Ribeiro                         
O palco foi bem preparado para a cena do achamento do cadáver. Começa-se a desconfiar do laudo médico, "asfixia por estrangulamento", quando é instaurado o item "corda de mosquiteiro". O mosquiteiro de que se fala é daquele tipo suspenso do teto, de filó ou talagarça, que se fecha sobre o leito, e não o popular "boi" de estrutura quadrada. Como se pode conceber que uma roldana pequena, parafusada no caixão de madeira do teto, pudesse sustentar um corpo? Ou mesmo que a corda desse mosquiteiro, geralmente fina, suportasse um corpo, mesmo magro e doente? Eu não sou entendido em medicina legal, mas sempre se ouve dizer que o enforcado de verdade apresenta sinais de asfixia muito diferentes dos que aparentava o morto. Geralmente a língua fica exposta e os olhos arregalados. Eduardo Ribeiro apresentava. apenas a extrèmidade da língua presa entre as arcadas dentárias e os olhos cerrados, embora as faces estivessem intumescidas. Mas não se diz se violáceas. Urn problema para qualquer médico discutir.
Eu não acredito, jamais acreditei nesses sintomas tão contrários ao costumeiro indicativo da morte por estrangulamento. E há, como contrapeso, aquele copo de leite de que ninguém mais fala, se foi utilizado ou não foi. O processo policial é falho em muitos pontos; nâo se mandou examinar o conteúdo do copo nem houve necropsia. Como é que uma corda por menos espessa que fosse não deixou matca no pescoço da vítima? Como é que esta estava sentada contra a parede e enforcada? Que ponto de apoio para o corpo em suspensão? E, mesmo que não houvesse suspensão, que modo estranho de um cristâo enforcar a si próprio. São questões que não foram argüidas pelos médicos assistentes nem pela Policia. Não se fez um inquérito a fim de apurar as causas alógenas da morte. No entanto alguém, um médico italiano que vinha acompanhando o doente, estranhou aquela cena tão pouco revestida de naturalidade, chegando ao clímax de declarar suspeita de homicídio, de assassinato! Para escurecer ainda mais o episódio trágico, o processo sumira da Polícia!
Logo depois da morte de Eduardo Ribeiro, o tenente Fernando José dos Santos Barbosa, do Exército, o mesmo que nas bernardas verificadas contra o dr. Eduardo R.ibeiro ficara ao lado deste e do major Geógrafo de Castro Silva, retirou-se de Manaus para o Maranhâo e nunca mais deu notícias. O mesmo aconteceria com os médicos dr. Ludovici e Hermenegildo de Campos. Seria inútil perguntar a razão dessa fuga. Os inimigos de Eduardo Ribeiro, guindados ao poder, não perdoavam a ninguém. Dona Maria Barbosa, casada com o tenente Barbosa, tinha um filho, Patrocínio, da Polícia Militar, tio do sr. Telamon Barbosa Firmino, recentemente falecido. Foi o tenente Barbosa quem relatou à irmã Sebastiana Barbosa Firmino (prima de minha mâe) que se dizia à boca pequena haver o Pensador sido envenenado com umas ervas trazidas de Santarém. É claro que não seria preciso buscar ervas em Santarém para eliminar, via oral, um inimigo. Suspeitava-se de que o "remédio" viera de Faro, via Santarém. E não custava nada a um dos criados e serventes preparar uma dose no leite. Esse copo de leite me parece o busílis da questâo ou a petra scandali.
O mistério do copo de leite, título para uma comédia policial ou novela de sensação.
O professor Júlio Benevides Uchoa tem, no trabalho referido, este parágrafo candente, que resume nosso pensamento a respeito, pois ele publicou a versão oferecida por mim e publicada igualmente em meu livro O aguadeiro:

Muitas versões correm por aí a respeito do terrível drama que eliminou o saudoso maranhense, sem nenhuma comiseração à insanidade que combalira o organismo, provocada esta, possivelmente, pelo
veneno que lhe fora inoculado, mesmo porque os politicóides sem entranhas temiam o seu restabelecimento, como predissera o professor Ludovici, eminente psiquiatra italiano.

