segunda-feira, 23 de maio de 2016

A trajetória de Eduardo Gonçalves Ribeiro V - MÁRIO YPIRANGA MONTEIRO


CAPÍTULO 5

DO MUNDO NADA SE LEVA



Não elegemos o governo Silvério Nery como 0 mais visado pelas diatribes da imprensa. Parece-nos que até foi mais bem-sucedido quanto ao acervo de elogios. No entanto, foi nesse governo que vieram à tona acusações fundadas ou não sobre desmandos financeiros de Eduardo Ribeiro, Rui Barbosa, Serzedelo Correa e outros mais, menores em projeção politica. A que se deve essa campanha difamatória ou justa ao coronel Ramalho Júnior, ao dr. Pedro Freire... ? Certo que muita gente saída às carreiras de Manaus, de medo do chicote ou da ameaça de morte, teria motivos para desencadear mofinas e agressões contra governos e outras autoridades. Isso
sempre foi uma constante nas administrações. Todavia, o affaire Eduardo Ribeiro-Rui Barbosa, ou Serzedelo Correa-Rui Barbosa, originado da "complacência" do governo do dr. Silvério Nery para com seus adversários políticos, deixa dúvidas no espírito mais eclético. De repente, uma notícia invulgar, capciosa, com aparência mediúnica (opinião de um dos polemistas), traz à tona o nome de Eduardo Ribeiro e umas notas desabonadoras contra as proclamadas virtudes morais do conselheiro Rui Barbosa, interessado em dois episódios rentáveis (em moeda sonante): o funcionamento do Banco do Estado (do Amazonas) e a questão do Acre. Temos a impressão de que o estopim foi aceso pela nota discrepante aparecida no, jornal do Commercio do Rio de Janeiro, de outubro de 1900, ineditorial assinado por A. J. de Sousa Botafogo, ao parecer acreditado junto a certas especulações espíritas (existem livros desse autor ou com pseudônimo semelhante), mas é só uma suspeição. Na verdade, o caso explodiu antes do referido ineditorial, dias antes, poucos dias antes, talvez um ou dois dias, mas de qualquer forma a ele se refere o dr. Serzedelo Correa, autor do artigo em que inicia o desagravo à pessoa do dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro. Vamos transcrever todo o material por ser de suma importância para a história póstuma do governador atacado pelos adversários políticos de ontem, que ainda eram muitos e como se sabe estava,m na capital federal. Comecemos pela extravagante nota titulada "Espiritismo":

Evocado do outro mundo, onde vivo, acudo ao apelo do sr. João Serzedelo Correa para declarar que nunca acusei o sr. Rui Barbosa de desonestidade; se tivesse motivos para fazê-lo, fá-lo-ia pela forma que imprimo a todos os meus atos; não sou bomem de dize tu, direi eu. O que fiz, guando acusado de ato menos digno, foi defender me, declarando que aceitava, como ainda hoje aceito, discussão a meu modo sobre todos os atos de minha vida pública ou particular; não por convencional respeito à sociedade, que não mo merece, e de quem nada quero, senão que me deixe morrer em paz; mas para legar respeitado a meus filhos o nome que respeitado herdei de meu Pai.

É realmente uma nota bem característica, mas não evoca nada que diga respeito a espiritismo e, sim, a velhacaria. O morto que assim "fala" é sem dúvida nenhuma o dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro, e a pessoa que publicou o ineditorial deveria ser algum "fantasma" de dentro do jornal. O leitor, que não conhece senão por alto a vida recoleta do governador extinto, ignora que ele teve um filho, mas não se fala de muitos filhos. Ou quem escreveu a nota ignorava. essa particularidade? Outro fato é necessário aduzir a essas questões: o major Constantino Nery e seus amigos da bernarda viviam no Rio de Janeiro e não morriam de amores pelo dr. Serzedelo Correa, fiel guarda da memória do dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro, que defendeu com bravura. Tanto que viria a público com um longo artigo publicado no Jornal do Commercio de 22 de outubro de 1900, artigo que vamos transcrever in totum:

A MORTE DO DR. EDUARDO RIBEIRO ÁGUIA OU ABUTRE?

