quarta-feira, 8 de maio de 2013

MANAUS: DEUSA EMBAIXO DA PONTE


          Cadê, onde está a "Mãe dos deuses" de Manaus? Qual é o nome da Deusa?
 Quando estamos errados é preciso humildade para reconhecer. É verdade, a mãe dos deuses de Manaus existe sim. É a deusa Vênus! E como não poderia deixar de ser, é a deusa do Amor, e do sexo, cultuada com fervor na Zona Franca : uma criança a cada 5 minutos.

 Ela está num dos pilares da ponte da rua Maués que leva, por coincidência, aos dominios da escola de Sanba "Reino Unido da Liberdade". Como até os  lírios  nascem no lodo, a "mãe dos deuses" mora embaixo da ponte, representada por algum piedoso devoto.
 Manaus, uma cidade rica, com uma mentalidade ainda coronelista, não pode ter o nome maldito de uma tribo cunhada de "coveiros", "Zumbis", "gente que cultiva mortos". A palavra manaos, vem de "manu", - morte, morrer.


Daí, com nossa descoberta desse santuário da deusa, só nos resta prestar essa homenagem a Afrodite, o nome grego da grande deusa do amor Vênus, a infiel esposa de Hefestos, o deus dos Infernos.



Agora dá para entender por que Manaus, com seus rios cheios de fezes e lixo, parece tanto com o Inferno de Dante!



sábado, 30 de março de 2013

HOMEM, NATUREZA E CULTURA



Cultura é toda a ação dos humanos sobre a Natureza. E Natureza é aquilo que estava aí, que permanece, da qual o Hoem saiu e faz parte. Hoje os humanos são mais Seres Culturais, que Naturais. Como tratar os mortos é cultural, como nascer é cultural, falar, andar, é a até como defecar é cultura!
Agora, o dizer de um povo que alimenta a ignorância, fazendo crer que só algumas coisas é cultura? Festivais de Ópera, de Cinema, Folclore, Filarmônica e músicos europeus, pagos com salário dignos de europeus, enquanto se paga professores com salário de miséria?
 Como tratar a Educação pública, as escolas com uma mentalidade de linha de montagem de uma fábrica e premiar os professores, que atinge metas em médias e reprovação mínima?
Agora, dá uma olhada para as cidades brasileiras mais populosas, como São Paulo, Rio de Janeiro, e Manaus. A cultura de jogar lixo em qualquer lugar e fazer dos rios e igarapés não faz parte da "qualidade" da educação...

                                                                  Cadê os peixes?
                                     As "Amazonas" no tempos dos igarapés
 
E isso?
 Sabe aquelas estranhas "coincidências". Essa foto tirada na nos rios de Manaus é semelhante a outra tirada lá na Ásia.

 Poxa, como Manaus é "chique", moderna e cosmopolita. Tem até rios e igarapés cheios de lixo e fezes iguais aos de São Paulo e Jacarta!
E a educação? E o futuro de nossos filhos?......

sábado, 16 de junho de 2012

MANAUS E MEIO AMBIENTE NA "ZONA FRANCA"


  
SOBRE PRESERVAÇÃO AMBIENTAL EM MANAUS

Certa noite, numa aula de Filosofia, ou de História do Amazonas - tenhos 15 turmas, mais de 500 alunos, entre duas escolas, não dá para lembrar de tudo -  sobre o fazer, a ação do homem, da sociedade, na solução de problemas e a busca por mudanças, quando um aluno questionou:
- "Professor, porque não é possível resolver o problema da falta de água na Zona Leste?"
As duas escolas em que trabalho ficam na Zona Leste. Deu vontade de rir da ingenuidade do aluno, e ao mesmo tempo lamentar pela alienação de toda uma população, que não percebe o que é tão visível: Não é verdade que falta água numa cidade banhada por duas dezenas de igarapés, alguns chegando a extensão de quarenta quilômetros. Muito menos na Zona Leste. Água tem! Mas está podre - poluída com lixo, fezes, urina, água sanitária, detergente, substâncias quimicas, criminosamente vindas de industrias do D.I.
A questão é: Qual é a água que está faltando na Zona Leste? É a mesma água poluída, cheia de fezes, que passa por um processo de limpeza caro, feito por uma empresa, para chegar através de canos até a nossa casa. É essa água que falta nas torneiras.
Há mais de vinte anos que observo o fracasso das campanhas anuais - semana do Meio Ambiente - principalmente nas escolas do municipio, SEMED: cartazes, danças, poesias, leituras, dramatizações. Não percebo mudanças nas gerações novas - os filhos dos meus alunos estão chegando nas escolas. Os igarapés viraram lixeiras mesmo. E virou uma cultura absurda.
A maioria esqueceu que água é alimento e não vivemos sem ele. Que os igarapés são fonte de vida e alimento - peixes vivem e se reproduz na água. De onde vem o peixe que comemos? De lagos e rios cada vez mais distante de Manaus.
NÃO FALTA ÁGUA EM MANAUS, MAS FALTA CONSCIÊNCIA.

domingo, 25 de março de 2012

MANAUS: IDENTIDADE CULTURAL E PRÉ-HISTÓRIA TARDIA

A descoberta do continente americano no final da Idade Média representou uma mudança na representação de mundo, que deixou de ser o centro do universo, abalando concepções dogmáticas da religião católica, que mandou para a fogueira os primeiros pesquisadores que tinha percebido isso. Mas não ficou por aí as surpresas e descobertas que o novo continente, que ficou conhecido pelo nome do cartógrafo Américo Vespúcio, “América”. As civilizações ricas e desenvolvidas dos Astecas, Incas, e as ruinas das cidades Maias, abandonadas na selva, se tornaram alvo fácil da conquista europeia, porque não tinha ainda inventado armas de fogo e herdado uma cultura de guerras de quatro mil anos, do império romano. O processo da conquista espanhola no continente americano se deu pela guerra, massacres e extermínios, que assegurou a posse da terra, abençoado pelo Papa, através do Tratado de Tordesilhas de 1492. E como um todo, países como a Inglaterra, França, e Holanda, enriqueceram – a acumulação do capital - e tornou possível a Revolução Industrial.
Por seu lado, os portugueses não tiveram a mesma sorte, no aspecto de riquezas minerais de culturas que dominavam a metalurgia. Pelo contrário, os povos do Brasil, apelido dados por franceses e holandeses por causa da árvore usada na produção de corantes, ou tinta vermelha, estavam em plena Idade da Pedra, o que seria a passagem do paleolítico para o neolítico, praticando uma rudimentar agricultura de raízes, completamente nus, lambuzados com urucum e jenipapo, usando porretes, arco e fecha, como armas, disputando em guerras intertribais as melhores terras, e crenças religiosas baseadas no animismo, também em transição para o xamanismo. Essa sociedade primitiva levou os europeus a pensar numa comparação, com a descoberta do paraíso bíblico perdido, do qual foram expulsos adão e Eva. Esse “paraíso” na verdade representa o que foi chamado de “Pré-História Tardia”.
É nesse contexto de atraso de milhares de anos de cultura, em relação ao Velho Mundo, na produção de conhecimento e tecnologia, que faço a abordagem dos mitos que foram construídos em torno do que chamamos equivocadamente de “Amazônia”, Amazonas e Manaus. Pois o processo da colonização obrigou por decreto, a imposição da cultura portuguesa, lançando os sobreviventes direto da pré-história tardia para o pré-capitalismo, e um capitalismo pouco compreendido na Amazônia brasileira. Há, portanto, um permanente conflito de identidade cultural, distorcendo e escandalizando, procurando negar o passado de um lugar como a cidade de Manaus.
Em primeiro lugar, aqui nunca teve mulheres guerreiras, muito menos aquelas gregas despeitadas de fato, pois não tinha um dos seios, daí apelidadas de “amazonas”. Assim começa nosso conflito de identidade nas cidades que surgiram da colonização portuguesa. Tapuios, isto é, índios destribalizados, mamelucos, cafuzos, portugueses, caboclos, pessoas vindas aos milhares do nordeste na época da borracha, negros escravos, em minoria, judeus, palestinos, japoneses, e hoje, haitianos, constitui a população “amazônica”. Até o momento em que era Capitania de São José do Rio Negro, rebaixada para a categoria de “Comarca”, durante o processo de independência do Brasil, não havia uma preocupação com cultura e identidade, origens. Na primeira a fase de enriquecimento, o tão aclamado “período da borracha amazônica”, os coronéis enriquecidos buscam se espelhar na cultura europeia, na arquitetura, nas artes, aterrando os igarapés, desmatando e modificando a geografia urbana de Manaus.
Com a implantação da Zona Franca, nova fase de riqueza e desenvolvimento, a burguesia chibante continua alimentando o gosto pela cultura europeia, filarmônica, festivais de ópera, de cinema, importando músicos, fizeram questão sediar os jogos da copa do Mundo de 2014. Por necessidade de uma construção histórica, o Amazonas e sua capital Manaus, busca identificar suas origens, hinos, relatos de bravura, mitos indígenas, e heróis. Em 1967, junto com a Zona Franca, a cidade de Manaus passa a adotar um “nome de Fantasia”, renegando seu significado indígena. Foi nesse mesmo ano publicado o livro “Topônimos Amazonenses”, onde o autor, Octaviano Mello, após brilhante e detalhada explicação sobre o significado da palavra indígena MANAUS, MANOA, MUNOUS, se refere as necrópoles, sepulcros, cemitérios, do povo Aruáqui, dos Manaus, e dos Barés. Como já tinha sido observado por Euclides da Cunha, e pode ser verificado no DICIONÁRIO DA LÍNGUA TUPI, de 1867 escrito por Gonçalves Dias, “mã” se refere a “saudade” e “manô” é “morrer”, Octaviano conclui que a palavra MANAUS é um superlativo que significaria “mortíssima”. Seria a tradução para a língua portuguesa de MANAUS. Ao contrário do que se afirma, Octaviano Mello recorre a uma interpretação de uma outra pessoa, escrevendo “conforme ensina Penafort,” procura um parentesco significativo em várias palavras hebraicas e no sânscrito, curiosamente colocadas entre aspas “.....” chegando a conclusão de que MANAUS é uma palavra feminina e plural, significando “Mãe dos Deuses”. De superlativo, a palavra Manaus vira plural e no feminino. Agora, como um povo tradicionalmente monoteísta pode legitimar uma palavra hebraica parecida com MANAUS, com um significado POLITEISTA? Como o sânscrito poderia levar a uma DEUSA, mãe de outros deuses, que não existe no panteão dos hinduísmo?Se MANAUS, não é superlativo, mas um plural, então significa realmente túmulos, necrópoles, cemitérios. E porque uma tribo teria um nome ou apelido desses? O que você me diz de uma tribo de “curubentos”, de “cabeças-chatas”, de “beiçudos”, de “macacos”? Brincadeira? Não! Essas tribos são os Kurubos, Cambebas, Botocudos e Caiapós. Por qual motivo uma tribo receberia um apelido tipo “coveiro” ou fazedor de túmulo, “gente dos cemitérios”? Por que tinha costumes funerários estranhos para os portugueses. Como o de enterrar seus mortos em grandes vasos funerários. Algumas tribos colocavam o morto em posição fetal, ou de cócoras, ou as cinzas e suas armas. E o que não falta nessa cidade são urnas funerárias indígenas, encontradas no centro história e embaixo das industrias montadas no Distrito Industrial. Por esse motivo a solução foi buscar um nome de fantasia: Mãe dos Deuses. Buscar um significado fora do contexto indígena, pois é o nome de uma tribo ou de necrópole dos Aruáqui, um povo mais antigo, transformando numa interpretação digna da mitologia grega, embora Hera, Juno, Isis, nunca foram mães dos outros deuses, lembra um trecho hilariante do livro “Galvez, Imperador do Acre”, de Márcio Souza, onde o Teatro Amazonas é visto pelos europeus amalucados como uma construção feita por extraterrestres no meio da floresta amazônica.Mas era preciso, buscar também, os heróis que representasse o passado de bravura do período colonial. No Maranhão doze mil Tupinambás se tornaram aliados dos Franceses. Fornecedores do Pau-brasil, para os “contrabandistas”, e “invasores” na visão dos portugueses, as tribos genericamente chamadas de Tupinambás lutaram até o extermínio. E nos confrontos dos tupinambás surge em 1619 a figura de um líder: Guaimiaba, o “Cabelo de Velha”. Na Capitania de São José do Rio Negro, de 1723 a 1727 acontece a festejada resistência e guerra da tribo dos MANAUS, e seu “grande líder” Ajuricaba, que pode ser traduzido por “enxame de abelha”, o “maribondo”. No litoral do Brasil colonial outro chefe indígena aparece com destaque na luta ferrenha contra os invasores portugueses: Cuhambebe, o líder antropófago que aparece no livro do aventureiro alemão Hans Staden. Sabe qual é o significado do seu nome? Algo como “que fala como Mulher”, algo depreciativo, por que ele era gago. Você já viu um “touro sentado”? Deve ser no mínimo engraçado, ou ridículo. Para encurtar a história: os paraenses não transformaram o “cabelo de velha” em herói. Mas Ajuricaba virou um herói do povo amazonense, ao ponto de sua imagem ser usada de uma forma subliminar por um dos políticos mais amados de Manaus – Amazonino Mendes - que assumiu o símbolo de uma abelha, uma “caba”, o “líder” Ajuri caba, em suas propagandas políticas. Ele tinha um projeto de construir uma estátua para o índio Ajuricaba no encontro das águas. Mas não teve apoio suficiente para o projeto. Mas você percebeu, que não é só os nomes das tribos, mas também os líderes das tribos, eram nomeados com nomes injuriosos ou ridículos? Ao contrário da tribo dos Manaus e seu chefe “casa de cabas”, os MURAS, que participaram da cabanagem ao lado dos “cabanos”, não foram considerados heróis para representar a bravura do povo amazonense, do tempo da conquista, “apoiada ao canhão”. Enquanto o estado vizinho do Pará relembra os cabanos como heróis, no Amazonas são os Legalistas. A estrada que leva aos Muras, tem o nome de seu maior inimigo: Ambrósio Aires. É Confusa a ideologia que busca representar o Hino do Amazonas – pois as tribos indígenas não tinha canhões. Os portugueses sim. Então não temos heróis nos inimigos dos portugueses, como a tribo dos MANAUS, e seu líder “muitas abelhas” – Ajuri Caba. Será por tudo isso que que o “amazonense é desfibrado” e confuso? Tupi ou não Tupi, eis a questão!
Em nenhum lugar do Brasil foi tão desastrosa a imposição da cultura portuguesa como no Amazonas. O “Diretório dos Índios” estabeleceu a obrigatoriedade da língua portuguesa, nomes português nas vilas e missões religiosas, vestir roupa e moradias com divisões – as moradas eram coletivas – e o pior de tudo, adotar a religião dos conquistadores. O que havia de errado com os costumes, a cultura dos povos da região? Andavam nus, tinham sua religião, sua maneira de trabalhar, seus alimentos tradicionais, festas fúnebre e rituais de passagem para os jovens. Recentemente, num programa de repercussão nacional, uma garota – uma adolescente de Manaus - de onze anos está grávida. Parece um absurdo, algo novo, um sinal dos tempos de hoje. Não é bem assim. Há quarenta anos, na década de sessenta, quando eu era menino aqui mesmo em Manaus, vi uma garota de onze anos gravida. Não há nada de surpreendente nisso. Na cultura das tribos da Amazônia as meninas viram mulher com a primeira menstruação e casam cedo. Afinal, a expectativa de vida na floresta e baixa, uma média de trinta anos – onde uma fratura exposta , uma picada de cobra, uma mordida de animal, ser devorado, se envenenar ou morrer de parto, são fatalidades que justifica essa pressa de viver e se reproduzir. Assim como nas tribos casar é pegar a rede e ir morar na casa da família da mulher, também em pleno século vinte e um, casar é viver junto. Como numa sociedade tribal, e até na feudal agrícola, quanto mais filhos tiver, é melhor, porque o trabalho é manual, a maioria da população não entendeu e nem sabe o que é mecanização ou automação da produção industrial. A maioria pensa como se estivesse no meio do mato, ou na Idade Média, gerando filhos que terão dificuldades de competir numa sociedade mecanizada, onde o trabalho é cada vez mais especializado. Aqui no Amazonas ainda estamos agindo como na Pré-história Tardia.
Apesar do Parque Industrial multinacional, o fantasma da Pré-História tardia ronda o Amazonas. Por atavismo, pois o tabaco, a maconha, a cocaína, a folha da chacrona e o mariri, o peiote, eram usados em praticas rituais religiosas dos povos pré-colombianos, nos Andes e na selva amazônica. A juventude se identifica cada vez mais com a maconha e a cocaína. Por falta de rituais de passagem, próprio das sociedades tribais, fumar Skank significa para garotos de 13 aos 16 anos, virar “homem”. Como as meninas que engravidam aos 11 anos, também os garotos numa visão das sociedades tribais, se consideram adultos, ignorando a norma formal de ser considerado “de menor”, e irresponsável pelos seus atos até os 18 anos. É preciso ser assaltados por esses “menores”, para entender o grau de violência e selvageria dessas “crianças”, sob o efeito de “baseados”, se acreditando como “guerreiros”. Como essa meninada não trabalha e se tornam viciados, as vezes a “família”, nem percebe que o “menor” está assaltando para pagar o traficante. Por que não pagar é morte na certa. Dos 989 assassinatos de 2011, quase três por dia, são execuções de adolescentes por calotes de droga. Para completar, o aniversário da cidade também é uma invenção curiosa: juntaram o dia e o mês, 24 de outubro, e associaram a fundação da fortaleza de São José do Rio Negro em 1669, como se fosse uma única data. ANEXO 1 – Do livro “TOPÔNIMOS AMAZONENSES” (Nomes das cidades amazonenses, suas origens e significados), de Octaviano Mello, Edições do Governo do Amazonas, Manaus 1967, “MANAUS”, páginas 31 até 37 (DIGITALIZADO DO ORIGINAL):