O inventário proporcionou muitas desinteligências e críticas a favor dos herdeiros. E é sobremodo curioso como o filho de Eduardo R.ibeiro não aparecesse, nem sua prima, nem o sobrinho, mas somente a "mãe" Florinda Maria da Conceição, que aparece na qualidade de "mâe e herdeira única e universal do dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro". Diante da lei é assim. Não haveria por que contestar. Morto o homem, os abutres afluíram em chusma sobre os despojos. Surgiram contas fantásticas, até da Ligure Brasiliana, no valor de cento e vinte e nove contos de réis. Uma conta do português Caetano Monteiro, do valor de dez contos de réis, subiu escandalosamente para cinqüenta contos de réis(l4). Diz o doutor Edmundo Levy:

Florinda Maria da Conceição ergueu sua voz, protestando, mas foi em vão. Rebelou-se contra o desaparecimento de um piano que ela mesma despachara na Alfândega, insurgiu-se contra a "dívida de Caetano Monteiro da Silva por ser de dez contos e não de cinqüenta'; bradou contra as contas "dos médicos doutores Ribeiro da Cunha, Antônio de Figueiredo e Bulcão Viana por achar excessivas'; não concordando `ábsolutamente com a do dr. Macedo de Bragança ".

Meteram a mão no espólio, os amigos e conhecidos de ontem. Até o túmulo, que deveria de haver sido uma homenagem do Estado, resumiu-se primeiramente numa modesta placa de mármore, sendo depois substituído pelo atual. A abertura do testamento veio revelar duas coisas: que o dr. Eduardo Ribeiro não legou ostensivamente nada ao filho (ilegítimo?) e que amigos e inimigos politicos corvejaram em cima do seu legado. O dr. Edmundo Levy deu-nos a relação desse monte tão miseravelmente rapinado:

Analisando-se desapaixonadamente a avaliação, não há como deixar de lenvantar a voz contra o exagero dos preços dados a todos os bens, como bem protestou, através do seu procurador, a velhinha Florinda Maria da Conceição, "mãe e herdeira única e universal do dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro, capitão de Estado Maior': Basta que se considere que um terreno, situado na rua José Clemente, esquina da avenida "Eduardo Ribeiro'; medindo vinte metros por ambas as frentes, foi avaliado, naquela época, em trinta mil cruzeiros. O terreno do Umirizal, com uma área de quinbentos e sete mil quatrocentos e cinqüenta e dois metros quadrados, foi estimado em oitenta mil cruzeiros. A chácara Pensador foi apreçada por duzentos e dez mil cruzeiros. Para melhor evidenciar o propositado despropósito da
avaliação, cite-se ainda que a "um tanque de zinco para mil galões d`água" foi dado o valor esdrúxulo de oitocentos cruzeiros (15).