Na minha qualidade de amigo do dr. Eduardo Ribeiro, deveria estar satisfeito com a resposta branda e tímida que o sr. conselheiro Rui Barbosa se dignou de dar ao meu artigo anterior subordinado ao título acima, resposta esta em que s. exa. atira para fora de si a responsabilidade das aleivosias contidas no local de A Imprensa, contra a memória do meu amigo, para colocá-la toda sobre as costas de algum dos seus auxiliares de redação. Se, porém, a resposta de s. exa. se limitasse a isso, eu, ou ficaria calado, ou lhe mandaria daqui os meus agradecimentos por ter vindo a público, com o fulgor de seu nome, declarar que não havia insultado a memória de Eduardo Ribeiro.
Acontece, porém, que s. exa., em defesa própria, tachou-me de detrator, e cbamou de calúnias as afirmações que fiz da sua co participação nos proventos da concessão do Banco do Amazonas.
Volte, pois, à imprensa para que o público saiba que não costumo dizer senão aquilo de que tenho plena consciência. Disse acima que a resposta do sr. Rui Barbosa era branda e tímida. Digo mais, é medrosa. Para que s. exa. me pudesse chamar de caluniador era preciso que pnwasse.
1.° - Que não escreveu a carta a Eduardo Ribeiro, pedindo a concessão do Banco a Manuel Floriano de Brito.
2.° - Que não escreveu carta idêntica ao dr. Ramalho.
3.° - Que o seu cunhado Carlito que era gerente de A Imprensa, nesta ocasião, não recebeu 40 % quando os outros sócios só tinham 20 %, porque precisava repartir com s. exa.
4.° - Que a organização e plano do Banco não fossem produtos da sua concepção.
5 ° - Que o secretário da sua folha nessa época, o ilustre dr. Joaquim Pereira Teixeira, não fosse também um dos sócios na aludida concessão, cuja parte foi vendida aos srs. drs. João do Rego Barros e Lavrador.
      Depois que s. exa. fizer isso poderá então provar que não é sócio nem tem o menor interesse na concessão do Banco do Amazonas. Isto será fácil de provar a s. exa., porque talvez não haja documento da sua co participação, o gue virá confirmar o prolóquio popular gue, não querendo ofender a s. exa., diz que ` rato não deixa recibo":
E já que s. exa. veio em parte bater o mea culpa, declarando que não escreveu nem mandou escrever a local insultosa à memória de Eduardo Ribeiro, novamente apelo para suas crenças de católico pedindo que assista à missa que eu, minha senhora e meus filhos mandamos rezar em sufrágio da alma desse grande cidadão, e que se realizará na terça feira 23 do corrente, às 9 1 /2 horas da manhã na igreja de S. Francisco de Paula. Tenho o maior interesse de ver que s. exa. ora, e garante perante Deus, em que tanto crê, que nunca foi seu intento profanar a memória do meu grande e desventurado amigo Eduardo Ribeiro. João Serzedelo Correa
P. S. - Só após ter escrito estas linhas é gue um amigo chamou a minha atenção para um ineditorial do Jornal do Commercio em que o sr. A. J. de Sousa Botafogo declarou nunca ter acusado o sr. Rui Barbosa de desonestidade. Daria resposta cabal a s. s. se não estivesse convencido de que semelhante declaração não partiu do seu punho, e sim de algum inimigo que porventura possui e que o quis fazer passar por um doido vulgar, servindo-se para isso abusivamente do seu nome. Realmente não se compreende como e por gue uma resposta a assunto semelhante venha subordinada ao título de "Espiritismo': Não posso entender esta mistura: Eduardo Ribeiro, Rui Barbosa, Serzedelo, cartas, Banco do Amazonas e... espiritismo. A ser que o sr. Botafogo passou a si próprio semelhante atestado de alienação mental, devo declarar que nada tenho que ver com o caso. S. s. que recorra ao sr. dr. Teixeira Brandão, especialista na matéria e diretor da Assistência de Alienados, ou então gue peça cômodos na casa de doidos da Gazeta de Notícias.