“CIDADE DE MANAUS






ATÉ O ANO de 1795, a zona da foz do rio Negro ainda fazia parte do histórico Reino dos Aruaqui, cujas fronteiras envolviam quase toda Guiana Brasileira de vastíssimas proporções. Esses notáveis ameríndios, valentes e ciosos dos seus domínios seculares, depois de desafiarem o poderio português, fizeram as pazes com este povo, graças a habilidade do Padre Antônio Vieira. Foi esta nação, já amiga das tropas do Capitão Pedro da Costa Favela, que em 1668, o conduzira das margens do rio Urubu ao local onde atualmente assenta a formosa Capital do Amazonas. Conhecendo a ótima situação da localidade, à margem esquerda do rio Negro, a montante da sua confluência com o Solimões, o Capitão Pedro Favela dá os seus informes a António de Albuquerque Coelho de Carvalho, Capitão Mor do Pará, que ao tempo, muito se interessava pelos destinos da região. A conveniência de uma fortificação neste rio se impunha logo para assegurar os domínios da coroa portuguesa nos sertões e garantir a conquista do elemento nativo.
O local indicado por Favela estava em condições de receber as peças da artilharia portuguesa. O Capitão Mor designa o Capitão Francisco da Mota Falcão, oficial português, para construir essa fortificação, que no ano de 1669 foi erigida, tomando o nome de Fortaleza de São José do Rio Negro. Lançada esta semente fecundou sob o amparo, dedicação e influência do Sargento Guilherme Valente, que habilmente conseguiu reunir em torno destes fundamentos as nações mais prestigiosas da região : Manau, Tacu, Baré, Possé e Baníua, que se agruparam formando a Aldeia de São José do Rio Negro. Depois da fundação da Capitania de São José do Rio Negro, nome herdado da fortaleza e do rio, no fim do século XVIII sendo a aldeia rebaixada à categoria de lugar, tomou o nome de Lugar da Barra do Rio Negro, lembrando também a linha de separação das águas do rio Negro, no encontro com o Solimões formando o Amazonas. No decreto de 25 de junho de 1833, artigo 4.°, do Governo do Pará, que substitui a denominação da Comarca de São José do Rio Negro pela de Alto Amazonas, com apoio no artigo 3.º do Código Criminal do Brasil, vem o Lugar da Barra do Rio Negro incluído como Termo e sede da Comarca, com a denominação de Vila de Manaus. No entanto, pela Lei n.° 146, de 24 de outubro de 1848, da mesma Província, foi a Vila de Manaus elevada de categoria com o nome de Cidade da Barra do Rio Negro. Instalada a Província do Amazonas, em 1852, da sua Assembleia, em sessão de 21 de agosto de 1856, o deputado João Inácio Rodrigues do Carmo apresentou um projeto mudando o nome da Cidade da Barra do Rio Negro para Cidade de Manaus. Em 28 do mesmo mês e ano subiu à sanção do Presidente da Província, Dr. João Dias Vieira, sendo convertido em Lei n.° 68 de 4 de setembro de 1856. Não consta dos Anais da Assembleia Provincial, uma só palavra para justificar a mudança do nome da capital da Província, para Manaus, e os Relatórios dos Presidentes silenciam também sobre o caso, aumentando a curiosidade do investigador. O projeto desta mudança de denominação, ao que parece, não despertou o menor interesse no seio da Assembleia, onde passou sem destaque no curto espaço de sete dias e, ainda, sem a honra de um registro nos respectivos Anais.
Ocupemo-nos agora da palavra Manaus e também da sua significação, cujo assunto não foi ainda bem esclarecido pelos amazonólogos, não obstante o longo decurso de quase um século. Existem opiniões assegurando que a denominação da formosa capital amazonense seja oriunda de Manau, célebre nação indígena que habitou e preponderou no rio Negro, tendo sua corte na antiga aldeia de Bararuá ou Pararuá, lugarejo, que em 1758, foi elevado à Vila com a denominação de Tomar.
Os membros dessa poderosa nação, ao lado de outras também notáveis, concorreram para a fundação de Manaus e foram os fundadores da Aldeia de Mariuá, atualmente Cidade de Barcelos e de várias povoações conquanto umas decadentes e outras desaparecidas, tiveram seu fausto e nome na história da Capitania e Província. Dentre os principais tuixàuaitá (chefes) dos Manaus, destacam-se : Camandri, por ter sido o chefe da histórica Aldeia de Mariuá, ao tempo em que ali se instalou a missão dos carmelitas, e Ajuricaba (Aiuricáua), que libertou numerosos índios escravizados, movendo urna violenta guerra aos portugueses, que no princípio do século XVIII, faziam este ingrato comércio. Ajuricaba afinal, preso, depois de agrilhoado e posto a bordo ao rumo do Pará, venceu atirando-se espontaneamente ao rio Negro, cujo seio profundo tanto preferia quanto repudiava aos desalmados conquistadores da sua região imensa e verde. Foi dessa valente nação desaparecida pela sua civilização completa, depois de tantos feitos heroicos, na época dos exploradores que, segundo afirmam uns, teve origem a denominação da capital do Estado. Outros porém, opinam pela sua procedência de uma lenda maravilhosa emergida da existência de um rei — El Dorado — cujo nome legou aos seus excepcionais domínios, que tinham por capital a cidade de Manôa, situada entre os rios Negro e Branco, no Amazonas, e Essequibo, na Guiana Inglesa, na margem ocidental da Lagoa Parima.
Alguns escritores dão a cidade de Manôa ou Macatôa, como situada à margem do Lago Amacu, na mesma região. Com a questão do Pirara, passou o grande e rico território do El Dorado a pertencer à Inglaterra, na Guiana Inglesa, subtraído ao Amazonas. Manôa lendária, afigurava-se uma estrela de primeira grandeza engastada num céu de ouro; tudo nessa cidade era de ouro e prata; os tetos dos edifícios eram dourados o até o rei pulverizava-se com ouro, todas as manhãs, de onde vem El Dorado : O homem de ouro. Nem Manco Capac, fundador do Império dos Inças, que construiu um trono ao ar livre, iluminado por um sol artificial, de ouro, para confundir-se com o "Filho do Sol", que os Quíchuas adoravam, tinha tanta riqueza e esplendor. A lenda correu vertiginosamente os múltiplos setores da terra. E mais ainda repercutiu pela desmedida ambição do elemento europeu de toda casta, por esses tesouros, que aliás não são de todo fictícios, porquanto a região do Pirara, onde situam o El Dorado é riquíssima em ouro e pedras preciosas.
Desde 1531 os exploradores portugueses e espanhóis vinham à cata do El Dorado. Depois seguiram -lhes holandeses, franceses e ingleses. Os próprios companheiros de Martim Afonso suspeitaram, baldadas as inúmeras tentativas para descobri-lo nos sertões de Piratininga, que essa terra tão rica devia ser o Império dos Inças. Para lá se dirigiram de bandeira içada e, segundo opiniões, volveram carregados dê metais preciosos; não de Manôa, mas dos povoados e aldeias por eles saqueados. Manôa era a Cidade dos Sonhos Dourados.
Prosseguindo daremos ainda outra fonte de origem e, em conclusão a significação da palavra Manaus. Sabe-se que dominara a região, outra nação indígena mais numerosa e importante que a dos Manau, muito anterior a esta e a construção da Fortaleza de São José do Rio Negro e dela existira uma necrópole antiquíssima, que fora encontrada nos arredores da Fortaleza. Esta nação foi a dos Aruáqui, que fora expulsa do território pelos Mura, índios ociosos banidos do Peru na época da conquista espanhola ao Império dos Inças. As referências históricas se encadeiam, se justapõem para chegarmos ao conhecimento desta nova fonte de origem da palavra, também aceitável, por isso que ousamos incluir no estudo toponímico de Manaus. As várias nações que compunham o grande Império dos Incas tinham sistemas próprios para construção dos seus mausoléus e estes uma denominação especial, conforme a região em que habitavam aqueles íncolas. Os Aimará, povoadores das altiplanícies do Titícaca, chamavam "chulpas" aos mausoléus, que construíam de pedras em forma de torres. As tribos dos Taláue, Mochica, Moquihuáia, e Chango, habitantes da cosia do Pacífico, no Peru, chamavam "Munous" aos sepulcros que não iam além de um montículo, à semelhança de uma sepultura recente, nos nossos atuais cemitérios. Quantos montículos semelhantes a "Munaus", dos Inças, não foram feitos pelos exploradores do El Dorado, tentando descobrir as riquezas de Manôa ?. . .
É demais sabido que os primeiros exploradores do rio Amazonas vieram do Peru, transpondo a Cordilheira dos Andes e numerosos rios, figurando dentre es primeiros, como notáveis, Gonçalo Pizarro, Francisco Orellana, Pedro de Ursúa com as suas célebres expedições em meados do século XVI, e tantos outros. Também de lá vieram acossados pelos conquistadores espanhóis os Mura ou Buhura que descendo o rio Madeira se espalharam pelas margens do Amazonas e Solimões, contribuindo com ataques o roubos para o desaparecimento dos Aruáqui, exterminando o seu reino e apropriando-se das suas terras. O grande Reino dos Aruáqui, como chamavam os portugueses, abrangia uma região imensa, entre o norte dos rios Amazonas e Negro e o sul do Essequibo, na Guiana Inglesa. Dentro dessa enorme área, à margem esquerda do rio Negro, estava situado o local que deveria ser a capital do Amazonas. Com os exploradores ou com os Mura ou antes mesmo destes, por intermédio de ameríndios fugitivos das terras incaicas, atravessando os Andes, também não teria vindo o nome munaus para ser transmitido à brava nação indígena e ao local da necrópole dos Aruáqui, onde só munaus existiam, ? É possível e, em apoio estão os estudos das antiguidades do Amazonas demonstrando a existência de uma necrópole encontrada nas cercanias da Fortaleza de São José do Rio Negro, a cujos munaus o eminente Barbosa Rodrigues confunde chamando "chulpas", quando na verdade estas são feitas de pedra em forma de torres, como ficou dito, e aquelas apenas uns montículos igualmente aos que faziam os Aruáqui, os Manau e os Baré, antes e depois de instalada a Fortaleza de São José. Os documentos fotográficos da época de Manaus em formação nos transmitem ainda a perfeita semelhança das sepulturas locais, como os munaus de além Andes.
Munau e Manoa, encarados sob o ponto de vista indígena, são sinônimos e talvez a mesma palavra, deixando-nos a considerar apenas as alterações gráficas. Munaus designa uma necrópole onde existem restos ou cinzas de alguém que morreu; de alguém mais que morto. Provém do inça da costa do Pacífico. Manôa, vem do sânscrito para o nheengatu, como veremos, e aqui no verbo umanu ou simplesmente manu, morrer, seguido do sufixo a, que na língua se pospõe às palavras, quando se deseja dar força ao vocábulo, isto é, levando-o ao superlativo. É sobejamente sabido que o nativo dificilmente emprega o ó aberto e o ô fechado, mas, sempre u, não obstante alguns indianólogos usarem invariavelmente o ô e o ó como se na língua não houvesse o fonema u : ôca, carôca, manô, quando na verdade se pronunciam, uca, caruca, manu, traduzidas em, casa, tarde, morrer. Por este motivo alterar a grafia de manu, para manô, que no grau superlativo escreve-se : Manua ou Manôa, mais que morto, mortíssimo.
A significação do nome Manaus, estaria por este lado puramente indígena, em grande contraste com o desenvolvimento e beleza da cidade : Mortíssima. Todavia, estudada a palavra como originária do sânscrito, conforme ensina Penafort, verifica-se que Manaus é uma das formas femininas de Manauh, Manou, Manu, Mani, que são por sua vez "abreviações do nome hebraico Monouchyak ou Manouchia, Machiahh ou Machya, Machyaka, donde veio a palavra indo-tupi, Houcha, homem ou gênio nascido de Manou, Manu ou Mani, significando Deus dos índios". Continuando, diz : "Maná-y-i quer dizer — mulher de Manu; portanto, Maná, Manacá, Manau, Manay, são formas tupi oriundas do radical feminino sânscritoman, maná".
Logo, o homem, gênio ou deus dos índios sendo, pelo lado paterno, filho de Manou, Menu ou Mani, e, uma vez que Manau, Moná, Manacá, Manay, são formas femininas; e que Maná-y-i quer dizer mulher de Manu, deduz-se : O homem, génio ou deus dos índios é, pelo lado materno, filho de Manau nome que no plural — Manaus — foi concedido à capital do Estado do Amazonas. Manaus, quer dizer : Mãe dos Deuses.
A palavra Manaus tem sido graficamente representada como vai a seguir : Manou, Manáu, Manei», Manaó, Manahó, Manáve, Manávi, Manúa, Monouh, Manôa, Manáos, Manáus e Manaus.
Os seus nomes poéticos também são em profusão. Todo espírito culto, observador e amigo do belo, desejou gravar-lhe um nome pomposo, que se fundisse bem com sua origem, progresso e beleza. Assim, Manaus tem sido cognominada: "Terra dos Bares", "Terra dos Manaus", "Terra Cabocla", "Manôa", "Revelação da República", "Rainha do Rio Negro", "Rainha das Selvas", "Soberana das Selvas", "Capital da Floresta", "Cidade Alteza", "Cidade Risonha", "Cidade Sorriso", "Cidade Menina". Manaus, na sua consubstanciação, quer dizer : Mãe dos Deuses.”