Parece que com Eduardo Ribeiro feneceu também sua fazenda adquirida com o dinheiro dos seus proventos. Perdura entretanto a dúvida sobre as aquisições feitas e os bens outros deixados e awaliados em 2.644.117 cruzeiros. As casas que ele deixou não foram avaliadas corretamente nem estão na soma apresentada acima por nós. Eduardo R.ibeiro possuía um landolé tirado por dois cavalos, uma casa na rua de Enrique Martins e outras mais, que não constaram do arrolamento dos bens imóveis. Uma súcia de gananciosos locupletou-se com a maioria dos bens imóveis, que não eram poucos, graças a uma manobra da nossa justiça. Eu na minha juventude cheguei a conhecer vários indivíduos de reputação admirada, entre eles o desembargador dr. Emílio Bonifácio Ferreira de Almeida, que fora o Juiz Municipal de Órfâos e Interditos, nomeado para a execução do inventário; conheci também o major (da Guarda Nacional) João Batista da Faria e Sousa, testemunha do inventário. Com o provecto desembargador eu não tinha familiaridades, mas em 1929-30 conheci de perto o segundo, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ouvi dele coisas de estarrecer a respeito das manobras politicas de antanho em que era envolvido o nome do dr. Eduardo Gonçalves R.ibeiro. Por isso e por outras informações orais e registros jomalísticos, não acredito que o falecido em circunstâncias tâo misteriosas houvesse testado apenas para a "mãe" Florinda Maria da Conceição. Esse é mais um mistério na vida do grande homem, mistério difícil de resolver. Em todo o caso, ficaram as insinuações dos periódicos acerca da existência daquele filho a quem ele não se referiu no testamento.
Ademais disso, conheci e privei da amizade do dr. Deodoro Freire, filho do maranhense dr. Pedro Freire, que fora secretário do dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro na segunda administração. Naturalmente, o moço Deodoro Freire nâo era contemporâneo dos fatos desagradáveis que culminaram com a ascensão dos Nery ao poder, mas deveria saber, por via de seu pai, dr. Pedro Freire, dos acontecimentos universais gerados pela política baré. O dr. Deodoro Freire relatava fatos ligados àquela política de exceção, até a história de uma carta anônima recebida pelo dr. Eduardo Ribeiro, na qual alguém o punha no segredo de uma conspiração para matá-lo. Essa carta nâo foi encontrada entre os papéis do morto, como não seriam encontrados outros documentos privados. Nunca se soube realmente que destino foi dado ao arquivo particular do dr. Eduardo Ribeiro, mas isso também não é de admirar, pois que houve tempo suficiente, entre o achamento do corpo e a intervenção da justiça regular, para que se desse sumiço a todos os papéis existentes ná Chácara Pensador. Somente os amigos do dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro não acreditaram nunca em sua morte voluntária. Nenhum dos homens mais chegados a ele: coronel Ramalho Júnior, coronel Afonso de Carvalho, dr. Pedro Freire, dr. Anísio Palhano, coronel Benevides, coronel Otoniel de Lima e mais uma centena de pessoas fiéis à memória do amigo. Entretanto, é singular a maneira como essas pessoas receberam, sem protesto remoto ou atual, a causa mortis. Não acredito num conchavo para silenciá-la. Acredito, isso sim, num silêncio imposto pelos interessados em apagar os vestígiós do crime.
Por outro lado, não devemos esconder que adversários ontem de Eduardo Ribeiro eram depois filiados às hostes dos governadores Silvério Nery e Constantino Nery Nâo devemos esquecer igualmente que mortes misteriosas, desaparecimentos inexplicáveis de cidadâos, tomada à força e ilegalmente de propriedades particulares, cambalachos administrativos, doações de dinheiros públicos a parentes, um rol de misérias conhecidas e provadas caracterizaram os governos nerystas. Nerysmo ficou sendo sinônimo de politicagem condenável. Há, ainda, para caracterizar o abismo de negociatas fraudulentas desses governos, os empréstimos comprometedores da autonomia do Estado, o Flint, na praça de Nova York, no valor de dois milhões de libras esterlinas; a emissâo de apólices estaduais que lesou a população e enriqueceu o filhotismo;
o empréstimo Marseillaisei(16), o Banco do Tostâo, a safadeza Benchimol etc. Por causa da denúncia daqueles empréstimos o jornal A Federação foi empastelado e o governo Nery teria de pagar uma indenização-acordo de 150 contos de réis ao jornalista Euclides Nazaré. Portanto, num regime de descalabros morais não seria duvidoso que alguém silenciasse ao pobre vezano a fim de impedir que descobrisse os podres... ou por vindita de atos passados(17). Já circulavam ameaças. Não está descartada a possibilidade de haver sido aplicada a eutanásia ao paciente da Chácara Pensador pelos médicos assistentes ou por um deles somente. Naquelas nossas tertúlias com o engenheiro dr. Deodoro Freire (Deodoro em homenagem ao marechal), ele admitiu haver escutado de seu pai, muitas vezes, ter havido um complô contra Eduardo Gonçalves Ribeiro enfermo. O pai do dr. Deodoro Freire não aparece nunca entrè os camaleões que se bandearam para o nerysmo. Ficou fiel ao amigo, porque amigo já era desde São Luís, quando editavam o jornal O Pensador e nele escreviam. Essas opiniôes esparsas fornecem a média da opinião pública sobre o misterioso acontecimento, e ninguém punha crédito num autocídio tão revestido de estranhas circunstâncias. A prova substantiva de que o dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro era estimado pelo povo de Manaus está no ato do seu enterro. Foi uma apoteose, ritual menos político do que espontâneo, que alvoroçou a população e levou-a em tumulto à distante Chácara Pensador. O governo pôs à disposição do público dez bondes sem ônus, que ficaram lotados e vieram deixar as centenas de passageiros na curva da via Vila Municipal, lado do cemitério de São João Batista. Além disso, a multidão que se comprimia nas cercanias da necrópole e dentro só poderia explicar o grau de simpatia humana que aquele homem desfrutava. Falaram à borda da campa os drs. Porfírio Nogueira, secretário do governo, pelo Estadol(18); major Domingos Andrade, pela maçonaria;
Alberto Leal, pela colônia portuguesa; Barbosa Lima, pelo jornal Amazonas; coronel Afonso de Carvalho, pelo Congresso de Representantes; Leonel Mota, em nome da loja maçônica Esperança e Porvir; e José dos Anjos Traíra, pelos operários(19). Ficou enterrado em sepultura perpétua, na quadra onde colocaram uma placa de mármore doada pela Marmoraria Veronesi. Mais tarde seria erguido 0 mausoléu com seu busto cimeiro e fardado. Depois de Eduardo Ribeiro só houve um homem que se preocuparia com a cidade: o dr. José Francisco de Araújo Lima, médico paraense. Os demais trataram de desarticulá-la de seus ornamentos, maltratá-la com inovações bárbaras, abater as árvores frondosas que ornamentavam as ruas e avenidas, "corrigir" os "defeitos" arquitetônicos dos palácios e monumentos, desafiar a posteridade com placas promocionais e deixar ruir os testemunhos de nossa história material.