A segunda notícia não é menos interessante e foi publicada em O Jornal de 22 de outubro de 1900, do Rio de Janeiro:

AMAZONAS

Quer Fuão Correa, no seu proverbial e inglório afã de fazer escândalo, ser o iconoclasta dos créditos da nova e honrada administração amazonense. Não admira, porém, Correa, por estas mesmas colunas já elevou o dr. Silvério Nery ao sétimo céu da glória política. Mas, naqueles tempos ainda se não havia dado o célebre encontro de Belém; de Freire e Guapindaia ainda empunhavam qualquer coisa aí por Manaus ou Copacabana... Passaram-se os dias. veio o fatídico encontro e os cinqüenta contos não quiseram aceder aos meigos acenos do fariseu da nova espécie. O homem zangou-se e ei-lo a trovejar nos a pedidos. Quando aparecerão outros Barés?!... Quem o sabe! Por estes quatro anos pelo menos... a tua alma será triste... Ao apetite insaciável, ao sabor satânico dos maldizentes de todos os tempos, não pode agradar a correção, a lisura, a integridade dos homens de bem.
O maior crime (sic) do eminente governador do Amazonas é ter calafetado as enormes rachaduras que encontrou no cofre estadual, traçando rijo cordão sanitário entre a sua Tesouraria e os aventureiros gulosos que enxameavam nas ruas de Manaus.
Estão fechados os escoadouros dos dinheiros públicos, tão prodigamente distribuídos durante as últimas administrações. Repressão, por isso, às paixões, crescem os olhos, pulula a difamação.
Descanse Fuão Correa.
A fumarada do seu despeito não maculará jamais a reputafão e a conduta irrepreensíveis do ilustre dr. Silvério Nery, que neste momento dirige sábia e criteriosamente os destinos do seu futuroso Estado natal.
S. eaca. tem o nome feito no país e fica absolutamente a cavaleiro dos botes da calúnia que ele sabe desprezar e percorre desassombrada e tranqüilamente a brilhante reta que se traçou como particular e como estadista de eleição na grande obra da regeneração financeira, administrativa e política do Amazonas, argamassando o imorredouro pedestal que perpetuará a glória de seu nome imaculado e querido.
Um conselho ao difamador: não envolva mais a respeitabilíssima família do dr. Nery nas suas misérias e diatribes.
Quem me avisa...
Ajuricaba.
Rio, outubro de 1900.


Realmente o escriba que preferiu mascarar-se sob pseudônimo tâo amazonense e que seria, na pior das hipóteses, um fâmulo a soldo da família visada (a família não foi acusada de desmandos e, sim, o politico dr. Silvério Nery) estaria em condições de realizar a ameaça pública contra o dr. Serzedelo Correa, ameaça, como se viu nas entrelinhas, de morte ou vapulação. Também os correligionários do eminente dr. Silvério Nery já haviam projetado erguer-lhe uma estátua, da mesma forma como haviam projetado erguer um monumento a Eduardo Ribeiro, monumento que para nossa maior vergonha só foi tomado realidade oitenta e oito anos depois de sua morte e mais ou menos no local onde ele iria chantar um dos maiores e mais belos palácios do Brasil. A glória e a fama pesam demais sobre as consciências medíocres: nunca mais falou-se no monumento projetado ao grande Lobo dAlmada, mas o que se vê nas nossas praças são (afora as homenagens justas) bustos de Florianò Peixoto, de Santa-Anna Nery, de Pedro I, de fulano e beltrano.
A memória de Eduardo Ribeiro era para muitos um insulto que conviria afastar do caminho, relegar ao esquecimento, eliminar brutalmente como foi ele eliminado do número dos vivos por algum celerado a soldo. Voltamos a lamentar a carência de documentos nos arranjos improvisados do espólio da vítima duas vezes infeliz. Nunca se falou dos dois coches, dos cavalos de sela, da mobília cara da Chácara
Havia na Manaus do meu tempo de estudante de Direito um cidadão português de nome Joaquim Fanal, que havia sido cocheiro e tratador dos cava.los na baia da Chácara, depois motorneiro de bonde e, finalmente, operário nas obras do velódromo da Cachoeirinha, de propriedade do dr. Deodoro Freire. Com aquele senhor de sessenta anos mais ou menos tivemos nós conversas demoradas, a que às vezes assistia o dr. Deodoro Freire. Sempre foi nosso costume nâo escrever história a partir de depoimentos pessoais. Sabemos como procedem as pessoas entrevistadas: ou omitem propositadamente fatos ou criam sugestões fantásticas. Áquele Fanal falava de um barco ancorado atrás da Chácara, no igarapé Manaú, que servia a Eduardo Ribeiro nos seus passeios águas abaixo até próximo do igarapé da Cachoeira Grande. Possibilidades que não sâo contrárias ao estamento da verdade e que não têm importância senão pelo fato de que dita embarcação (se é verdade que existiu) não aparece catalogada no inventário dos bens do falecido, como outros objetos raros e custosos trazidos por ele da Europa: quadros, porcelanas etc.