(TOPÔNIMOS AMAZONENSES, OCTAVIANO MELLO, páginas 31 até 37, da edição de 1967)





ANEXO 2 – DO livro HISTÓRIA DO AMAZONAS, 1ª Série do Ensino Médio, de Francisco Jorge dos Santos, Leitura Complementar nº 9: “O Imbróglio do Aniversário de Manaus”, página 161, edição de Junho de 2010.




IMBRÓGLIO DO ANIVERSÁRIO DE MANAUS




"Salve 24 de Outubro de 2005, data que Manaus completa 336 anos de Fundação!,". É feriado no município de Manaus; quase, ninguém formalmente trabalha. No entanto, o cidadão comum mal sabe que essa exclamação é oriunda de uma verdadeira mixórdia, pois se trata de uma mistura de tempos, eventos e significados que rigorosamente nada têm a ver uns com os outros.
Começo pela "fundação" da cidade. Ainda não se conhece nenhuma evidência documental ou qualquer outra, que autorize afirmar que o governador e capitão-general do Maranhão e Grão-Pará, António de Albuquerque Coelho de Carvalho (1667-1671), tenha ordenado ao capitão Francisco da Mota Falcão a fundar a cidade de Manaus. No máximo, esse militar teria ordens para edificar, em 1669, um estabelecimento militar que ganhou o ostentoso nome de Fortaleza de São José da Barra do Rio Negro. Do mesmo modo, até agora nada corrobora que essa edificação ocorreu mesmo nesse ano. Porém, se for verdadeiro, qual o mês, qual o dia em que o ato da fundação teria ocorrido?
Normalmente atos dessa natureza são solenemente registrados por autoridades do poder público. Por exemplo: a fundação do Forte do Presépio - núcleo remoto da cidade de Belém - teve origem na ordem expressa no Regimento de Francisco Caldeira Castelo Branco, no qual se ordenou que fosse erigida uma fortificação, cuja fundação data de 12 de janeiro de 1616; outro exemplo, é o da Fortaleza de São Joaquim, edificado na confluência dos rios Tacutu e Branco, cuja construção foi ordenada através da Provisão Régia de 4 de novembro de 1752, mas só iniciada as obras em 1775, já no governo do capitão-general João Pereira Caldas.
A confusão continua. Em 1969 as autoridades constituídas do Município de Manaus e do Estado do Amazonas festejaram o aniversário de 300 anos da cidade de Manaus. Porém, em 24 de outubro 1998 as mesmas autoridades comemoraram o "Sesquicentenário de Manaus ", isto é, os 150 anos da cidade de Manaus. Pelo festejo anterior dever-se-ia estar celebrando pelo menos os 329 anos da cidade.
Hoje, comemoram-se os 336 anos da cidade. Tentarei explicar essa confusa trajetória. Os antigos cronistas1 e os autores mais recentes estão de acordo de que a Fortaleza da Barra do Rio Negro foi fundada em 1669, mesmo sem uma documentação comprobatória. Em volta dessa edificação militar se desenvolveu um verdadeiro "curral de índios", local onde era amontoado o produto das caçadas humanas, transformado em plantel de escravos à espera do momento adequado para serem transportados para Belém.
Além do "curral de índios " que se compunha de uma população transitória, no entorno da Fortaleza também se desenvolveu um aldeamento composto principalmente pelos índios Baníuas, Barés e Passés oriundos dos rios Içana, Negro e Japurá, que passaram a viver, na condição de índios aldeados. O conjunto Fortaleza da Barra e o seu entorno em 1790 abrigou a sede da Capitania do Rio Negro no governo de Lobo d 'Almada (l 788-1799) com a denominação de Barra do Rio Negro. No entanto, oito anos mais tarde perdeu essa condição, sendo dessa forma rebaixada à categoria de um simples Lugar, pois a sede do governo voltou a ser a vila de Barcelos. Voltando, entretanto, à condição de sede do governo por volta de 1808, e assim se manteve até o fim do período colonial.
Com a incorporação do Estado do Grão-Pará e Rio Negro ao Império brasileiro, em. 1823, a Capitania do Rio Negro foi transformada mima simples Comarca da Província do Pará; não obstante isso, a Barra do Rio Negro continuou sendo a sede dessa jurisdição. No início da década de 1830, houve uma mudança no Império em termos político-administrativo; por conta disso, a Comarca do Rio Negro mudou de denominação, passando a ser chamada de Comarca do Alto Amazonas, cuja sede foi novamente, em 25 de julho de 1833, elevada a condição de Vila com a denominação de Manaus.
Em 1848, a Assembleia Provincial Paraense, através da lei Nº 145 de 24 de outubro desse ano, elevou Manaus à categoria de Cidade com a denominação de Nossa Senhora da Conceição da Barra do Rio Negro. Somente pela Lei Nº 68, de 4 de setembro de 1856, de autoria do deputado João Ignácio Rodrigues do Carmo, foi que a cidade passou a ser definitivamente denominada de Manaus.
Portanto, temos agora as chaves para as duas idades da cidade de Manaus. A da fundação da Fortaleza da Barra do Rio Negro, 1669; e a elevação de Manaus à categoria de cidade, em 24 de outubro de 1848. Na primeira, mesmo com a incerteza, tem-se o ano; na segunda, tem-se o dia o mês e um ano; entretanto, ambas não correspondem à verdade histórica que se procura acerca do nascimento da cidade.
Se se contar da fundação da Fortaleza, Manaus completaria, hoje, 336 anos de idade; se se contar da elevação à categoria de cidade, Manaus teria, hoje, 157 anos. Para pôr fim a essa situação desconfortável, alguns poucos preocupados com as festas solenes do evento patrocinadas pelas verbas públicas resolveram "franksteinear" a data do aniversário natalício da cidade, passando a ser contado, a partir de 24 de outubro de 1669. O dia e mês de um evento e o ano de outro. É is o imbróglio.
Na realidade inventaram um dia de feriado ao arrepio da História, quase característico daquilo de o historiador inglês Eric Hobsbawm definiu como ''tradição inventada", que seriam as práticas, muitas vezes tácitas, que visam a inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição. Neste caso o subentendimento cedeu ao escancaramento. Virou lei.
Não sei se esse tipo de questionamento leva a algum lugar. Em todo caso, já que as elites que dominam o poder público manauense e amazonense necessitam tanto desses tipos de eventos cívicos para exercitarem seus discursos carregados de nativismo piegas, deveriam criar outros feriados, a exemplo da elite política nacional que festeja o Descobrimento do Brasil, em 22 de abril e a Independência, em 07 de setembro. No caso de Manaus, uma festa para a Origem de Manaus (não para fundação), e outra para a Elevação de Manaus à categoria de Cidade. Assim tudo fica "bonitinho dentro do vidrinho " (bordão de um comunicador local), e se põe fim essa embrulhada. Contudo, o evento da Origem necessita de pesquisas, que o poder público deveria incentivar.
Finalmente, ainda nessa linha de raciocínio "cívico ", não caberia ainda, a criação do feriado comemorativo ao Descobrimento do Amazonas: o dia em que o bergantim do espanhol Francisco de Orellana penetrou no rio Amazonas?"



-SANTOS, Francisco Jorge dos. Artigo publicado em CD-ROM no Jornal do Commercio nos dias 22, 23 e 24.10.2005, em Manaus.