 NOTAS

(11)Era vice-governador na administração do sr. Silvério Nery quando 0 major Constantino Nery, senador da República, pretendeu candidatar-se ao governo. O sr. Silvério Nery renuncia ao cargo nos termos da Constituição vigente, assumindo 0 monsenhor, e o major Constantino Nery é eleito.

(12)Eduardo Gonçalves Ribeiro, Diário Ofícial, 1985, p. 52.


(13)Leia-se tenente José dos Santos Barbosa

(14)Comerciante português, proprietário de seringais em vários rios do Amazonas. Veio para o Amazonas arrastando os tamancos. Subiu graças à.ajuda de compatriotas e alcançou, por benemerência de Eduardo Ribeiro,
algumas concessôes. Mais para diante achou de envolver-se em mofatras na qualidade de presidente do Banco do Estado do Amazonas, banco que ele fraudou e contribuiu para fechar as portas, lesando
centenas de acionistas. Era igualmente conhecido como o algoz de viúvas dotadas.

(15)Essa publicação está assinada por Agnelo Bittencourt, Edmundo Levy e Júlio Uchoa, e se constitui numa das raras fontes biográficas do Pensador.

(16)O célebre conchavo, empréstimo Marsellaise, foi acordado pelo sr. Constantino Nery, na base de oitenta e quatro milhões de francos com juros de cinco por cento ouro ao ano, em maio de 1906. U ma espiga que recebeu o governador Bittencourt e que esgotou as possibilidades financeiras do Estado.Para concluir, a Société Marsellaise roubou ao Amazonas uma boa quantidade do nosso suor e de nossas lágrimas, a fim de que mais tarde o general De Gaulle viesse dizer que somos um pcwo que não merece confiança. Entretanto nunca dizem os franceses que ficaram com cerca de quatro mil sacas de café brasileiro, durante a Primeira Guerra Mundial.

(17)Euclides Nazaré, A Federação. A oficina desse jornal empastelado volveu a ser a
revista Cá-e-Lá, de propriedade do dr. Aprígio Martins de Meneses. Em 1930
foi ela empastelada pelo povo e o restolho adquirido pelo gráfi.co sr. José
Cardoso (sénior) que reabriu a oficina com o nome otimista de Tipografia Fênix.

(18)Era irmâo do deputado
dr. Antônio Nogueira e secretário do
governo Silvério Nery e considerado
um dos maiores borrachos da época.

(19)O popular
José dos Anjos Traíra era àquela altura
administrador do cemitério. Deixou fama
de carnavalesco e possui descendentes em
Manaus.