Depois da morte de Eduardo Ribeiro, os amigos e adversários políticos passaram à lixívia. Lavaram a roupa suja em público. Queimaram a imagem popular do ex-governador, ou tentaram fazê-lo em nome de uma coisa repelente que se chama politicagem, com o único objetivo de cimeirar outros ícones. Dizem dos assírios que apedrejavam o Sol quando o ocaso começava a obscurecer a natureza. E louvavam-no entusiasticamente quando renascia. No Amazonas, como deixamos dito e repetido, o Sol dos agraciados padecia desse ritual. Não houve
um só governador, nem antes nem.depois de Eduardo Ribeiro, que não fosse ultrajado e/ou nâo recebesse epinícios no antes e pedradas no após. É o costume das qualidades envolvidas no mistifório da política.
Agora, veremos como se defenderia o conselheiro Rui Barbosa, no seu jornal A Imprensa, das objurgatórias amáveis do sr. Serzedelo Correa, também um homem ilustre (25) e devotado amigo do dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro:

AO PÚBLICO

Dizendo que as locais de uma folha não são escritas nem revistas pelo seu redator em chefe, teria dito o que ninguém ignora. A Imprensa não é diversa dos outros jornais. Tem, como eles, numeroso corpo de redação, a quem incumbe essa tarefa, na qual não intervém o seu diretor senão excepcionalmente, guando a importância do caso o reclama, ou os seus auxiliares o consultam. Não se tendo dado esta hipótese, nem sendo ocasião daquela, a notícia, que me valeu a furiosa diatribe de ontem, é tanto obra minha como do meu espontâneo detrator.
Para defesa tão óbvia não valeria a pena de acudir com o meu nome aos prelos. O que a eles me traz é simplesmente opor a verdade a uma calúnia nova, cuja inigüidade emparelha com a da suposição, que armou contra a minha honra mais este gratuito agressor. Nunca fui parte em concessão oficial de espécie nenhuma No Banco do Amazonas, a que ali se alude, não tive, não tenho sociedade alguma. Minha amizade cóm o seu concessionário, o sr. MANUEL DE BRITO, vem da mais respeitável origem. Conbeci-o no eacílio, em Buenos Aires. Sou-lhe grato pelo carinho com que acolheu o desterrado. Nunca lbe recusarei os legítimos serviços da amizade. Mas nos seus negócios com o governo daquele estado nunca me tocou, nem me toca absolutamente o menor interesse.
Rio, 20 de outubro.
Rui Barbosa
(A Imprensa, Rio de Janeiro, 21 de outubro de 1900)

É estranho que o conselheiro firmasse opinião tão aberta, ele que já havia embolsado, como se disse antes, dinheiro do Amazonas para promover defesas que não foram muito corretas do ponto de vista da história dos nossos limites, haja vista que não era perito em azimutes. Mas o tópico acima ainda revela outras falhas: o conselheiro simplesmente não se defendeu das acusações do dr. Serzedelo Correa. O hábil advogado e jurista costumado a polêmicas arrasadoras, ficou devendo ao público uma satisfação moral que a nota capciosa acima não soluciona a contento. Recebeu ou não recebeu os bagarotes? O homem que se finaria louco havia muitas razões para enlouquecer... e uma delas foi a ingratidão dos corvos.
Vejamos agora o primeiro artigo do dr. Serzedelo Correa, aquele que deixaria dançando na corda bamba o conselheiro dr. Rui Barbosa:

A MORTE DO DR. EDUARDO RIBEIRO ÁGUIA OU ABUTRE?