sábado, 28 de janeiro de 2012

MANAUS: A MÃE DE QUEM?AS ORIGENS INDIGENAS DE UMA CIDADE INVADIDA

Imagine uma comunidade tribal, que mal sabia produzir o fogo, não conhecia a metalurgia, não tinha atingido a Idade dos Metais, não tinha escrita, vivendo da coleta, da caça e da pesca, praticando uma agricultura de coivara, cortando e queimando a mata, para plantar mandioca. Isso mesmo, estou me referindo as tribos da Amazônia brasileira, em especial a um grupo tribal que se denominava “manaós” ou Manaus, que dominavam a região e resistiram ferozmente a invasão portuguesa. Como a maioria dos povos que se dividiam em cinco, ou sete nações que habitavam pindorama na época da colonização portuguesa, com suas culturas, línguas, e costumes – como o da antropofagia – e crenças religiosas, quase todos os grupos, baseada no animismo ou no xamanismo. Algumas tribos acreditavam em seres que viviam na água, nos rios , na mata, e tinham um xamã, que nas tribos de língua tupi, chamavam de Pajé. Essa era a religião dos povos indígenas do Brasil pré-colonial, portanto, também da tribo manaós.
Então como é possível dizer que Manaus, que era uma tribo com todas essas características, significar “Mãe dos Deuses”? Que megalomania levou a invenção desse nome que invoca os deuses gregos? Se a maioria dessas tribos passaram do xamanismo para o cristianismo, como poderia existir a significação do que é “deuses” – como existiu na complexa mitologia grega?
De quais deuses, Manaus era a mãe? Afinal, qual seria o significado do nome dessa tribo inimiga mortal dos portugueses? Primeiro, é preciso esclarecer , as tribos indígenas do Brasil eram denominadas por nomes ou apelidos, pelas suas características culturais, ou pejorativas, quando nomeadas pelos inimigos. Assim, quando os portugueses aportaram no litoral brasileiro, tiveram contato com dois grupos inimigos, que estavam em guerra por território: os Tupiniquins, e os Tupinambás. Não eram duas tribos, uma denominação, mas como se diferenciavam entre “verdadeiro” e, o “falso”, nesse caso, era o grupo tupinambá. Daí segue que as tribos podiam ser tupiniquins ou tupinambás. A história registra a “amizade” portuguesa com os tupiniquins, e o extermínio dos tupinambás. E como eram os nomes das tribos? Muitas ficaram conhecidas só pelos apelidos, na maioria das vezes pejorativos, e até ofensivos.
Vejamos alguns exemplos: BOTOCUDOS, porque usavam nos lábios um pedaço de madeira – uma “botoca” – como podemos observar no cacique Raoni, de uma tribo do Xingu. O mesmo aconteceu com os POTURUS, homens e mulheres usam também um pedaço de madeira nos lábios – poturu é o nome do enfeite. Os CAIAPÓS, foram assim denominados por inimigos, pois esse nome significa “macaco” do mato. Os KUIKUROS, tem como significado um tipo de peixe do Xingu. Os temidos caçadores de cabeça MUNDURUCUS, talvez fosse um apelido vindo de urucum, pois eles tinha o corpo todo pintado com listas verticais. As tintas dessas pinturas era jenipapo e o urucum, que tinha também o efeito de repelente. Os IANOMAMIS, dizem que esse nome significa “homens verdadeiros”, ou seja, eles são HUMANOS, GENTE, o que não impediu o apelido de “macacos brancos” pelos inimigos.
Então, Cara Pálida, como surgiu essa estória de que a nome dessa tribo, os “ Manaus”, significa Mãe dos Deuses? Qual é o fundamento dessa invenção? Euclides da Cunha, quando esteve no Amazonas, observou que os nomes de algumas tribos tinha algo de triste, melancólico. E realmente há algo curioso como Baré, e boré. O fato da palavra manaós ou Manaus, ter a raiz semelhante a MANA, que nos remete, em várias línguas, a um significado místico relacionado aos mortos, como os MANES , ou com uma energia chamada de MANA, nas tribos do Caribe, ao MANU oriental, e MENTE ou MENTAL. Finalmente, tem a palavra MANITU, “o grande espirito”, vindo de algumas tribos americanas. Talvez tenha sido dessa ultima palavra que algum espertinho associou ao nome dos MANAÓS: se é O GRANDE ESPÍRITO, logo, só pode ser a MÃE DOS DEUSES.
Mas há o outro lado da moeda. Ter um nome indígena não é aconselhável quando o significado é desconhecido. Cidade Caiapó, por exemplo, seria na verdade, Cidade dos Macacos. No caso de Manaus, as urnas funerárias encontradas no centro histórico, pois a cidade foi construída, inicialmente, em cima de cemitérios indígenas, aponta para um significado sombrio e triste para a tribo dos manaós: coveiros, fantasmas, espíritos..., que poderia significar CIDADE MAL ASSSOMBRADA, CIDADE DOS MORTOS, ou dos CEMITÉRIOS – hoje, com certeza é a cidade das invasões.
Outra questão intrigante é porque uma vila, mais tarde cidade portuguesa, foi denominada com o nome da tribo inimiga dos Manaos? Homenagem ou deboche? Para esclarecer e questionar as razões da escolha dessa denominação, vou reproduzir uma crônica, um texto, que li pela primeira vez publicado num jornal, pois hoje está nas páginas do livro “História do Amazonas” de Francisco Jorge dos Santos:

A PROPÓSITO DO NOME CIDADE DE MANAUS: "ÍNDIO BOM É ÍNDIO MORTO"
"A cidade de Manaus poderia ter várias datas de aniversários. Poderíamos contar a partir de 1669, ano da construção de um fortim que ficou conhecido pelo pomposo nome de Fortaleza de São José da Barra do Rio Negro, ou de todas às vezes que se trocou de predicado ou de função o referido sítio demográfico (...).
Em 1848, pela lei nº 145 de 24 de outubro, da Assembleia Provincial Paraense a Vila de Manaus foi elevada à categoria de Cidade com o nome Nossa Senhora da Conceição da Barrado Rio Negro. Somente pela Lei nº 68, de 4 de setembro de 1856, de autoria do deputado João Ignácio Rodrigues do Carmo, é que a cidade passou a ser definitivamente denominada de Manáos.
Não é idade da cidade que nos interessa neste momento, mas sim, as razões que envolveram o seu apelido: Manáos (Manáus ou Manaus, uma questão de grafia), pois sabe-se que tal denominação veio da nação dos índios Manaus que constituíam um dos grupos étnicos mais importante da Amazónia no período colonial. Curiosamente, na época em que a cidade foi registrada oficialmente com esse nome, estava, sendo inaugurada a historiografia brasileira, esta portadora de uma carga anti-índigena muito pesada, da qual fazia parte Francisco Adolfo Varnhagen, que defendia a ideia de se empregar a força bélica contra os índios para "civilizá-los". Não menos curioso foi o fato da própria Assembleia Legislativa Provincial do Amazonas decretar, em 1852, a escravidão indígena por dez anos a partir do seu recrutamento. Rezam os primeiros artigos da eufêmica peça legislativa: "Art. 1º Fica livre a todo morador poder ir contratar a trocar de indígenas bravios com os principais nas nações selvagens; Ar t. 2º Feita a troca, o indivíduo apresentar-se-á com os índios perante o Juiz de Paz mais vizinho para assinar um termo de educação por espaço de dez anos ".
Ora, quais razões levaram um deputado elaborar um projeto para homenagear uma nação indígena em uma época em que intelectuais e autoridades ainda cultivavam as máximas coloniais, por exemplo: "que a bestialidade dos índios ultrapassa a de qualquer animal", ou que os índios eram "declaradamente seres inferiores, naturalmente preguiçosos e dados aos vícios" (Leonardi, 1996. p. 20 e 21). Mais tarde o nome da cidade foi condenado pelo deputado A. C Tavares Bastos. Dizia ele: "descobriram para a capital do Alto Amazonas o nome bárbaro de uma tribo já esquecida ". No mesmo ritmo Euclides da Cunha emite a sua opinião: "há uma onomatopéia complicada e sinistra nesta palavra, feita de sons melancólicos dos borés e da tristeza invencível do bárbaro " (Jobim, 1957. p. 185-186).
Mais patético ainda, é constatar-se que: "não consta nos Anais da Assembleia Provincial, uma só palavra para justificar a mudança de nome da capital da Província, para Manaus, e os Relatórios dos Presidentes silenciam sobre o caso (...). o projeto desta mudança de denominação, ao que parece, não despertou o menor interesse no seio da Assembleia, onde passou sem destaque no curto espaço de sete dias e, ainda, sem a honra de um registro nos respectivos Anais." (Mello, 1967).
O autor do projeto para mudança de nome da jovem cidade, para Manáos, talvez tivesse conhecimento de que nação dos Manaus habitou as duas margens do rio Negro, desde a foz do rio Branco até a ilha de Timoni e constituíram uma verdadeira barreira humana, impedindo que os portugueses penetrassem a região de seus domínios na primeira metade do século XVIII. Mas, foram derrotados pelas tropas militares lusas, ficando então livre o acesso às investidas sertanistas portuguesas todo médio e alto rio Negro. O autor também deveria saber que os Manaus, já reduzidos e convivendo em aldeamentos lusitanos, em 1757promoveram uma série de levantes no rio Negro, envolvendo os aldeamentos de Dari (Lamalonga), Bararoá (Thomar), Caboquema (Moreira) e teriam como próximo alvo, agora em confederação, Mariuá (Barcelos). Tal movimento de rebeldia, estremeceu novamente o domínio lusitano na região. Porém, mais uma vez, foram sufocados pelas tropas de guerra coloniais portuguesas.
"Os Manaó resistiram a invasão cie seu território com armas na mão, até serem completamente varridos do mapa (...). No inicio do século XIX, Martins (1819) ainda encontra um pequeno núcleo dos Ore-Manaó ou Ere-Manaó na margem esquerda do rio Padauiri. Hoje, não sobrou nenhum para contar a história, desconhecida pela população da cidade que herdou o seu nome. " (Freire, 1993/4, p. 169).
Tudo indica que João Ignácio R. do Carmo também conhecia essa história, uma história maldita para as autoridades constituídas, que a esconderam da população manauense por ocasião do "batismo legal" da cidade, em 1856. Mas, que devem tê-la aceito em nome da proposição etnocentrista e etnocida, de que "índio bom é índio morto ".
SANTOS, Francisco Jorge dos. Artigo publicado no Jornal do Norte, em Manaus,
24 de outubro de 1996.



domingo, 24 de julho de 2011

MANAUS, TERRA DOS IGARAPÉS E ÁRVORES COLOSSAIS

A cidade de Manaus se destaca, além das belezas naturais que ainda existe, pelas estranhas sincronicidades, isto é, coincidências, e fatos pouco convencionais. Uma cidade que começa sendo construída em cima de cemitérios indígenas – a “fortaleza” de barro, o prédio da Prefeitura, a linda praça que fica em frente – outras praças como da “Saudade”, onde existiu o Cemitério São José, aberto na época da grande epidemia de varíola em Manaus. Mal assombrada pelos massacres das tribos indígenas vítimas dos invasores portugueses, que começaram na região a partir de 1665 no Rio Urubu, sob o comando do sanguinário Pedro da costa Favela.
Assim, Manaus se caracteriza também, pelos manes, as almas, dessa região de cemitérios. Ao contrário das denominações românticas e açucaradas para atrair turistas europeus, a palavra MANAU nos remete aos “manes” dos mortos , ao “mana” produzida pelos humanos, que alimenta a Natureza – a única coisa útil que fazemos em troca de nossas existências miseráveis. Daí o medo e o respeito que os índios tinha desses lugares, levando os Portugueses a construir nessas regiões para afugentar os nativos.
O desprezo pelos indígenas é muito claro e evidente em nossa região. Como é fácil descobrir, o ultimo reduto dos Muras, que participaram da cabanagem ao lado dos negros, dos caboclos, contra a elite lusitana da Amazônia, fica na região de Autazes. Sabe como é o nome da estrada que leva até os Muras? Ambrósio Aires! O grande inimigo dos cabanos. O passado indígena de Manaus deve ser esquecido também. Recentemente o secretário de educação municipal retirou a disciplina de História do Amazonas das escolas da Semed.
Assim, herdamos dos portugueses alguma coisa de mórbido e estranho. Foi por acaso que me deparei com uma cena pra lá de grotesca: uma pessoa ou duas, remando numa canoa cheia de coisas retiradas do lixo do igarapé – em Manaus há catadores de lixo dentro dos igarapés – recolhendo pets, latinhas de refrigerantes e sucatas, pois tradicionalmente já faz parte da cultura da cidade, jogar o lixo e as fezes neles, aliás a Prefeitura recolhe de vinte e cinco a trinta toneladas por dia, durante a cheia, e de quinze a vinte toneladas durante o período da seca. Aconteceu que a canoa com seus ocupantes atravessava calmamente o complexo das pontes ligadas ao igarapé do “mestre Chico” totalmente tomado, transbordando, de fezes humanas. Isso mesmo, remando indiferente num rio de fezes, num bosteiro .



Até aqui, como disse um colega de profissão, “mas isso é normal!” – se referindo ao fato de ainda existir pessoas roubando e assaltando em pleno século 21, com tanta tecnologia e riqueza produzida pela humanidade. Dizia ele, “isso sempre existiu”. Ninguém parece se incomodar com o fedor dos igarapés no centro histórico de Manaus, e no Distrito Industrial, na Zona Sul e Zona Leste, pois “isso é normal” também.



Fique perturbado porque eu já tinha visto aquilo ou lido em algum lugar. Pensei, isso parece coisa do Inferno. Manaus é mesmo estranha, pois essa e uma das cenas descrita dos rios de fezes do Inferno escrito pelo florentino italiano Dante Alighiere (1265-1321), no seu famoso livro “A Divina Comédia”. No seu exílio político, Dante escreve que em sonho, êxtase ou revelação divina, se encontrava perdido “numa SELVA escura” – talvez na Amazônia – quando aparece o falecido poeta romano Virgílio, que serve de guia pelos nove tortuosos círculos do Inferno. Foi no Oitavo Círculo, o Maleboge, também formado por dez fossos, que me lembrei ao ver aquela canoa atravessando o igarapé do “ Mestre Chico” cheio de fezes. Lá, no oitavo círculo do inferno dantesco, estão os aduladores e lisonjeiros submergidos num fosso de fezes e esterco – um lago de fezes como os igarapés de Manaus – cheio também de aduladores, que infelizmente ainda não estão no meio delas.




Aliás, verdade seja feita, também há grandes bosteiros no Rio de Janeiro e no centro de São Paulo. O mundo tecnológico ainda não encontrou um lugar para as fezes. Até porque, os ricos de Manaus moram em ilhas de luxo e riqueza, se locomovem nos mais de 400 automóveis da Mercedes Bens e outros carros importados, climatizados, e com certeza nem percebem que a cidade é fedorenta nas regiões atravessadas por igarapés.
Outra coisa, também estranha, são os afundamentos que acontece de tempos em tempos. Na década de 60 ou 70, dois deles aconteceram. Em frente ao antigo Hotel Amazonas e Loja Bemol, uma cratera se abriu misteriosamente. A outra se abriu na Sete de Setembro, entre os cinemas Polyteama e Guarany, tomando toda a rua. E recentemente, não muito longe do antigo hotel, em frente a antiga Defensoria Pública, nova cratera se abriu. Não muito longe do local onde existiram os cinemas, ao lado do Palacete onde funcionou quartel da Polícia Militar, outro buraco do inferno apareceu. Dizem as lendas urbanas, que são lugares onde existiram igarapés, aterrados no governo de Eduardo Ribeiro. Conversa pra boi dormir!. Imagina se os conjuntos residenciais construídos em cima dos aterros dos igarapés feitos pelo Prosamim, vão correr esse risco? Não, essas crateras devem ser passagem para o inferno mesmo. É apenas mais uma coincidência o fato de dois governadores, de épocas diferentes, se chamarem “Eduardo”. Mas é maravilhoso que exista um projeto assim, que vai restaurar a vida nos igarapés, criando uma “nova Ponta Negra”, que deveria consumir 300 milhões de dólares em nove anos, retirando das margens a população de migrantes favelados. Vamos até poder pescar neles!