Sob o peso ainda da dolorosíssima impressão que me causou a notícia da morte imprevista do meu querido amigo dr. Eduardo Ribeiro, com o coração retalhado aos golpes da desoladora tragédia com que terminou a existência terrena daquele grande coração de patriota, é que pego da pena para remover da estrada que ele tem de percorrer até a posteridade o lixo com que o querem aterrar e as pedras com que pretendem evitar a sua passagem gloriosa e desassombrada.
Morreu Eduardo Ribeiro! Morreu, porque procurou pelas suas próprias mãos livrar se do espetáculo degradante que lhe forneciam todos os dias aqueles a quem ele, na sua grande magnanimidade, tinha arrancado da lama e da miséria, para colocar na posição de homem. Não é, porém, contra esses que se locupletaram com seu prestígio e com as sobras da sua generosidade que me venho postar na defensiva.
Esses, bem os conheço eu. Sei perfeitamente que o papel de Eduardo Ribeiro na política do Amazonas foi da avestruz meiga e incauta, que errou de ninho e foi incubar nas margens do grande rio ovos de crocodilo, sem se lembrar de que da eclosão desses ovos surgiriam os seus mais ferozes algozes, aqueles que o deveriam devorar. Esses, os atuais dominadores da política amazonense, que foram encontrados por Eduardo Ribeiro entre as torturas da miséria e as transigências do caráter, já são de há muito conhecidos de todos e aplaudidos por aqueles que acham que a ingratidão é a independência do coração. A minha principal revolta é contra o sr. conselheiro Rui Barbosa, gue, descendo da sua costumeira altura de águia, veio corvejar como um abutre vulgar sobre os destroços do meu infeliz amigo. É-me realmente doloroso ser obrigado a contrapor ao respeito e à admiração que sempre tive pelo talento do redator-chefe da A Imprensa, e que julgo uma das maiores glórias da intelectualidade brasileira, a repugnáncia que me inspirou a leitura das linhas com que noticiou a morte de Eduardo Ribeiro.
É de uma pungentíssima ironia a frase última desta local publicada pelo órgão em gue o sr. Rui Barbosa defende os seus erros e a sua personalidade, abusando para isso da confiança dos que fundaram uma empresa jornalística, da qual lhe entregaram a direção suprema.
"Agora, segundo a comunicação telegráfica, sabemos que o dr. Eduardo Ribeiro, iludindo a vigilança dos que certamente o cercavam, enforcou-se, saltando da vida, satisfazendo o seu último sonho de potentado e milionário."
Potentado! Milionário! Estas duas simples palavras revelam todo um mundo de infâmias e de calúnias.
Abastado, era Eduardo Ribeiro, e, como de simples capitâo do Exército, chegou a essa abastança, eu o poderei provar sem um único indicio que possa ser deprimente para o seu caráter. O sr. conselheiro Rui Barbosa esqueceu-se provavelmente, quando escreveu ou mandou escrever aquele período com que rematou a fatídica local, de que esse potentado, esse milionário gue se chamou Eduardo Ribeiro foi o mesmo homem que recebeu, guando presidente do Congresso Amazonense, uma carta de s. exa. pedindo seus bons favores para que o senhor Manuel Floriano de Brito (26) obtivesse dos seus amigos do governo a concessão do Banco do Amazonas uma das mais escandalosas que se tem visto. E não admira que o sr. Rui Barbosa tivesse essa falta de memória, quando falha muito mais grave teve v. exa. escrevendo carta idêntica ao sr. Ramalho, a quem nunca conhecera e com quem não entretinha relações nem de simples cortesia.
De ambas essas cartas tenho eu conhecimento não só por tê-las lido, como também por ouvir comentários sobre elas. Tão famosas se tornaram no Amazonas, que por lá havia quem delas soubesse trechos inteiros de cor. Essa célebre concessão do Banco do Amazonas, de que o sr. Rui Barbosa é sócio, porque o associado Carlos Bandeira, cunhado de s. exa., foi contemplado com 40 % dos proventos, não foi provavelmente que concorreu para gue Eduardo Ribeiro se tornasse potentado e milionário.
Estou aqui, estou a ver o sr. Rui Barbosa declarar em artigo puxado a longos períodos brilhantes que o fato do seu cunhado ser sócio de uma empresa não guer dizer que s. exa. o seja. Eu, porém, conheço muito bem a história toda e sei, portanto, que o sr. Carlito teve 40 % porque tinha de dar metade a s. exa.
Sei mai.s que após o recebimento da primeira prestação do governo amazonense, na importância de três mil e tantos contos, o sr. Nery rescindiu o contrato e os concessionários ficaram calados, por lbes haver o sr. Rui Barbosa acenado com a possibilidade de uma indenização.