Sem tradição histórica, além das tribos guerreiras que enfrentaram os portugueses durante a invasão do lugar, sobrou os cemitérios desses povos, a “ Zona” Franca, triste apelido que Manaus ganhou com o Distrito Industrial. Eis que surge bairros com referencial pra lá de estranhos que reforça o lado sombrio da cidade. Ninguém chamaria um bairro de fantasmolandia, monstrolandia, dos mortos-vivos. Pois Manaus tem um bairro chamado de Zumbi, sem ter tradições afro-brasileira para isso. A escravidão aqui custou a vida de uns dois milhões de escravos índios – aqui foi escravidão indígena cara pálida!




O líder negro que foi chamado por algum motivo religioso de Zumbi, lembra um lado misterioso de uma religião africana que se desenvolveu em alguns lugares do continente americano, de ressurreição de um morto, o “zumbi”, que volta do túmulo. Os filmes americanos adoram explorar as imagens de zumbis em filmes de terror. Basta dar uma olhada no clip “Thriller” de Michael Jackson. Outro bairro virou “Cidade de Deus”! De que “Deus”? Marte, Javé, Saturno, Elohim, Plutão, o deus dos infernos?




Uma turba que enfrenta a polícia, ameaça com terçados e coquetéis molotov numa invasão de terras e depois diz que “Jesus Me Deu”? E os aduladores que colocaram os nomes de políticos em suas invasões? Lembra dos aduladores do inferno imersos em fezes? Não é muita coincidência?
A cidade também vive o estigma do número da besta, o 600 ou 666. A “Marcha pra Jesus” levou 600 mil pessoas para as ruas. E por coincidência infeliz, 600 mil e o mesmo número de pessoas em todo o Amazonas abaixo da linha da pobreza. E os 600 milhões que o governo prometeu gastar para construir a “arena”, ou estádio de futebol para a Copa do Mundo de 2014? O ópio do povo, o futebol, deve ser incentivado, pois é um salário de 600 reais que a maioria dos operários das fábricas e das lojas recebem para trabalhar, as vezes de 5 da tarde até as 2 horas da manhã, no Distrito Industrial. Como as pessoas aceitariam a servidão, sem os times de futebol , “copas do mundo”, se embriagando com cerveja, as novelas e a cultura da “mulher pelada”, e os supermercados da salvação?
Mas, em nome verdade, Manaus tinha em 2006, apenas 404 mil abaixo da linha da pobreza. Temos que nos orgulhar não só dos festivais de óperas e orquestras sinfônicas, mas também do segundo lugar alcançado por Manaus em 2008, como a pior situação de miséria entre as capitais brasileiras – o IDF ficou em 0,49, empatando com Belém e Rio Branco. O mais interessante, Manaus perdeu naquele ano, até para os outros municípios do Amazonas.
Na televisão, um anúncio institucional do Governo Federal anuncia que a cada quinze minutos morre uma pessoa no trânsito no Brasil. Outra infeliz coincidência, pois era ou ainda é, tomara que tenha diminuído, a estatística de nascimento na cidade de Manaus: uma criança a cada quinze minutos. Nascer em Manaus é também um tipo de desastre da Natureza? Ou um tipo de acidente na vida sexual de adolescentes com o ”complexo de Cinderela”, em busca do príncipe encantado? Ou será que Manaus compensa as mortes do trânsito do Brasil?
Muito mais assustador que tudo isso é a troca de rituais de passagem na juventude da periferia. Ainda persiste nas comunidades tribais do Amazonas os rituais da Tucandeira para os rapazes, e o da Menina Moça, para as jovens. A reclusão dos adolescentes, nas tribos do Xingu. Em Manaus se desenvolveu o ritual fumaça da maconha, onde a meninada adolescente se acha o máximo fumando maconha e assaltando para sustentar o vício. Todos os dias aparece nos jornais algum jovem executado por dívida de droga.
O canibalismo praticado em festa ritual pelas tribos da Amazônia, devorando um bravo inimigo capturado nas guerras intertribais, virou um canibalismo social, em que filhos da pobreza está assaltando, também pessoas pobres, nos pontos de ônibus ,em portas de bancos, nas saídas das escolas, roubando mochilas e celulares. Estão comendo da própria carne. Porque é o filho do meu vizinho, cheio de filhos criados na mais profunda miséria, que está assaltando para comer e se drogar. Esse canibalismo social, que alguns acham “natural”, porque o roubo sempre existiu, é o pior de Manaus. Muito pior que viver numa cidade mal assombrada, cheia de aduladores, e igarapés cheios de fezes e lixo.




É essa insegurança “psicológica” dos assaltos, que me inspirou, já assaltado duas vezes, e arriscando minha vida todas as noites na Zona Leste, escrever em homenagem a inteligência das pessoas que comanda e governa essa cidade. E diga-se de passagem, são bem pagas com o dinheiro dos contribuintes. O que me deixa com uma pulga atrás da orelha, e que minha avó vivia dizendo: “Meu filho, o Inferno é aqui Mesmo!” Em Manaus?.....

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A HISTÓRIA QUE QUEREM ESQUECER

BARÉS, MANÁOS E TARUMÃS

José Ribamar Bessa Freire

" Artigo originalmente publicado na revista Arquitetura e Urbanismo, fevereiro/março 87. As fontes usadas e a bibliografia foram suprimidas no artigo original por exigência da revista, cujo perfil é mais jornalístico que académico. Publicação autorizada.(Para HISTÓRIA EM NOVOS CADERNOS, publicação da UFAM)

Professor Adjunto da Universidade do Rio de Janeiro UNl-Rio e Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, onde é Coordenador do Programa de Estudos dos Povos Indígenas (SR-3).

"Manaus, terra das florestas, terra das castanhas e dos seringais.
Manaus, terra dos bares, dos igarapés, rios colossais".
(de um hino cantado nas escolas de Manaus).