Quem será mais potentado, o dr. Eduardo Ribeiro, que acumulou os seus haveres pelos seus hábitos de economia, ganhando durante sete anos de seu governo a soma de trinta contos anuais, ou o sr. Rui Barbosa, qúe meses antes da proclamação da República se quis atirar de uma janela abaixo por atrasos em aluguéis de casa e agora afronta a opinião pública com carruagens? S. exa., antes de ir cuspir sobre um cadáver respeitável; antes de faltar com o        respeito que deve a si próprio, à posição que ocupa e ao nome que adquiriu, deve vir a público para responder ao sr. Botafogo e destruir as acusações de desonestidade que lhe foram feitas por aquele senhor.                                  
                                                  Por que não o fez s. exa. ?                             
Porque tinha certeza que nesses fatos seriam impotentes todos os seus recursos de imaginação. Só admitirei aleives partidos do sr. Rui Barbosa  depois gue s. exa. provar que é o imaculado que apregoa.
                                                 Potentado Eduardo Ribeiro?                                  
E foi para a manfestação promovida a esse potentado gue o sr. Floriano de Brito, sócio do sr. Rui Barbosa, no Banco do Amazonas, concorreu com          5 00$000.                     Miliionário o homem que só se aproveitou dos seus sete anos de administração para transformar a cidade de Manaus, e deixá-la no ponto em que hoje se acha, coisa que bastava para fazer o nome e a glória do administrador!                               Por que motivo acha o sr. Rui Barbosa que Eduardo Ribeiro morreu com o sonho de potentado e milionário? Será, porventura, porque nunca esteve ameaçado de penhora por dívidas em confeitarias? O que é que pode levar mais facilmente à grande riqueza? Comprar terrenos a preços ínfimos pelo seu nenhum valor e valorizá-los depois por meio de melhoramentos, ou encher as arcas do tesouro (de) moeda falsa com gue se inundou o país durante a gestão do sr. Rui Barbosa na pasta da fazenda?                           S. exa. leva diariamente a arrancar do fundo do seu tinteiro queixas amargas porque o injuriaram e porque lhe atiram ao nome calúnzds sobre calúnzizs.                          Se é que injúrias e calúnias doem tanto a s. exa. é caso de perguntar por que motivo as exerce até contra os mortos?                
                                   É que o sr. Rui Barbosa, na sua dupla doença de delírio de perseguição e megalomania, julga-se o único injuriado e o único que pela sua superioridade não o pode ser. Na sua fase de delírio e de perseguição acha que é caluniado quando se lhe atira à face a responsabilidade, que lhe cabe exclusivamente, da desgraçada situação financeira atual.                                       Nos períodos de megalomania julga-se um          inacessível supremo, e não admite que neste país haja o cérebro que tenha o direito de pensar em ' desacordo com os seus dogmas. Tenho plena certeza de que o sr. Rui Barbosa, pondo a mão na consciência, compreenderá que cometeu um ato de suprema desumanidade insultando assim a memória de um morto, e que reconhecerá, pelo menos, a nobreza da minha atitude defendente, por espírito de gratidão, um homem, diante do qual, se existissem interesses, tais interesses estão fechados no túmulo. Não fui dos apaniguados do dr. Eduardo Ribeiro; nunca explorei a sua posição. Tenho, ao contrário, cartas dele, como posso provar, agradecendo os poucos serviços que porventura lhe pude prestar. Quando, porém, a fatalidade política me atirou daqui por imposição da ditadura, durante a revolta, eu encontrei em Eduardo Ribeiro um seio amigo que me acolheu, e que soube ser reconhecido dando-me, nesta difícil ocasião, uma colocação que, além de honrosa, representava a subsistência de minha família.
Agora, que a senha política do Amazonas está cumprida, e gue era esta - "E preciso eliminar o negro custe o que custar" ; posso dizer ao sr. Rui Barbosa que Eduardo Ribeiro, morrendo, deixou ao menos um amigo que ainda não penalizou a honra de que defenderá a sua memória, custe o que custar.
Que o sr. conselheiro Rui'Barbosa me permita, ao terminar, um apelo às qualidades, que sei ainda existem na sua alma pessimista. S. exa. é um pai tão extremoso, quanto eu o sou. É um amigo inexcedível da família. É para o lar a personificação do carinho e do respeito. Pois bem. É em nome dessas coisas sagradas da família, que eu peço a s. exa. que, na sua qualidade de crente fervoroso e de católico superior, vá assistir à missa que eu, minha senhora e meus filhos mandamos rezar em sufrágio daquele grande e desventurado amigo.. exa. mostrará assim que não foi seu intento e que não está na sua generosidade cuspir insultos sobre um cadáver.
João Serzedelo Correa
(Rio, Jornal do Commercio, 20 de outubro de 1900)