INTRODUÇÃO

A população atual de Manaus, como regra geral, reage indignada quase com espírito corporativista, quando os seus visitantes manifestam-se agradavelmente surpresos por se encontrarem, apesar de tudo, diante de uma cidade marcadamente indígena, do ponto de vista histórico, cultural e ecológico. Ninguém quer se identificar hoje com os vencidos de ontem, porque isto implica assumir o fato de que Manaus é uma cidade derrotada. Derrotada e mal-amada. Mal-amada porque desconhecida. A "civilização de palha" erguida na Amazônia -resultado da experiência milenar e coletiva dos povos indígenas - faz parte de um passado que a ideologia dominante teima em considerar "atrasado", "bárbaro", e “não-histórico", embora ele tenha contribuído com soluções inteligentes e criativas nas várias formas de se aprimorar e de habitar o espaço amazônico.
O espaço amazônico foi ocupado, hierarquizado e, portanto, humanizado pelo "povos-testemunhas" (Daniel Vidart) que aqui viveram antes da invasão do europeu. Mas esse fato é encoberto hoje pêlos herdeiros dos conquistadores e desconhecido pêlos descendentes dos conquistados. O resultado é a ruptura da continuidade espacial entre a sociedade mestiça em construção e o que havia anteriormente. Como consequência busca-se angustiadamente "no outro" a identidade perdida. Queima-se a "tapera dos Manaus" para construir a "Paris dos Trópicos" ou a "Miami brasileira", mesmo se esse processo é realizado em detrimento da qualidade de vida. O elo com o passado era de vidro. E se quebrou.
Neste artigo pretendemos resgatar alguns elementos históricos do processo de ocupação do território onde foi erguida a cidade de Manaus, destacando alguns aspectos do processo de urbanização, realizado contra os interesses dos povos locais. Não é um artigo de História, mas a Historia lhe convém para acompanhar os rastros e vestígios que nos permitem delimitar a profundidade das raízes do quadro urbano da Manaus de hoje.
I. AMAZÓNIA: A CIVILIZAÇÃO DE PALHA
As viagens dos europeus ao longo do rio Amazonas no século XVI nos deixaram descrições e relatos com informações dispersas e muitas vezes impressionistas sobre a distribuição da população indígena e os padrões de povoamento e ocupação do seu território.
Os primeiros cronistas são unânimes em afirmar que toda a calha central do rio Amazonas era ocupada por "'uma multidão infinita"de índios, que por "serem muitos não se puderam contar". E usaram e abusaram dos superlativos, não escondendo a sua admiração por este feto.
No alto Solimões, a expedição de Orellana (1541-1542) passou o tempo todo procurando "fugir dos povoados que eram tantos que causavam espanto". Na região do baixo Amazonas, "foram tantas as povoações que aí apareciam e vimos, que ficamos abismados".
Frei Carvajal, o cronista de Orellana, informa sobre a existência, na várzea amazônica, de "muitas e grandíssimas povoações que reúnem 50 mil homens, entre os 30 e 70 anos". Segundo ele, a maior distância entre uma povoação e outra era meia légua e havia aldeias "que se estendiam por mais de cinco léguas sem separação de uma casa para outra, o que era coisa maravilhosa dever".
Se o número reduzido de expedicionários desta primeira viagem -menos de 60 homens - pode tê-los levado a exagerar a quantidade de índios encontrados, esse argumento é facilmente demolido com a segunda viagem comandada por Ursua-Aguirre (1560-61), 20 anos depois, quando mais de 3 mil homens navegaram todo o rio Amazonas até a sua foz. Os três relatos conhecidos desta viagem confirmam a alta densidade demográfica da região, com idênticos superlativos sobre "as mais populosas terras já descobertas por cristão", ocupada por tanta gente que "dava medo". Nas primeiras décadas do século XVH, a região - que permanecera até então isolada de novos contatos com o europeu -apresenta um quadro relativamente inalterado.
A viagem de Pedro Teixeira (1637-1639), que fez o percurso de subida e descida de todo o rio Amazonas, com mais de 2 mil homens, encontra aldeias tão próximas umas das outras que "dos últimos povoados de umas, em muitas delas, se ouvem lavrar os paus nas outras", segundo o cronista da viagem, o jesuíta Cristóbal de Acuña. Acuña vai encontrar também província "com mais de 200 léguas de comprimento continuando-se as suas aldeias tão a miúde, que apenas se perde uma de vista e já se descobre outra".
O piloto-mor da Armada de Teixeira, Bento da Costa, citado pelo padre Alonso de Rojas, conclui que a população da Amazônia era maior do que a de "todo o resto das índias descobertas" e que "são tantos e sem número os índios que, se do ar deixassem cair uma agulha, há de dar em cabeça de índio e não no solo".
Durante muito tempo, as informações dos cronistas, consideradas exageradas, foram deixadas de lado pela Historiografia tradicional, incapaz de trabalhá-las criticamente. No entanto, as pesquisas arqueológicas dos últimos 30 anos dão conta de extensas aldeias habitadas e nos oferecem evidências que reforçam os testemunhos oculares dos cronistas, apesar da maioria dos 334 sítios arqueológicos da Amazônia brasileira, cadastrados pelo Museu Goeldi em 1982, permanecerem abandonados e destruídos
Estudos recentes de Demografia Histórica, sobretudo os realizados pela chamada "Escola de Berkeley", refinaram os métodos de abordagem do problema, cruzando informações históricas, analisando os padrões de subsistência, inventariando o potencial ecológico da região e assumindo os resultados das pesquisas arqueológicas. Com esses procedimentos, William Denevan estimou uma população de mais de 6.800.000 índios vivendo na região que ele denominou de "Grande Amazõnia"no século XVI, ralando mais de 700 idiomas diferentes, de acordo com os recentes trabalhos de classificação de línguas.
Se é correta a hipótese, cada vez mais fortalecida por diferentes disciplinas, de que a Amazónia era densamente povoada no século XVI, então cabem algumas perguntas: Como se deu a produção do espaço nas sociedades indígenas? Como os índios se apropriaram desse espaço, como o habitaram e hierarquizaram? Como estavam organizadas as suas aldeias? Qual era a percepção que os próprios índios tinham do seu território?.
Estas perguntas não podem ser respondidas fora do quadro complexo da rede de relações sociais aqui existentes.
Os povos que habitavam a calha central do Amazonas eram todos agricultores em maior ou menor escala. Realizaram experiências botânicas, domesticaram uma enorme variedade de plantas como a mandioca, o milho, o algodão e o tabaco, e descobriram as propriedades medicinais e nutritivas de ervas e frutas. Produziram uma cerâmica refinada e instrumentos de trabalho capazes de transformar a mandioca em farinha e o algodão em redes e mantas coloridas. Construíram habitações amplas e arejadas. Promoveram um intenso comércio intertribal. Criaram uma literatura vigorosa, poemas, músicas, danças. Migraram, navegaram, brigaram, fizeram e desfizeram abancas, amaram, viveram e reproduziram sua existência aqui graças a uma leitura correia da região.
Mas os povos amazônicos ao contrário dos aztecas e andinos, não deixaram relatos escritos contando a sua experiência de vida. E os cronistas europeus que descreveram esta realidade, o fizeram usando categorias não apropriadas, impotentes para dar conta daquilo que viram.
Da mesma forma que o mutum foi chamado equivocadamente de peru, o espaço territorial indígena, na visão dos europeus, estava conformado por cidades, bairros, fortalezas, muralhas, avenidas, ruas, pontes, praças, portos, estradas, edifícios, e casas, denominações quase sempre inadequadas para descrever um fenômeno novo, diferentes, "outro".
No rio Amazonas, na medida em que o bergantim de Orellana ia navegando, "apareciam grandes cidades, que estavam alvejando". No Solimões eles encontraram "uma aldeia grande e populosa, com muitos bairros, cada qual com um desembarcadouro no rio". E, mais adiante, batizaram uma localidade com o nome de "Povoado da Rua", porque era constituída de "uma única rua, com uma praça no meio". Abaixo da foz do Madeira, viram uma aldeia, dotada de "largas avenidas", que pelo seu tamanho "devia ser capital de algum grande senhor". Em território dos Omagua, no Solimões, encontram "muitos caminhos largos, estradas reais, pela terra adentro", ligando a várzea com a terra firme.
O capitão Altamirano, um dos cronistas da expedição Ursua-Aguirre, confirma a existência desses caminhos 20 anos depois de Orellana, com outros dados sobre uma povoação - uma fortaleza no alto do morro - "que para subir nela se subia por mais de 100 degraus que tinha cada escada feita no barranco".
Outro cronista de Ursua-Aguirre, o soldado Francisco Vasquez, descreve uma aldeia Omagua, no alto Solimões, "com dois bairros pequenos", cada um com 30 casas e em cada casa 50 a 60 índios, com mulheres e filhos, o que totaliza para os dois "bairros" mais de 20 mil índios. No relato de Ortiguera, próximo a Coari, Lopo de Aguirre encontra "casas grandes e redondas, de "vara en tierra", sem paredes, com duas portas, uma para o rio e outra para a floresta, com o teto chegando até o chão". Mais abaixo, no Punis, havia "casas grandes, amplas e quadradas". Encontraram também, em outra localidade, "casas em fila, uma ao lado da outra, prolongando-se pelo barranco do rio".
As relações sociais e a estrutura de parentesco determinaram formas de ocupação que surpreenderam os europeus. Acuna informa que as casas dos índios Yoriman, no Solimões, ocupavam mais de uma légua de extensão: "E como não vive em cada casa uma família só, como acontece ordinariamente em nossa Espanha, mas que pelo menos se abrigam debaixo de cada teto quatro ou cinco, e muitas vezes ainda mais, disso se poderá deduzir a multidão de toda esta aldeia".
O que fica claro nas descrições dos cronistas é que, apesar de uma certa uniformidade ecológica na várzea do rio Amazonas, as aldeias e casas diferiam umas das outras pelo tamanho, pela forma e pela concepção presente na maneira de organizá-las, demonstrado com isso que cada sociedade tribal adotou uma solução própria na ocupação de seu território.
Os viajantes perceberam, no entanto no meio das diferenças, algumas características comuns dessas culturas, denominadas por Berta Ribeira como "civilizações de palha". Rojas explica que "as casas e edifícios de todos os índios são de madeira, lavradas com curiosidade e cobertas de palha; não há nenhuma de pedra nem coberta de telhas".
Os trabalhos de etnografia realizados com grupo tribais da Amazônia que sobrevivem até hoje demonstram também que "o que há de comum, em todas essas sociedades, é o fato de que a organização espacial reflete uma concepção de sociedade que é, nitidamente, igualitária", conforme esclarece Sylvia Caiuby Novaes, organizadora do livro "Habitações Indígenas".
E dentro deste quadro mais amplo da Amazónia que se situa a região do rio Negro, onde se encontra hoje a atual cidade de Manaus..
II. RIO NEGRO: AS MALOCAS E AS MURALHAS
O primeira viajante europeu a passar pela foz do rio Negro foi Orellana, num sábado de junho de 1542, véspera da Santíssima Trindade quando os espanhóis invadiram uma povoação indígena ai localizada, saqueando e se abastecendo de alimentos, que existiam em abundância.
A povoação é descrita como estando situada "em uma lomba afastada do rio, fortificada por uma muralha de grossos troncos, com uma praça no meio". Ainda próximo à foz, Orellana encontrou outra aldeia de porte médio. "Havia lá uma praça muito grande e no meio da praça um grande pranchão de 10 pés em quadro, pintado e esculpido em relevo, figurando uma cidade murada, com a sua cerca e uma porta."
"Os que residem nas águas do rio Negro são grandes Províncias", afirma o padre Acuna, cem anos depois, ao navegar pela mesma foz, nominando a existência de pelo menos 12 nações diferentes.
A enorme quantidade de índios habitantes do rio Negro deixou os soldados portugueses da expedição de Pedro Teixeira excitados pela possibilidade de levá-los como escravos a Belém, no que foram impedidos por interferência do padre jesuíta espanhol.
Um dos militares portugueses presente neste episódio, Maurício de Heriarte, em relato posterior (1662), descreve a região do rio Negro como "terra mui grande e povoada": "He este rio povoado de inumerável gentio. Tem um principal na bocca, que fica nas duas Amazonas, que he como Rei, por nome Tabapari. Tem debaixo do seu domínio muitas aldeias de diversas nações e delias he obedecido com grande respeito".
Este povos que habitavam a região do rio Negro pertenciam, em sua grande maioria., ao tronco linguístico Aruak. Três deles se destacaram historicamente, enfrentando-se ao conquistador: os Manáo, que emprestarem o seu nome à atual capital do Amazonas, os Baré e os Tarumã.
As notícias mais seguras sobre os Manáo são do século XVII. Eles são chamados no relato de Acuna de Managús e Amanagús e trocavam com os Ybanomas e Yurimaguas adornos de ouro, obtidos em outras regiões, por ralos de mandioca e redes. Mais tarde (1686), outro jesuíta, o padre Samuel Fritz, confirma as informações e fornece mais detalhes.
Os Manáo constituíam o grupo étnico mais importante da área, habitando as duas margens do baixo rio Negro, desde a foz do rio Branco até a ilha Timoni No momento da invasão colonial pareciam estar em pleno processo de expansão territorial em direção ao Oeste, espalhando-se pela região do rio Japurá. Sua população foi estimada, já decrescida após os violentos choques armados com os portugueses no século XV11I, em mais de 10 mil almas.
Os Tarumã, visitados em 1657 pêlos jesuítas Francisco Veloso e Manoel Pires na primeira entrada histórica do vale do rio Negro, constituíam uma tribo pequena, assentada nas proximidades da atual cidade de Manaus, nos rios Tarumã e Ajurim, ambos afluentes esquerdos do baixo Negro. Eram conhecidos pêlos ralos de mandioca que fabricavam.
Os Baré dominavam a parte superior do rio Negro e ocupavam ainda uma área vizinha aos Manáo, situando-se mais acima da cidade de Moura, num território extenso "que abarcava grande população". Produziam bebidas fermentadas e em suas festas dançavam com o corpo pintado de jenipapo.
As informações sobre os padrões de povoamento das nações indígenas do rio Negro são muito escassas e estão dispersas na documentação oficial, que não é muito generosa sobre isso.
As habitações do povo Manáo eram em forma cônica e ali onde a população era mais densa, suas casas tinham parede de barro, provavelmente misturado com palha, já no período colonial, segundo informações de Métraux. Seus mortos, enrolados em redes eram enterrados em fossas cavadas dentro da própria habitação, contendo algumas delas, escavadas posteriormente, mais de 100 sepulturas.
Os Baré habitavam em grandes malocas, construídas com estacas verticais, provavelmente do tipo daquela vista por Heriarte na foz do rio Negro: "casas redondas fortificadas com estacadas como casas fortes". Em volta da aldeia estavam localizadas as roças, sendo cada maloca ocupada por diversas famílias nucleares. Em seu interior, ao longo das paredes, havia jiraus. Temos conhecimento da existência de casas retangulares, cilíndricas, cônicas, ovaladas e de aldeias em formato circular, retangular ou lineares, formadas por casas alinhadas ao longo do rio, como também de malocas comunais e multifamíliares - grande e única habitação que abrigava uma comunidade inteira.
O tipo de construção variava de acordo com o seu caráter mais ou menos temporário. Como esses povos praticavam a agricultura de coivara, existia uma grande mobilidade dentro do território tribal, mudando-se a localização da aldeia com uma certa regularidade.
A floresta funcionava como uma usina de produção de material de construção: as árvores forneciam madeira para os esteios, vigas, e travessões; as amarrações eram feitas por diferentes tipos de cipó e embira, abundantes na região, com o uso também dá técnica de encaixe, com paus escavados para melhor ajustamento, enquanto a cobertura era feita de folhas de variados tipos de palmeira. No entanto, era necessário conhecer, saber selecionar e trabalhar sobre esses elementos.
Dados também fragmentados nos dão indicações aqui e ali sobre a organização do espaço interno dessas habitações. Algumas generalizações talvez possam ser feitas: essas casas eram muito limpas e varridas, com temperatura ambiental agradável, permitindo a circulação de ar e a entrada maior ou menor de luz, de acordo com as necessidades do momento.
Na maioria das habitações, as redes são armadas em vigas e as cestas penduradas em estacas, contendo objetos de uso pessoal, que também eram guardados enfiados no teto.
Os critérios usados para determinar a localização de uma aldeia eram, entre outros: a existência próxima de matéria-prima para a construção das habitações, o tipo de solo para a agricultura, a proximidade de zonas de caça e pesca e de rios e igarapés que permitissem o uso da canoa — instrumento vital de deslocamento desses povos que era feito, prioritariamente, por água.
Alguns relatos, no entanto, dão conta da existência também de caminhos mais ou menos largos e limpos, ligando as aldeias às roças, e de caminhos mais estreitos — pequenas picadas e trilhas — que cortavam a parte da floresta circundante em diferentes sentidos, permitindo a ligação das aldeias com os igarapés, com os sítios de caça e pesca e com outras aldeias.
Essas informações, embora dispersas, sugerem algumas idéias sobre a forma como se movimentavam os índios, o modo como se relacionavam entre eles, o uso dado às suas habitações e o significado da aldeia e do território na vida desses povos.
Uma primeira dedução lógica permite sustentar que para muitas dessas sociedades tribais, a casa não era o ponto de referencia mais importante, não podendo portanto, ser compreendida em forma isolada do contexto da aldeia e do próprio território com os quais ela estava plenamente integrada.
Muitos povos do rio Negro usavam a casa apenas para comer e descansar, realizando a maioria das atividades fora dela, ampliando assim a própria noção do que era o espaço doméstico. Algumas exceções podem ser constatadas no caso de grandes habitações como as dos já citados Baré, ou as dos Tukano, que ainda vivem hoje no alto Uaupés, em cujo interior se desenvolviam muitas atividades cotidianas, o que levou esses índios a atribuir uma maior importância à habitação, manifestada através do seu requinte arquitetônico e decorativo, conforme observa Lux Vidal, no livro "Habitações Indígenas".
Em qualquer dos casos, o território indígena aparece sempre como um poderoso elemento de identidade que torna coeso o grupo e como um espaço integrado e único, não separando por grandes distâncias o local da moradia da roça, do igarapé e de outras áreas necessárias para atividades produtivas e de lazer. Essa concepção de organizar o território será profundamente abalada com a invasão dos portugueses.
III. O DOIRADO COXIM E OS NOBRES MANAUS
"Ninguém sofre tormentos e dores, Nesta terra dos Nobres Manaus.
Todo povo é feliz, diz a História, Quando vê entre gozos sem fim, O
progresso passar junto à glória Em seu belo e doirado coxim". (Hino oficial de
Manaus).
Informações de viajantes dão conta da "excelência da tenra", do "salubérrimo ar", da "suavíssima temperatura"— nem quente nem frio — e sobretudo da "pureza das águas" e do "infinito número de água fresca" na área onde hoje está situada a cidade de Manaus, que era toda ela cortada por igarapés, ocupando um lugar estratégico no coração da floresta amazônica.
"Não poderia ter sido mais felizmente escolhido" o local para fundar um núcleo populacional, segundo Spix e Martius que visitaram a região muito mais tarde (1819), e elogiaram "a majestosa tranquilidade do clima equatorial que proporciona manhãs frescas e noites serenas". Não foram, no entanto, os igarapés e o clima os elementos que mais atraíram os portugueses, mas o fato de se tratar de um território densamente povoado por índios, e que, pela sua localização geográfica, permitia o controle do recrutamento da mão-de-obra de toda a vasta região do Negro, além de servir de apoio logístico para as tropas de descimentos, resgates e "guerras justas" que penetravam os rios Madeira e Japurá e avançavam Solimões acima, ultrapassando inclusive as fronteiras atuais do Peru e da Colômbia, com a finalidade de escravizar índios.
Neste sentido, podemos generalizar a conclusão do historiador argentino Jorge Hardoy, quando afirma, em entrevista publicada na "AU" (n° 9), que "existe uma continuidade espacial entre o que se constrói e o que havia anteriormente", ao referir-se à fundação das cidades espanholas na América, sempre ao lado de locais onde havia concentração maior de índios.
O jesuíta espanhol Acima, depois de passar pela foz do "povoadíssimo" rio Negro aconselha: "Há em sua foz bons sítios para fortalezas, e muita pedra para fabricá-las, com que se poderá defender a entrada ao inimigo que quizer ir por ele ao principal".
O militar português, que participou da mesma viagem de Acima, em informe ao rei de Portugal, anos depois, sugere: "Povoando-se este rio de portugueses se pode fazer um império e senhorear todo o (rio) das Amazonas e mais rios".
Desta forma, espanhóis e portugueses chamaram a atenção de seus respectivos monarcas sobre o rio Negro. No entanto, os portugueses, rompendo o Tratado de Tordesilhas, chegaram antes dos espanhóis. Entre 1657 e 1661, os jesuítas comandaram várias tropas anuais de resgates, descendo mais de 5 mil índios do rio Negro para Belém, depois de estabelecerem um arraial provisório — "um curral de índios"— na boca do rio Tarumã, afluente do Negro (1657).
Esses índios encurralados no arraial, provavelmente com outros trazidos do Xingu, serviram como mão-de-obra para a construção da Fortaleza de São José do Rio Negro (1669), ao redor da qual se iria constituir um núcleo populacional denominado de "Lugar da Barra", onde logo depois seria erguida uma ermida coberta de palha, sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição.
A fortaleza, que deu origem à atual cidade de Manaus, foi construída em cima de um cemitério indígena — feto sugestivo, carregado de simbolismo que, como imagem, sintetiza por si só todo o processo colonial. O forte era "uma obra rústica, de forma quadrangular", sem fosso, feito primeiro de barro, madeira e taipa socada e depois de pedra e barro, com uma das faces para o rio. Dele não existe hoje o menor vestígio, sendo o seu local, na zona portuária, ocupado por um edifício onde funcionou a Secretaria de Fazenda.
O forte de São José do Rio Negro acabou exercendo um papel fundamental no reordenamento do espaço amazônico, porque significou o início de uma forma de ocupação que negava as formas anteriores e só podia efetivar-se com a destruição daquilo que existia antes.
As habitações e aldeias existentes na área foram invadidas, saqueadas queimadas e seus habitantes, aprisionados, foram escravizados na plantação de tabaco, algodão e cana-de-açúcar das proximidades de Belém ou então conduzidos para as chamadas "aldeias de repartição", sendo alugados durante a metade do ano para os colonos e para as obras públicas ou para as atividades de coleta das chamadas "drogas do sertão".
Durante mais de um século em que esteve oficialmente vigente a escravidão indígena na Amazônia, os portugueses usaram a região do rio Negro como um celeiro, onde vinham permanentemente se abastecer de índios para substituir aqueles que morriam devido ao sistema de trabalho colonial que não se preocupava com â reprodução de sua força de trabalho.
O padre João Daniel, um jesuíta que morreu na prisão em Lisboa, viveu mais de 15 anos na Amazônia e testemunhou que os índios "morriam como moscas". Ele calculou em mais de 2 milhões os índios exterminados só na região do rio Negro, no período de pouco mais de um século. Os demógrafos da Escola de Berkeley, que retomam esse tipo de cifra criticamente, não hesitam, no entanto, em classificar esse processo como "uma das maiores catástrofes demográficas da História da Humanidade".
A intervenção desastrada dos portugueses na região produzia o mesmo efeito que uma bomba de detefon em uma cozinha infestada de baratas. As respostas dos índios foram as mais variadas, reagindo muitas vezes sem um direcionamento preciso.
Os Manáo resistiram à invasão de seu território com armas na mão, até serem completamente varridos do mapa, confirmando um mito da tribo de que o mundo — pelo menos, o seu mundo — seria destruído por um grande fogo. Na segunda década do século XVÏÏÏ, num momento de escassez de mão-de-obra em Belém, eles foram quase completamente exterminados por uma tropa de "guerra justa" dos portugueses que aprisionou uma grande quantidade de escravos. O seu líder Ajuricaba, feito prisioneiro, morreu afogado no rio Negro, em circunstâncias duvidosas. A versão oficial foi de suicídio. Já reduzidos, em 1757, liderados por um índio chamado Domingos, eles iniciam nova rebelião e são igualmente derrotados. No início do século XIX. Martius (1819) ainda encontra um pequeno núcleo dos Ore-Manáo ou Ere-Manáo na margem esquerda do rio Padauiri. Hoje, não sobrou nenhum para contar a história, desconhecida pela população da cidade que herdou o seu nome.
Os Tarumã trocaram as armas pelo diálogo, caindo inicialmente na conversa dos missionários. Eles aceitaram abandonar pacificamente as suas casas para viverem no aldeamento português do Lugar da Barra, construído ao redor da fortaleza. Logo depois, Pedro da Costa Favela, para escravizá-los, realizou expedição punitiva, dizimando-os. Os que escaparam se reorganizaram e promoveram uma "grande marcha"de mais de 3 mil km e quase um século até atingir o ponto final de chegada, num dos episódios mais comoventes de migração indígena forcada. Eles fugiram, subiram o rio Negro — homens, mulheres e crianças — carregando suas tralhas, redes e xerimbabos. Entraram pelo rio Branco e desapareceram do mapa do Brasil, com os seus sofisticados ralos de mandioca. Foram considerados extintos. Em 1837, no entanto, o viajante e naturalista alemão, sir Robert Schomburgk, encontrou aproximadamente 500 membros da tribo Tarumã ao longo dos rios Essequibo e Cuyuwini, na Guiana Inglesa A última notícia deles, que deram o nome a uma das cachoeiras mais bonitas dos arredores da atual cidade de Manaus, frequentada como balneário aos domingos — data de 1916, lá na mesma Guiana Britânica. Eram 150 índios, segundo informações do linguista Cestmir Loukotka.
Os Baré realizaram uma longa caminhada semelhante à dos Tarumã, subindo o rio Negro, entrando pelo canal do Cassiquiari e penetrando na bacia do rio Orenoco, na Venezuela. Foram considerados extintos por Darcy Ribeiro. Mas hoje eles continuam vivos e estão localizados no Território Federal Amazonas, Departamento do rio Negro, na Venezuela. A Universidade Central de Caracas elaborou um "Projeto de Revitalização do idioma Baré", nos anos 1970, com o objetivo de estimular os 15 ou 20 índios Baré com mais de 60 anos que ainda falam o idioma a ensinarem os mais novos que só falam espanhol. O projeto previa ainda a criação de um Museu Baré, em São Carlos do Rio Negro.
Para a população que habita hoje o antigo território Baré, na área da atual cidade de Manaus, esse nome "baré" é apenas uma marca de um guaraná, produzido industrialmente, figurando ainda no hino dedicado à cidade, talvez porque seja uma rima fácil com igarapé. Nos anos 1950, uma grosseira imitação de sua habitação foi erguida na área portuária, denominada de "Maloca dos Bares", centro de apresentação de shows de artistas locais e do Rio de Janeiro. Esta "maloca" também foi destruída.
Com os Manáo, Tarumã e Baré desaparece também uma determinada visão de mundo e diferentes concepções que esses povos tinham sobre a forma ideal de vida num espaço como o rio Negro, concepções que influíram no modo como o território foi ocupado, o espaço modelado e as habitações construídas.
IV. LUGAR DA BARRA: O "CURRAL DE ÍNDIOS"
Protegida pela Senhora da Conceição — em sua capela de palha e chão batido, e por São José — o da fortaleza de barro, madeira e taipa, com seus quatro canhões de calibre 1/3, o Lugar da Barra foi se estruturando contra os interesse de sua população, os sobreviventes de várias nações de línguas diferentes, que eram laçados e trazidos à força do Solimões, do Madeira, do Japurá e do próprio rio Negro.
O crescimento do lugar dependia, portanto do despovoamento de outras áreas, mas parte considerável de sua população era transitória, na medida em que o Lugar da Barra não passava de um "curral de índios", que eram aí amontoados à espera de serem levados para Belém como escravos, ou alugados quando "livres", para a coleta das "drogas do sertão".
As grandes habitações cônicas e as casas redondas fortificadas e multífamiliares, incendiadas pêlos portugueses, foram substituídas por pequenas palhoças unifamiliares. A divisão interna também sofreu modificações com a redução do tamanho das casas.
Com um pouco mais de um século de vida, o Lugar da Barra continuava constituído por casas de palha e uma população reduzida de 220 índios, 34 brancos e dois negros escravos, segundo levantamento feito pelo ouvidor Sampaio (1778). Alguns anos depois (1786), Alexandre Rodrigues Ferreira contou, em censo que realizou, 301 moradores distribuídos por 40 fogos, sendo 47 brancos, 243 índios e 11 escravos negros.
Durante nove anos o Lugar da Barra foi sede da Capitania do Rio Negro (1791-1799), voltando a recuperar esse status em 1808, sem que isto houvesse alterado o seu traçado e a sua paisagem.
No início do século passado, suas casas de beirais escorridos, mesmo aquelas de melhor aparência, possuíam janelas de urupema, isso é, guarnecidas de peneira. As ruelas e becos eram passagens estreitas, escuras, tortuosas, desniveladas, e esburacadas, cobertas pelo matagal, onde até o gado e os porcos tinham dificuldade de se locomover. Elas não conduziam em seu traçado irregular a nenhum lugar. Não existia comércio, bares, associações ou qualquer outro tipo de vida social, levando o estudioso Mário Ypiranga a concluir que a Barra "não teve a rua como elemento civilizador".
No final do período colonial e mesmo após, quando passou à categoria de vila (1832), com a denominação de Manaus, o núcleo populacional fundado pêlos portugueses permanecia uma aldeia rural, imprensada entre o igarapé de São Raimundo e o do Espírito Santo, que só eram ultrapassados através de algumas trilhas que ligavam a vila com as rocas e plantações existentes em seus arredores, copiando mal os padrões indígenas. Os igarapés eram cruzados em canoas ou através de pontes improvisadas.
Quando os portugueses perderam o controle político, com a adesão do Pará à Independência do Brasil, em 1823, deixaram uma região demografícamente esvaziada e, no lugar das grandes habitações cónicas, palhoças de uma aldeia rural despersonalizada, onde quase 80% da população era composta de índios destribalizados e mestiços que não falavam a língua portuguesa como língua materna, com sérios problemas de identidade, e onde a qualidade de vida havia em muito se degradado. Não sobrou, desse período, um só edifício ou monumento colonial, nem sequer em ruínas, que testemunhasse o processo.
V. A TAPERA DE MANAUS
No ano de 1850, o Amazonas foi elevado à categoria de Província, separando-se do Pará. Dois anos antes, a vila de Manaus passara a ser denominada Cidade da Barra do Rio Negro, recebendo a denominação definitiva de Cidade de Manaus em 1856. Era a capital da nova província.
A cidade contava nesta época com quatro mil habitantes e 243 casas, das quais a metade — 122 — era de palha. Uma praça e 16 ruas. As casas eram pequenas para conter os seus habitantes. O aluguel era muito caro.
Os viajantes que passaram por Manaus no período de 1850 a 1880 deixaram depoimentos eloquentes sobre a paisagem "urbana" da "cidade".
Alfred Wallace (1850) queixa-se das ruas "onduladas e cheias de buracos, o que toma a caminhada sobre os seus leitos muito desagradável". Agassiz (1865) define a capital da Província como "uma pequena reunião de casas, a metade das quais prestes a cair em ruínas", e narra a sua participação, ao lado de Elisabeth Agassiz, em uma festa noturna oficial, quando os convidados, na ausência de carruagens, todos enfatiotados, foram obrigados a atravessar aos pulos as ruas enlameadas e escuras sob a luz exclusiva de uma lanterna.
O engenheiro Franz Keller (1867) ironiza: "A despeito de seu pomposo título — Capital da Província do Amazonas — Manaus é uma cidadezinha insignificante de uns 3 mil habitantes. Ruas sem calçamento e pessimamente niveladas, casas baixas e cabanas de construção a mais primitiva sem nenhum cuidado de beleza arquitetônica".