O leitor estaria na iminência de requerer comentário breve, ao menos, para certos parágrafos do artigo acima transcrito, artigo que, pela lógica, deveria vir antes do primeiro. À circunstância de haver-se extraviado este primeiro artigo do dr. Serzedelo Correa, deve-se a alternância, que não modificou em coisa alguma a querela trava.da na imprensa. O dr. Rui Barbosa não responderia aos quesitos formulados pelo amigo do dr. Eduardo Ribeiro porque não teve condições morais para fazê-lo. Calar-se e engolir as reprimendas era o melhor alvitre, resguardando o nome.de possíveis avacalhações, pois é muito certo o ditado: quem tem rabo de palha não toca fogo no do vizinho. Pretendendo turvar a memória do dr. Eduardo Ribeiro por despeito, o grande jurista nunca viria a público dizer quanto embolsou do governo amazonense para certas transações como aquela do Banco Amazonense. Sua defesa pública foi mascarada pelo receio de ser apontado à irrisão popular. Não era novidade, na época, e o dr. Rui Barbosa era apenas um mortal que necessitava comer, andar de carruagem numa cidade em que nâo havia muitos tipos de condução, sustentar a casa e o seu estadão de gênio, de "águia de Haia". É por isso que o dr. Serzedelo Correa segwia indeciso entre depenar a águia e torcer o pescoço ao abutre. As duas aves de presa se conluiavam no mesmo processo fisiológico de comer viva a vítima e depois defecar em cima do cadáver. Era a regra geral e não há por que admirar, se já deixamos escrito dessa filáucia.
Entretanto, há a considerar no artigo acima uns dois ou três tópicos que o leitor desavisado de assuntos da história do Amazonas não percebeu nem de longe... Referimo-nos primeiramente à senha - aliás uma réplica do delenda Cartago! - em que se reclama a destruição do negro, custasse o que custasse! Refraseando o que foi dito: "É preciso eliminar o negro, custe o que custar". O negro que obstaculizava a marcha gloriosa dos nepotes para a imortalidade ao menos terrena era o dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro. E quem servia de acólito para os Coelho Neto e os Rui Barbosa dizerem mal da terra e da gente era nada mais nada menos do que os eternos descontentes, os que não puderam abocanhar fabulosos lucros com as concessões disso e daquilo. O dr. Serzedelo estava. com razão e procedeu à altura desmascarando a águia famelga. Um outro tópico bastante pitoresco a que não podemos deixar de fazer alusão é aquele em que se fala de "ovos de crocodilo", chocados pelo erro da avestruz. Havia um sujeito sem cultura e até sem muito crédito moral, visado numa crônica célebre pelo maroto escritor Coelho Neto, cujo apelido era "Jacaré". Esse indivíduo, cujo pai português enriqueceu honestamente em Manaus (era pedreiro), chegando a mestre construtor de obras e contratante de serviços rentáveis do governo (vários governos, desde a Província), jogou fora, nos cassinos de Paris e de Manaus, a fortuna do pai, a da mulher e a sua particular, que fizera com encampações etcétera e tal. Era um mote alusivo a sua chocante postura para com as fêmeas de qualquer escala social, até criadinhas de cesta sob o braço. Morreu numa dependura de Pedro Sem e não podia jactar-se de ser branco, apesar do pai português. Foi um dos que, eclipsado o sol que o protegera sempre, transferiram-se com armas e bagagens para os Nery, de quem se fizera parente por afinidade. O fato de gastar o que era seu não perturba a consciência de ninguém; o que se torna estranhável é que quase todos eles trasfegassem as bagagens para o adversário de ontem, tripudiando sobre a desgraça do benfeitor. É como diria o poeta Augusto dos Anjos: "A mão que afaga é a mesma que apedreja".

NOTAS

(25) Serzedelo Correa, O rio Acre

(26)Esse ilustre desconhecido
havia obtido, pelo Decreto n° 416 de 2 de abril de 1900,
a concessão por espaço de cinqüenta anos
dos terrenos marginais dos rios Negro, Branco e Japurá a fim de
explorar o solo e subsolo. A Lei n° 306 de 10 deagosto de 1900, 
do governador Silvério Nery, anulou a concessão.





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