O armador, precursor dos urbanistas, encarregado de marcar os limites dos bairros e o alinhamento das casas, passa a desempenhar um papel ainda que tímido neste período, conforme mostra com muita propriedade Mário Ypiranga.
Algumas ruas novas e um pouco mais compridas começam a surgir em direção ao norte e, apesar da ausência de luz pública, a iluminação particular à base de manteiga de tartaruga se faz presente em algumas residências. As peneiras das janelas começam lentamente a ser substituídas por grades. Mas, até quase o final do século, a cidade continua com o título de "Tapera de Manaus", que só mudaria para "Paris dos Trópicos" com o governador Eduardo Ribeiro que, a partir de 1892, tem um papel importante na transformação da cidade, elaborando um plano para coordenar o seu crescimento e iniciando a sua execução.
VI. A "PARIS DOS TRÓPICOS"
As indústrias dos Estados Unidos e da Europa necessitavam cada vez mais da borracha como matéria-prima e o Amazonas — seu principal produtor — orienta toda a sua economia para atender á crescente demanda.
Milhares de nordestinos fugindo da seca e do sistema de propriedade de terras do Nordeste são canalizadas em direção aos seringais, usando Manaus como ponte entre a terra natal e a floresta. Muitos deles se fixam na cidade, onde fornecerão a principal energia para as obras públicas. Somados à imigração em escala muito menor de estrangeiros, eles proporcionarão à cidade um crescimento demográfico espetacular, pulando de 5 mil em 1870 para 20.568 habitantes em 1890 e daí para 30.757 em 1900, ultrapassando em 1907 mais de 60 mil. Os nordestinos, portadores da língua portuguesa, vão mudar a composição majoritariamente indígena da cidade. Manaus, embora sem ler e escrever, passa a falar português, enquanto sua elite orgulha-se de falar francês.
A inserção da Amazônia na nova divisão internacional do trabalho exigiu mudanças significativas em Manaus, para que a cidade pudesse servir com eficiência os seus novos donos, que se encarregam diretamente de promover essas transformações de acordo com os seus interesses, que nem sempre coincidiam com os interesses do conjunto da população.
Neste período, com o concurso do capital, da tecnologia e das empresas inglesas são instalados os serviços públicos. Manaus é dotada de um sistema portuário moderno, de serviços de água encanada, esgoto e luz elétrica, de um sistema de coleta e disposição de lixo, de serviço telefônico e de uma linha telegráfica subfluvial.
Uma febre de construção toma conta da cidade, varrendo tudo aquilo que podia evocar os povos indígenas. Erguem-se prédios públicos monumentais como o Teatro Amazonas e o Palácio da Justiça — hoje marcos referenciais da cidade —, a Biblioteca Pública, a Alfândega, a Penitenciária, e as instalações do porto flutuante. Surgem estabelecimentos bancários e lojas com os nomes "exóticos" de "Louvre", “Au bon marche", "A Ia ville de Paris", além de alguma residências majestosas, vilas, palacetes, bares, restaurantes, hotéis e cabarés, contendo em seu interior móveis e tapetes europeus, pianos alemães, jarras de Sèvres e louça de Limoges.
Sobradões portugueses usam azulejos de inspiração colonial para o seu revestimento externo, alguns com motivos que se tornavam completos apenas com 16 peças. Sobradinhos apresentam gradis na entrada e beirais de chumbo com motivos florais trabalhados e rebuscados. Escadarias de mármore italiano, portas e janelas mouriscas, balcões gradeados, amplas varandas cobertas com beirais de chumbo trabalhado, biqueiras de bronze, estatuetas de louça branca vão dominando pouco a pouco a paisagem do centro da cidade. E realmente a "glória" e o "progresso" passando em seu "belo e doirado coxim" como canta o Hino Municipal composto na época (1906).
O plano executado no governo Eduardo Ribeiro e de seus sucessores nivelou ruas, projetou novas avenidas e boulevards, alinhou e calcou as principais vias, construiu praças e jardins, instalando neles coretos, estátuas, fontes e chafarizes importados da Europa. Se não removeu montanhas, arrasou morros, aterrando com eles diversos igarapés como o do Espírito Santo e do Aterro, transformados nas duas principais avenidas da cidade até os dias de hoje. No caso dos igarapés maiores, foram construídas pontes de pedras e ferro para permitir que a cidade se espalhasse além deles. A cidade deu as costas ao rio e expandiu-se em direção ao norte e à leste. As antigas picadas que levavam às roças, transformadas depois em estradas, viraram avenidas, como a Sete de Setembro e a Epaminondas.
O prof°. Bradford Burns, da Universidade de Miami, que estudou esse período, considera que, em 1910, "Manaus alardeava com orgulho todas as civilidades de qualquer cidade européia de seu tamanho ou mesmo maior".
Miranda Correia, em seu "Roteiro Histórico e Sentimental da Cidade do Rio Negro", define a nova paisagem arquitetônica como uma variação entre "um neoclássico um tanto romantizado até às inovações do art-nouveau". Para Mário Ypiranga, na "Fundação de Manaus", trata-se de um estilo arquitetônico "insolente e apressado", arremedo entre outros do isabelino, do árabe, do espanhol e do português.
O processo de urbanização de Manaus durante o período do "ciclo da borracha", não teve, no entanto, apenas o caráter idílico emprestado a ele por alguns autores, que fazem a apologia da dependência ao capital estrangeiro e consideram nostalgicamente que qualquer tempo passado foi melhor. O traçado urbano de Manaus, na realidade, foi se ordenando em função de privilégios de fortuna de uma minoria. Portanto, ao exaltar o boom da borracha, sem qualquer visão crítica, exalta-se também a opressão de que se nutria a opulência dourada.
O escritor Márcio Souza, analisando este período, afirma: "Manaus foi a primeira construção KTTSCH brasileira, uma cidade às sonho e delírio (...) que não é verdadeiramente cidade, mas decoração, cenografia, palco ideal para a reificação colonialista".
O "progresso" só passou em seu belo e dourado coxim para alguns: uma minoria. Para a maioria da população — justamente aquela que construiu a cidade — significou um degradamento das condições e da qualidade de vida.
O Cadastro Predial de Manaus, publicado no "Mensáno de Estatística (n° 31) revela isso: na época em que Manaus tinha um total de 10.358 casas, menos da metade era de alvenaria, enquanto 5.710 casas foram colocadas na categoria de casebres, estâncias, barracões e casas de taipa ou de madeira.
O sociólogo André Araújo, que desde 1919 se preocupou com a questão da habitação no Amazonas, aplicou questionários, levantando dados sobre aproximadamente 2 mil casas de onze bairros pobres de Manaus. O seu trabalho revelou que a "Paris dos Trópicos", ao procurar negar a sua identidade para buscá-la "no outro", não percebeu que estava cercada por uma "banlieu" de nordestinos famélicos e índios destribalizados e tristes, morando em infectos mocambos.
Mais de 60% das casas eram de taipa nua, cobertas de zinco ou de palha, pequenas, de chão batido e socado, sujas. Igual porcentagem ratava localizada perto de charcos, igarapés, rios e alagadiços, sem qualquer urbanização, sem esgoto, sendo invadida periodicamente pelas águas. A maioria dessas casas possuía um só quarto, mas abrigava de sete a nove pessoas, dormindo em redes, uns sobre os outros, sem água encanada. A cidade, portanto, continuava sendo erigida contra os interesses da população, amontoada em casas úmidas no inverno e quentes no verão, pouco arejadas.
As duas Manaus — a dourada e a favelada — sofreram as consequências da crise da borracha, que mergulhou a cidade no marasmo. Durante a guerra de 1914-1918 e no período seguinte, com a depressão econômica, "mais de um milhar de prédios residenciais foram desalugados", criando a imagem de uma cidade-fantasma, conforme informações de um ex-prefeito, Agnello Bittencourt, em seu livro: "Fundação de Manaus: pródromos e sequência".
Os edifícios e os diferentes serviços públicos começaram a entrar em ruínas, sem que os seus proprietários ou o Estado pudessem mantê-los de pé. Sobraram deste período pelo menos 250 unidade inventariadas recentemente pela Representação da Fundação Pró-Memória em Manaus, que foram consideradas (te interesse para a preservação. Tombados oficialmente pelo Patrimônio Histórico existem apenas o Teatro Amazonas (1966), o Reservatório do Mocó (1985), o Mercado Público (1986) e o Conjunto do Porto de Manaus (janeiro 1987). A Zona Franca de Manaus vai acelerar o processo de demolição dos prédios construídos no período "dourado" da borracha.
VII. A "MIAMI BRASILEIRA"
A criação da Zona Franca de Manaus(ZFM) em 1967 implantou um modelo econômico baseado na exploração da força de trabalho barata amazonense, na concessão de incentivos fiscais pelo Estado a grupos privados nacionais e multinacionais, na isenção de impostos, na transferência de lucros acumulados para fora do Estado sem reinvestimento produtivo, e criou para tanto um Distrito Industrial, onde se concentram as novas indústrias, cuja produção é destinada ao mercado externo e não utiliza nenhuma matéria-prima regional.
Com a ZFM, Manaus inchou, espraiando-se em todas as direções e invadindo o espaço da floresta. A população pulou de 200 mil habitantes nos anos 60 para 953.307 em 1980, de acordo com o IX Recenseamento Geral do Brasil (1980), estando atualmente estimada em 1.100.000 habitantes.
As novas indústrias, criando apenas 40 mil novos empregos em 20 anos, não foram capazes de absorver a enorme massa de caboclos que emigraram do interior em direção à capital, onde vêm aumentar o grande exército de desempregados e marginais. Essas migrações alteraram a paisagem urbana da cidade, colocando problemas graves no que diz respeito à infra-estrutura de serviços básicos — saneamento, coleta de lixo, água encanada, luz, esgoto, sistema viário, transportes coletivos — bem como problemas relativos às condições de moradia, saúde, educação e trabalho.
A infra-estrutura urbana de Manaus continuou praticamente a mesma de 1910, limitada ao centro comercial e residencial. A cidade não estava preparada e nem se preparou para receber o proletariado industrial e o exército de reserva. Os "filhos da floresta"que vêm apodrecer em Manaus — os sem terra — passaram a invadir sistematicamente os espaços desocupados nos arredores da cidade para erguerem aí as suas habitações.
Em 1969, a área invadida da Compensa recebe a denominação pela imprensa da época de "Cidade de Palha", como referência ao tipo de material usado na construção das casas — o mesmo das habitações cônicas dos índios Manáo. Os próprios moradores ergueram as paredes, traçaram artesanalmente as ruas e lotearam improvisadamente os terrenos.
A partir de então e até hoje — nesse momento é a Vila da Paz II — as invasões foram se sucedendo umas após as outras, criando favelas, sem luz elétrica, sem água encanada, sem esgoto, mergulhadas na poeira e na lama, ligadas por transportes coletivos precários.
Ò "Plano de Governo 1971-1974", em plena época da ditadura militar, já reconhecia a "existência de um grande número de barracos que não possuem as mínimas condições de habitabilidade", e chamava a atenção para o cinturão de miséria, fome, desemprego, marginalidade, delinquência, prostituição e mendicância que cercava Manaus.
A Companhia de Habitação do Amazonas (Cohab-AM) iniciou a construção de conjuntos habitacionais financiados pelo BNH, totalizando cerca de 7.633 unidades residenciais neste período, sem contudo resolver o problema. Esses conjuntos praticam uma política de terra arrasada, derrubando as árvores e deixando o terreno nu, desrespeitando ainda todas as características da cultura local.
O traçado urbano da cidade também sofreu alterações que ignoram a cultura e a tradição amazônica. Milhares de novos veículos passaram a circular pelas vias da cidade, despreparada para recebê-los. Avenidas de largas pistas foram abertas — é certo — mas se limitaram a ligar o centro comercial com o aeroporto, com o Hotel Tropical e pontos de escoamento dos bens produzidos, deixando abandonada toda a periferia e os bairros proletários.
Os 37 Km de braços de rios e igarapés que circulam dentro da área de Manaus — sobreviventes do período da borracha, testemunhas mudas da ocupação indígena — foram considerados pelas atuais autoridades como pontos de estrangulamento e obstáculo para o escoamento do trânsito. Tratados como inimigos, esses cursos de água estão condenados a desaparecer da mesma forma que os povos que habitaram as suas margens, para dar passagem ao "progresso". Seis igarapés, importantes pontos de referência da cidade, serão afetados pelo projeto denominado "Manaus Moderna", atualmente em fase inicial de execução.
O projeto elaborado em segredo pelo governo do Estado, que já obteve junto ao Banco Mundial um empréstimo de 100 milhões de dólares, repassado em etapas sucessivas às empresas construtoras e de consultoria, objetiva: construir uma grande pista de 5 Km unindo o centro ao Distrito Industrial, margeando a orla do rio Negro e passando por seis braços de rios que hoje estão ocupados por 50 mil famílias que vivem em situação de miséria quase absoluta. Não existe no projeto nenhum plano de arborização ou criação de área de lazer.
O conceito de espaço urbano e vida coletiva não se fez presente no processo de expansão da cidade. O espaço das praças do período da borracha foi reduzido e suas árvores derrubadas para dar lugar a estacionamentos e garagens de carros ou para a edificação de prédios públicos. Os novos conjuntos habitacionais não contemplam espaços verdes para área de lazer ou praças, não possuem rede de esgotos, e suas calcadas — ali onde existem — foram construídas de maneira irregular pêlos próprios moradores, obrigando os pedestres a caminhar pelas pistas — lugar de lazer das crianças — num combate continuo com os carros.
O lixo toma conta das principais artérias, à espera de que os urubus façam o serviço dos garis. O jogador mineiro Reinaldo, de passagem por um clube local, manifestou publicamente no ano passado o seu horror pela quantidade de urubus e moscas que infestam a cidade, provocando indignadas reações de tom provinciano.
A agressão à natureza e à ecologia transformaram o clima da cidade. Longe de ser aquele clima "ameno e agradável" constatado pêlos viajantes até o final do século passado, Manaus é uma sauna.
As construções do Kitsch zona-franquense, de tremendo mau gosto, janelas retas e quadradas, lambris de metal, vidro fume e ar refrigerado, buscam como modelo, agora, a cidade de Miami, onde os beneficiados pela Zona Franca vão passar suas ferias. Construções que se contrapõem à floresta, aos igarapés e às favelas.
O escritor Márcio Souza, nascido em Manaus e considerado "maldito" pelo poder local, é um dos mais brilhantes críticos da cidade.
Observa com propriedade, em seu livro "A Expressão Amazonense" que a atual arquitetura baré vai em sentido inverso às experiências da arquitetura ecológica de Severiano Porto, um arquiteto cujos projetos resgatam diversos materiais amazônicos e elementos da criatividade indígena na busca e encontro de várias soluções de habitar e ocupar o espaço amazônico.
Quem nunca andou debaixo de árvores, não sabe que tem direito à sombra. Um povo sem memória e sem identidade é um povo incapacitado até para nutrir sonhos do presente para com o passado ou para com o futuro que ele pretende construir. O resgate desse passado histórico, a tomada de consciência das experiências coletivas são pré-condições para que a população de Manaus se organize e impeça que a sua cidade, iniciada sobre um cemitério indígena, continue sendo construída sobre os cadáveres de seus descendentes — os caboclos.
Fim
A HISTÓRIA QUE A BURGUESIA INSISTE EM IGNORAR, COLOCAR EM SEGUNDO PLANO
A administrção do governo municipal do Sr. Amazonino Mendes acabou com as disciplinas de Fundamentos da História do Amazonas, "inserindo" na disciplana de História, que já está sobrecarregada com a história geral e a do Brasil. Em nome da qualidade do ensino ou corte de pessoal, o fato é que a SEMED mostrou nesse ato administrativo, o que os historiadores já diziam - há um desprezo pela história da Cidade e do Amazonas. A mesma pessoa que em 1996 pagou 800 mil dólares para o tenor José Carreras cantar no Teatro Amazonas, quando foi Governador, acabou com as disciplinas de história e geografia do Amazonas na rede municipal de ensino.
Carlos Alberto